{"id":351,"date":"2024-07-10T13:58:25","date_gmt":"2024-07-10T16:58:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=351"},"modified":"2024-07-10T13:59:53","modified_gmt":"2024-07-10T16:59:53","slug":"comunicacao-de-riscos-em-desastres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2024\/07\/10\/comunicacao-de-riscos-em-desastres","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00e3o de risco em desastres"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <strong>Ana Karin Nunes*<\/strong> (Professora e Pesquisadora da Fabico\/UFRGS, Doutora em Educa\u00e7\u00e3o.)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As enchentes e inunda\u00e7\u00f5es que causaram o maior desastre clim\u00e1tico da hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul, em maio de 2024, afetando mais de 2,3 milh\u00f5es de pessoas, em 93% do total de munic\u00edpios do Estado, colocaram luzes sobre a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas eficientes na gest\u00e3o dos riscos decorrentes da reorganiza\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica mundial.<\/p>\n<p>Os efeitos catastr\u00f3ficos da sucessiva degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente pela a\u00e7\u00e3o do homem, j\u00e1 previstos h\u00e1 d\u00e9cadas por especialistas, est\u00e3o definitivamente instalados na vida e no cotidiano da popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha. O negligenciamento hist\u00f3rico da gest\u00e3o do risco, por diferentes governos e gera\u00e7\u00f5es, faz crescer agora o senso de urg\u00eancia no planejamento de cidades e solu\u00e7\u00f5es mais resilientes \u00e0 nova ordem clim\u00e1tica. Nesse contexto, tamb\u00e9m ganha destaque o debate em torno da comunica\u00e7\u00e3o de risco, parte do processo de gest\u00e3o de risco.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o de risco \u00e9 uma \u00e1rea interdisciplinar, que se abastece de conhecimentos das Ci\u00eancias da Sa\u00fade, Humanas, Sociais Aplicadas, Exatas e da Terra. Tem sua origem na \u00e1rea da Sa\u00fade, atrav\u00e9s da atua\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es como OMS e OPAS no enfrentamento a doen\u00e7as infectocontagiosas e infodemias. Tamb\u00e9m \u00e9 a partir da experi\u00eancia de campo da \u00e1rea da Sa\u00fade que a comunica\u00e7\u00e3o de risco ganha destaque como processo de m\u00e3o-dupla, de permanente compartilhamento de informa\u00e7\u00f5es entre v\u00e1rios sujeitos no sentido de construir mensagens confi\u00e1veis e que permitam a tomada de decis\u00e3o r\u00e1pida frente a situa\u00e7\u00f5es de perigo.<\/p>\n<p>A Pol\u00edtica Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Civil (PNPDEC), institu\u00edda pela Lei Federal N\u00ba 12.608\/2012 no Brasil, diz que o processo de Gest\u00e3o de Risco e Gerenciamento de Desastres envolve cinco grandes fases: preven\u00e7\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o, prepara\u00e7\u00e3o, resposta e recupera\u00e7\u00e3o. A comunica\u00e7\u00e3o de risco de risco est\u00e1 presente em todas elas, como um processo desencadeado de forma cont\u00ednua e permanente e n\u00e3o apenas em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o de risco como processo interativo de troca de informa\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es entre diversos p\u00fablicos, compreende m\u00faltiplas mensagens sobre a natureza dos riscos e a maneira como s\u00e3o identificados, analisados, gerenciados e incorporados na vida das pessoas. \u00c9 da comunica\u00e7\u00e3o de risco a tarefa de informar sobre a natureza e consequ\u00eancia dos riscos, mas, sobretudo, de coletar opini\u00f5es sobre como os cidad\u00e3os interagem com os riscos no dia a dia e como percebem suas peculiaridades. No caso de desastres como o que aconteceu no Rio Grande do Sul em maio de 2024, muito se questionou sobre a inefici\u00eancia de mensagens de comunica\u00e7\u00e3o de risco que n\u00e3o orientavam a popula\u00e7\u00e3o claramente sobre o que fazer durante as inunda\u00e7\u00f5es, sobre como proceder uma evacua\u00e7\u00e3o de forma segura, entre outras situa\u00e7\u00f5es. Uma inefici\u00eancia que \u00e9 resultado de uma comunica\u00e7\u00e3o feita \u00e0s pressas, onde pouco se sabia sobre os riscos que deveriam ser comunicados, tampouco sobre o perfil e formas de intera\u00e7\u00e3o com quem deveria receber a mensagem em tempo real. Quando a gest\u00e3o falha, a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz milagres.<\/p>\n<p>Preven\u00e7\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o s\u00e3o as tr\u00eas fases da gest\u00e3o do risco que antecedem a gest\u00e3o do desastre. A comunica\u00e7\u00e3o de risco atua nessas fases por meio da escuta ativa das partes interessadas no risco, na identifica\u00e7\u00e3o, mapeamento e monitoramento de amea\u00e7as e vulnerabilidades. Tamb\u00e9m tem papel determinante na educa\u00e7\u00e3o para riscos, auxiliando em simula\u00e7\u00f5es, capacita\u00e7\u00f5es e treinamentos junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e p\u00fablicos estrat\u00e9gicos como autoridades, gestores e imprensa. Na fase de prepara\u00e7\u00e3o, cabe tamb\u00e9m \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o de risco auxiliar no desenvolvimento de sistemas de alerta e monitoramento precoce, em canais efetivos de intera\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o, que tanto permitam agilidade na entrega de dados quanto no retorno sobre o que est\u00e1 acontecendo nas comunidades que interagem com os riscos.<\/p>\n<p>Na fase de resposta em situa\u00e7\u00f5es de desastre, os sistemas de comunica\u00e7\u00e3o precisam estar preparados para fornecer informa\u00e7\u00f5es claras e precisas sobre os riscos. Um trabalho que requer atua\u00e7\u00e3o em rede de especialistas, \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, imprensa e sociedade. O desencontro de informa\u00e7\u00f5es que se presenciou durante o desastre clim\u00e1tico no Rio Grande do Sul reflete a realidade de uma sociedade que n\u00e3o gerencia riscos, que n\u00e3o consegue trabalhar em rede e que, via de regra, d\u00e1 pouqu\u00edssimo valor ao conhecimento cient\u00edfico que produz. Em meio ao que diz o r\u00e1dio, o jornal, o prefeito, a rede social e o Grupo de WhatsApp da fam\u00edlia, quem sofre \u00e9 quem v\u00ea a \u00e1gua chegando na porta de casa e n\u00e3o sabe se deve sair, tampouco para onde ir.<\/p>\n<p>No caso dos munic\u00edpios da regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, observou-se um conjunto de gestores p\u00fablicos despreparados para lidar com situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia. Um despreparado que passa pela falta de entendimento sobre gest\u00e3o de risco, de volume de pessoal capacitado para lidar com desastres, de sistemas robustos de gera\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o sobre a intera\u00e7\u00e3o dos riscos. Quanto \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, ficou clara a necessidade urgente de profissionaliza\u00e7\u00e3o, em termos de sistemas, processos e pessoas.<\/p>\n<p>O Marco de Sendai, acordo internacional que estabelece objetivos e metas para reduzir o risco de desastres no mundo, firmado durante a 3\u00aa Confer\u00eancia Mundial sobre a Redu\u00e7\u00e3o de Risco de Desastre, em 2015, no Jap\u00e3o, coloca a comunica\u00e7\u00e3o como prioridade para a compreens\u00e3o do risco de desastre, para a melhoria dos sistemas de prepara\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o e para o di\u00e1logo entre as partes interessadas. Nessa dire\u00e7\u00e3o, recomenda-se o fortalecimento de meios de comunica\u00e7\u00e3o, incluindo m\u00eddias sociais e meios tradicionais, big data e redes de telefonia m\u00f3vel para apoiar medidas de comunica\u00e7\u00e3o bem-sucedida. Tamb\u00e9m se enfatiza o desenvolvimento de tecnologias sociais e sistemas de telecomunica\u00e7\u00f5es de monitoramento de perigos, al\u00e9m de canais de difus\u00e3o de alerta precoce sobre desastres naturais. Nesse contexto, os meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o chamados a assumir papel ativo e inclusivo, contribuindo para a sensibiliza\u00e7\u00e3o e entendimento p\u00fablico sobre riscos de desastres, em estreita coopera\u00e7\u00e3o com autoridades, especialistas e sociedade.<\/p>\n<p>De forma geral, pode-se dizer que temos bons marcos te\u00f3ricos sobre o papel da comunica\u00e7\u00e3o de risco em desastre. Mas, h\u00e1 um longo e desafiador caminho no que diz respeito \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o dessa l\u00f3gica e profissionaliza\u00e7\u00e3o de pessoas, em todas as esferas, para a gest\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o de riscos. Autoridades, figuras p\u00fablicas e ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o devem se preparar melhor para um processo permanente de educa\u00e7\u00e3o para riscos junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Os sistemas de alerta precisam ser melhorados, gerando informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis, oportunas, simples, e que cheguem de forma r\u00e1pida a todas as pessoas, especialmente aquelas em situa\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel. Por sua vez, as pessoas precisam saber o que podem ou n\u00e3o esperar dos sistemas de alerta e que decis\u00e3o devem tomar frente aos perigos. Profissionaliza\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a s\u00e3o duas palavras-chave nesse caminho.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>*Ana Karin Nunes \u00e9 Doutora em Educa\u00e7\u00e3o (UFRGS), Professora e Pesquisadora de Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o (Fabico) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Coordenadora do Grupo de Pesquisa Interinstitucional (UFRGS e PUCRS) Risco, Crise e Comunica\u00e7\u00e3o (RCCom). Vice-Diretora do Centro Universit\u00e1rio de Estudos e Pesquisas sobre Desastres do Rio Grande do Sul (CEPED RS).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores<\/strong>.<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ana Karin Nunes* (Professora e Pesquisadora da Fabico\/UFRGS, Doutora em Educa\u00e7\u00e3o.) \u00a0 As enchentes e inunda\u00e7\u00f5es que causaram o maior desastre clim\u00e1tico da hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul, em maio de 2024, afetando mais de 2,3 milh\u00f5es de pessoas, em 93% do total de munic\u00edpios do Estado, colocaram luzes sobre a necessidade de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":315,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[23],"class_list":["post-351","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-artigo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/users\/315"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=351"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/351\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}