{"id":356,"date":"2024-08-06T14:34:11","date_gmt":"2024-08-06T17:34:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=356"},"modified":"2024-08-06T14:34:13","modified_gmt":"2024-08-06T17:34:13","slug":"saude-mental-e-atencao-psicossocial-no-contexto-das-enchentes-no-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2024\/08\/06\/saude-mental-e-atencao-psicossocial-no-contexto-das-enchentes-no-rio-grande-do-sul","title":{"rendered":"Sa\u00fade Mental e Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial no Contexto das Enchentes no Rio Grande do Sul"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Beatriz Schmidt (FURG), Fernanda Serpeloni (Fiocruz), Ana Cecilia Andrade de Moraes Weintraub (USP), Flavio Kapczinski (UFRGS) e Debora da Silva Noal (OPAS\/OMS).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Entre abril e maio de 2024, chuvas intensas atingiram o Rio Grande do Sul, afetando diretamente 2,4 milh\u00f5es de pessoas (em torno de 22% da popula\u00e7\u00e3o do estado). Nos primeiros dias ap\u00f3s o in\u00edcio do evento extremo, mais de meio milh\u00e3o de pessoas foram desalojadas de suas resid\u00eancias e a popula\u00e7\u00e3o em abrigos provis\u00f3rios superou 80 mil. At\u00e9 10 de julho, 182 mortes haviam sido confirmadas pela Defesa Civil e 29 pessoas seguiam desaparecidas.<\/p>\n<p>Afora a perda de vidas humanas, os desastres se associam a m\u00faltiplas outras perdas, concretas e simb\u00f3licas: moradia, bens materiais, objetos pessoais e de valor emocional, trabalho, propriedades rurais, estradas, espa\u00e7os comunit\u00e1rios, dispositivos institucionais, rotinas, projetos de vida e sonhos. Diante desses impactos, aprofundam-se vulnerabilidades, com poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es \u00e0 sa\u00fade mental e ao bem-estar individual e coletivo. Isso ocorre tanto pelo estressor prim\u00e1rio (ex.: inunda\u00e7\u00f5es), quanto pelos estressores secund\u00e1rios (relacionados \u00e0 capacidade de resposta por sistemas p\u00fablicos e sociedade civil).<\/p>\n<p>Frente ao contexto de inseguran\u00e7a e m\u00faltiplas perdas associado a desastres, s\u00e3o esperadas algumas rea\u00e7\u00f5es emocionais e comportamentais, tais como tristeza, raiva, ang\u00fastia, medo, ins\u00f4nia, altera\u00e7\u00f5es gastrintestinais e no apetite. Grande parte da popula\u00e7\u00e3o afetada pode apresentar essas manifesta\u00e7\u00f5es de sofrimento psicol\u00f3gico agudo, as quais comumente s\u00e3o normativas (i.e., n\u00e3o psicopatol\u00f3gicas) e t\u00eam remiss\u00e3o gradativa nos primeiros meses ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o ao evento extremo. Paradoxalmente, embora essas rea\u00e7\u00f5es emocionais e comportamentais sejam esperadas, alguns estudos t\u00eam revelado um aumento no n\u00famero de prescri\u00e7\u00f5es de psicof\u00e1rmacos no primeiro m\u00eas subsequente a desastres.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, o Comit\u00ea Permanente Interag\u00eancias (<em>Inter-Agency Standing Committee<\/em> [IASC]), que \u00e9 um f\u00f3rum criado pela Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas para garantir a coordena\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento de pol\u00edticas e a tomada de decis\u00f5es relativas a emerg\u00eancias humanit\u00e1rias globalmente, contraindica o uso de psicof\u00e1rmacos como estrat\u00e9gia de suporte a pessoas em sofrimento psicol\u00f3gico agudo ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o a eventos extremos. Em contrapartida, sugere que as a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade mental e aten\u00e7\u00e3o psicossocial (SMAPS) sejam estruturadas com base em um sistema de apoio com n\u00edveis complementares, que devem ser implementados simultaneamente, de modo a atender \u00e0s necessidades de diferentes grupos populacionais, na perspectiva da intersetorialidade e da integralidade na assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, esses n\u00edveis podem ser sumarizados da seguinte forma: (a) servi\u00e7os b\u00e1sicos e de seguran\u00e7a (\u00e1gua, alimenta\u00e7\u00e3o, abrigo e cuidados b\u00e1sicos em sa\u00fade), ofertados a todas as pessoas afetadas, para proteger a dignidade e o bem-estar; (b) apoio \u00e0s fam\u00edlias e \u00e0s comunidades, voltado a um n\u00famero relativamente menor de pessoas, que precisem de suporte no processo de busca e reunifica\u00e7\u00e3o familiar devido \u00e0 evacua\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios e deslocamentos, atividades para fortalecimento de la\u00e7os comunit\u00e1rios, comunica\u00e7\u00e3o de massa sobre recursos dispon\u00edveis e estrat\u00e9gias de enfrentamento ao evento extremo; (c) apoios focados n\u00e3o especializados, para um n\u00famero ainda menor de pessoas, que necessitem de interven\u00e7\u00e3o profissional em n\u00edvel individual, familiar ou grupal (ex.: Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria \u00e0 Sa\u00fade [APS]); (d) servi\u00e7os especializados, necess\u00e1rios a uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o afetada, cujo grau de sofrimento psicol\u00f3gico \u00e9 intoler\u00e1vel e dificulta significativamente o funcionamento cotidiano (ex.: suporte psicol\u00f3gico ou psiqui\u00e1trico a pessoas com condi\u00e7\u00f5es graves de sa\u00fade mental, que excedem a capacidade dos servi\u00e7os de APS).<\/p>\n<p>Para o planejamento adequado das a\u00e7\u00f5es de SMAPS, nos diferentes n\u00edveis, parte-se das particularidades loco-regionais e do contexto sociocultural dos territ\u00f3rios atingidos por desastres, com base no princ\u00edpio de que cada pessoa ou comunidade pode ser afetada de modo diferente, o que requer diferentes tipos de apoio. \u00c9 importante salientar que o Brasil possui, al\u00e9m do Sistema Nacional de Prote\u00e7\u00e3o e Defesa Civil, do Sistema \u00danico de Assist\u00eancia Social e de diversas outras pol\u00edticas p\u00fablicas nas \u00e1reas de habita\u00e7\u00e3o e direitos humanos, o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) como principal organizador de a\u00e7\u00f5es em sa\u00fade no pa\u00eds. Portanto, as equipes multiprofissionais, ainda que compostas por profissionais ou organiza\u00e7\u00f5es externas, especialistas ou n\u00e3o em sa\u00fade mental, devem atuar de forma articulada com o SUS e incluir profissionais familiarizados com as especificidades do contexto sociocultural que, preferencialmente, contem com a confian\u00e7a da comunidade. Assim, tende-se a favorecer a interlocu\u00e7\u00e3o com as popula\u00e7\u00f5es afetadas e a participa\u00e7\u00e3o social no processo de cuidado.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, s\u00e3o enfatizadas estrat\u00e9gias coletivas de cuidado em SMAPS, em detrimento de estrat\u00e9gias com foco no adoecimento, ou apenas em n\u00edvel individual. Isso n\u00e3o significa, por\u00e9m, que pessoas com condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade mental, especialmente as mais vulnerabilizadas, ser\u00e3o negligenciadas quanto \u00e0 necessidade de apoios focados ou servi\u00e7os especializados, visto que os diferentes n\u00edveis de cuidado devem ser implementados de forma simult\u00e2nea e complementar. Logo, com base na integralidade, \u00e9 poss\u00edvel proteger o bem-estar psicossocial, prevenir agravos e tratar, sempre que necess\u00e1rio, repercuss\u00f5es negativas \u00e0 sa\u00fade mental em curto, m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n<p>Destaca-se ainda a import\u00e2ncia da continuidade das a\u00e7\u00f5es de SMAPS longitudinalmente, e n\u00e3o apenas na fase de resposta ao evento extremo, em que costumam ser observadas as manifesta\u00e7\u00f5es de sofrimento psicol\u00f3gico agudo entre a popula\u00e7\u00e3o afetada. Nesse sentido, rea\u00e7\u00f5es emocionais e comportamentais s\u00e3o esperadas tamb\u00e9m diante de estressores secund\u00e1rios, tais como problemas financeiros, disputas envolvendo indeniza\u00e7\u00f5es, demora na efetiva\u00e7\u00e3o de processos de reconstru\u00e7\u00e3o, dificuldades para elaborar o luto diante das m\u00faltiplas perdas, lembran\u00e7as negativas que acompanham as chuvas, preocupa\u00e7\u00f5es com inunda\u00e7\u00f5es futuras, necessidade de deixar a moradia ou a comunidade com a qual se tem v\u00ednculo afetivo, mem\u00f3ria compartilhada e senso de pertencimento. Em suma, os estressores secund\u00e1rios t\u00eam o potencial de afetar a sa\u00fade mental, impactando desproporcionalmente as popula\u00e7\u00f5es socioeconomicamente mais vulnerabilizadas, que vivem em locais mais prec\u00e1rios.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es de SMAPS s\u00e3o parte essencial da gest\u00e3o integral de riscos e desastres, pol\u00edtica p\u00fablica vigente no Brasil e que se desdobra em um trabalho cont\u00ednuo, envolvendo n\u00e3o apenas a fase de resposta, mas tamb\u00e9m as fases de recupera\u00e7\u00e3o, reconstru\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o de novos incidentes. O componente do cuidado em SMAPS, para ser mais efetivo, deve estar integrado a todas essas fases.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Sobre as autoras:<\/p>\n<p>Beatriz Schmidt \u00e9 Professora de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).<\/p>\n<p>Fernanda Serpeloni \u00e9 Pesquisadora no Departamento de Estudos sobre Viol\u00eancia e Sa\u00fade da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz).<\/p>\n<p>Ana Cecilia Andrade de Moraes Weintraub \u00e9 Doutoranda na Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Flavio Kapczinski \u00e9 Professor de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Coordenador da Rede Nacional de Sa\u00fade Mental (ReNaSaM).<\/p>\n<p>Debora da Silva Noal \u00e9 Consultora em Desastres para os Minist\u00e9rios da Sa\u00fade do Brasil e do Chile e para a Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (OPAS) \/ Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Beatriz Schmidt (FURG), Fernanda Serpeloni (Fiocruz), Ana Cecilia Andrade de Moraes Weintraub (USP), Flavio Kapczinski (UFRGS) e Debora da Silva Noal (OPAS\/OMS). \u00a0 Entre abril e maio de 2024, chuvas intensas atingiram o Rio Grande do Sul, afetando diretamente 2,4 milh\u00f5es de pessoas (em torno de 22% da popula\u00e7\u00e3o do estado). 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