{"id":503,"date":"2025-08-25T16:33:35","date_gmt":"2025-08-25T19:33:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=503"},"modified":"2025-08-25T16:33:36","modified_gmt":"2025-08-25T19:33:36","slug":"portugal-em-chamas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2025\/08\/25\/portugal-em-chamas","title":{"rendered":"Portugal em chamas"},"content":{"rendered":"\n<p>Por\u00a0<strong>Bianca Persici Toniolo<\/strong>\u00a0(Doutora em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o, professora nas universidades da Beira Interior e de Coimbra e investigadora no LabCom \u2013 Portugal)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em agosto completo oito anos vivendo em Portugal. Cheguei em 2017, justamente no ano em que o pa\u00eds enfrentou o ver\u00e3o mais tr\u00e1gico da sua hist\u00f3ria recente. Em junho daquele ano, os inc\u00eandios florestais deixaram 66 mortos e devastaram cerca de 45 mil hectares. Poucos meses depois, j\u00e1 instalada na Covilh\u00e3, vi de perto uma segunda vaga de fogos ainda mais intensa, que queimou 244 mil hectares.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, viver em Portugal tem sido conviver todos os ver\u00f5es com os inc\u00eandios, que fazem parte da minha realidade n\u00e3o apenas como cidad\u00e3, mas tamb\u00e9m como investigadora e docente na Universidade da Beira Interior, onde constru\u00ed um percurso acad\u00e9mico dedicado a estudar estes desastres sob o prisma da comunica\u00e7\u00e3o, primeiro no mestrado, depois no doutoramento.<\/p>\n<p>Em 2022, a Serra da Estrela ardeu. Mais de 27 mil hectares foram consumidos, um quarto da \u00e1rea total do Parque Natural. O c\u00e9u vermelho sobre a Beira Interior tornou-se s\u00edmbolo de uma ferida aberta. Hoje, em 2025, assistimos novamente \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o da mesma regi\u00e3o. O ciclo repete-se porque as respostas permanecem reativas, e n\u00e3o preventivas.<\/p>\n<p>Os inc\u00eandios n\u00e3o s\u00e3o apenas fen\u00f3menos agravados pelas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e pelas condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas. S\u00e3o, sobretudo, reflexos do abandono do interior do pa\u00eds, da monocultura florestal e de uma gest\u00e3o p\u00fablica que continua sem estrat\u00e9gia para as florestas e o ordenamento do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A estes fatores soma-se a aus\u00eancia de uma comunica\u00e7\u00e3o preventiva. O que vemos \u00e9 um padr\u00e3o recorrente, com campanhas espor\u00e1dicas e mensagens dispersas que n\u00e3o criam uma cultura de preven\u00e7\u00e3o. Foi nesse contexto que desenvolvi, no \u00e2mbito do meu doutoramento, o Modelo Loop. Trata-se de uma metodologia capaz de orientar governos e organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas a planear, avaliar e estruturar a comunica\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es de risco e crise, designadamente relacionadas com os inc\u00eandios florestais.<\/p>\n<p>O Loop \u00e9 um modelo de comunica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, integrada e cont\u00ednua, que assegura que mensagens de risco, emerg\u00eancia e crise cheguem corretamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Isso significa n\u00e3o s\u00f3 salvar vidas, mas tamb\u00e9m proteger um ativo de import\u00e2ncia crucial durante emerg\u00eancias: a confian\u00e7a p\u00fablica nas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Aplicar o Loop implica transformar a comunica\u00e7\u00e3o de algo improvisado em algo planeado, sistem\u00e1tico e avaliado. Significa ter especialistas a trabalhar de forma permanente, durante todo o ano, para criar resili\u00eancia social em vez de apenas reagir \u00e0 trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o houver pol\u00edticas p\u00fablicas robustas de ordenamento do territ\u00f3rio e de gest\u00e3o florestal acompanhadas de uma comunica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, veremos os mesmos cen\u00e1rios repetirem-se. Veremos bombeiros a arriscarem e perderem vidas, popula\u00e7\u00f5es isoladas pela m\u00e1 qualidade do ar, animais a terem o seu habitat destru\u00eddo, \u00e1guas contaminadas e cidad\u00e3os sem saber em que fontes confiar quando o fogo e o fumo est\u00e3o \u00e0 espreita.<\/p>\n<p>A comunidade brasileira em Portugal conhece bem a experi\u00eancia de conviver com trag\u00e9dias ambientais. Mas quem vive aqui aprende que o fogo portugu\u00eas tem um rosto pr\u00f3prio e que este rosto est\u00e1 marcado pelo abandono do interior e por falhas estruturais de planeamento.<\/p>\n<p>Est\u00e1 tudo a arder. E j\u00e1 que ardem as florestas, que arda tamb\u00e9m a reputa\u00e7\u00e3o dos governantes que ainda n\u00e3o compreenderam que prevenir n\u00e3o \u00e9 um ato de hero\u00edsmo, mas, simplesmente, uma quest\u00e3o de responsabilidade.<\/p>\n<p>______<\/p>\n<p>Artigo publicado no Jornal P\u00fablico Brasil, em 25\/08\/2025 (Portugal).<\/p>\n<p><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores<\/strong>.<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Bianca Persici Toniolo\u00a0(Doutora em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o, professora nas universidades da Beira Interior e de Coimbra e investigadora no LabCom \u2013 Portugal) \u00a0 Em agosto completo oito anos vivendo em Portugal. Cheguei em 2017, justamente no ano em que o pa\u00eds enfrentou o ver\u00e3o mais tr\u00e1gico da sua hist\u00f3ria recente. Em junho daquele ano, os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":315,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[23],"class_list":["post-503","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-artigo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/users\/315"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=503"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/503\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}