{"id":567,"date":"2026-01-09T15:47:23","date_gmt":"2026-01-09T18:47:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=567"},"modified":"2026-01-09T15:47:25","modified_gmt":"2026-01-09T18:47:25","slug":"venezuela-o-tabuleiro-e-o-microfone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2026\/01\/09\/venezuela-o-tabuleiro-e-o-microfone","title":{"rendered":"Venezuela: o tabuleiro e o microfone"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <strong>Lorena Nogaroli<\/strong> (Especialista em Gest\u00e3o de Riscos e Crises pela LSE. Fundadora e Diretora da Central Press)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o de sentido na comunica\u00e7\u00e3o de crise.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nos \u00faltimos dias, a captura de Nicol\u00e1s Maduro por for\u00e7as dos EUA \u2014 seguida da transfer\u00eancia do ditador venezuelano para os Estados Unidos \u2014 reabriu uma discuss\u00e3o que quase sempre descamba para dois atalhos igualmente pobres: o moralismo simplificador (\u201cbem contra mal\u201d) ou o cinismo resignado (\u201c\u00e9 tudo interesse\u201d). O epis\u00f3dio \u00e9 grave, sobretudo porque suscita quest\u00f5es de soberania e de legalidade internacional que n\u00e3o se resolvem com indigna\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica nem com celebra\u00e7\u00f5es apressadas.\u00a0<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O sistema internacional continua a funcionar, em grande medida, sob a l\u00f3gica da necessidade estrat\u00e9gica: gest\u00e3o de vulnerabilidades, riscos, assimetrias e da competi\u00e7\u00e3o entre blocos. Em jogos de poder, muitas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o buscam ganhos imediatos; buscam limitar op\u00e7\u00f5es futuras de outros atores, reposicionar dissuas\u00f5es, testar limites, redefinir \u201clinhas vermelhas\u201d. Isso \u00e9 recorr\u00eancia estrutural, n\u00e3o novidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ainda assim, tomar o contexto como \u00fanica lente tamb\u00e9m \u00e9 perigoso. Ignor\u00e1-lo conduz a leituras ing\u00eanuas; absolutiz\u00e1-lo conduz ao cinismo \u2014 e o cinismo, no fim, \u00e9 apenas outra forma de cegueira. A maturidade est\u00e1 no meio do caminho: menos torcida, mais discernimento; menos julgamento instant\u00e2neo, mais compreens\u00e3o do tabuleiro.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 justamente por isso que a comunica\u00e7\u00e3o oficial n\u00e3o \u00e9 um detalhe, mas parte do pr\u00f3prio jogo. Numa crise internacional com informa\u00e7\u00e3o incompleta, cada palavra \u00e9 um movimento: cria expectativas, compromete margens de manobra, aciona aliados, inflama opositores e deixa um rastro reputacional. Foi nesse ponto que duas rea\u00e7\u00f5es europeias chamaram a aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas pelo conte\u00fado, mas tamb\u00e9m pela disciplina \u2014 ou pela falta dela.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No Reino Unido, Keir Starmer optou, de in\u00edcio, por uma postura cautelosa: afirmou que o pa\u00eds n\u00e3o participou da opera\u00e7\u00e3o e insistiu na import\u00e2ncia de respeitar o direito internacional, dizendo que queria \u201cestabelecer os fatos\u201d antes de ir al\u00e9m.\u00a0 A decis\u00e3o \u00e9 cl\u00e1ssica na comunica\u00e7\u00e3o de crise: antes de preencher o vazio, constr\u00f3i-se sentido <em>(sensemaking).<\/em> N\u00e3o se fala para parecer forte; fala-se para reduzir incerteza com responsabilidade. Ao limitar o discurso ao que podia sustentar \u2014 princ\u00edpios, recortes e pr\u00f3ximos passos \u2014 o premi\u00ea preservou credibilidade e flexibilidade num cen\u00e1rio vol\u00e1til.\u00a0<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Depois, com mais elementos, Starmer elevou o tom pol\u00edtico ao declarar que o Reino Unido via Maduro como \u201cileg\u00edtimo\u201d e que n\u00e3o derramava \u201cl\u00e1grimas\u201d pelo fim do seu regime \u2014 sem, por\u00e9m, assumir envolvimento brit\u00e2nico na a\u00e7\u00e3o militar.\u00a0 \u00c9 uma estrat\u00e9gia conhecida: separar a posi\u00e7\u00e3o de valores (o que se defende) da atribui\u00e7\u00e3o de responsabilidade operacional (o que se fez), reduzindo o risco de coautoria e mantendo espa\u00e7o para ajustes conforme novas evid\u00eancias ou press\u00f5es diplom\u00e1ticas surgirem.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Na Fran\u00e7a, Emmanuel Macron seguiu outro caminho: a rea\u00e7\u00e3o inicial foi interpretada como triunfalista \u2014 com uma formula\u00e7\u00e3o segundo a qual o povo venezuelano \u201cs\u00f3 poderia se alegrar\u201d com a queda da ditadura \u2014 e gerou rea\u00e7\u00e3o imediata de advers\u00e1rios e cr\u00edticas no debate dom\u00e9stico.\u00a0 Em seguida, o governo franc\u00eas precisou fazer corre\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, enfatizando que o \u201cm\u00e9todo\u201d utilizado pelos EUA n\u00e3o era apoiado ou aprovado por Paris e reafirmando a narrativa na necessidade de respeito ao direito internacional.\u00a0<\/p>\n<p dir=\"ltr\">N\u00e3o \u00e9 apenas uma disputa de estilo: \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o sobre como a pressa de \u201cfechar a hist\u00f3ria\u201d pode virar um bumerangue. Quando um l\u00edder celebra antes de o quadro estar minimamente estabilizado, cria duas armadilhas: (1) fica ref\u00e9m do enredo que ele mesmo ajudou a fabricar; (2) se exp\u00f5e a revis\u00f5es constrangedoras \u2014 o \u201cpasso atr\u00e1s\u201d que, no ambiente digital, costuma ser lido como contradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o como prud\u00eancia. O resultado \u00e9 ru\u00eddo \u2014 e ru\u00eddo, em diplomacia, custa caro.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">H\u00e1 ainda um aspecto mais profundo: numa crise geopol\u00edtica, a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o serve s\u00f3 para \u201cexplicar\u201d \u2014 ela serve para administrar legitimidade. E a legitimidade, aqui, passa inevitavelmente pelo debate jur\u00eddico. Especialistas e institui\u00e7\u00f5es t\u00eam apontado dificuldades em enquadrar a opera\u00e7\u00e3o nas justificativas usuais do uso da for\u00e7a, lembrando o princ\u00edpio da soberania e as restri\u00e7\u00f5es impostas pela Carta da ONU.\u00a0 Esse ponto importa porque, goste-se ou n\u00e3o do regime, normalizar atalhos fora do direito internacional abre precedentes que ser\u00e3o utilizados por outros \u2014 inclusive por atores cujos objetivos o Ocidente costuma condenar.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A combina\u00e7\u00e3o do realismo de contexto com a disciplina comunicacional sugere um caminho mais \u00fatil para quem tenta interpretar \u2014 e para quem precisa decidir. A pergunta central n\u00e3o \u00e9 \u201co que se diz\u201d, mas \u201co que o contexto torna necess\u00e1rio fazer\u201d. Mas, na mesma medida, a pergunta n\u00e3o pode ser apenas \u201co que se torna necess\u00e1rio\u201d: \u00e9 preciso perguntar \u201ca que custo\u201d, \u201ccom que precedente\u201d e \u201ccom que lastro de legitimidade\u201d. Sem isso, ca\u00edmos no manique\u00edsmo ou na apatia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Para l\u00edderes p\u00fablicos (e, sim, para l\u00edderes corporativos), a li\u00e7\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tica:<\/p>\n<ol>\n<li dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\" role=\"presentation\">Separe princ\u00edpios de fatos. Declare valores e objetivos, mas n\u00e3o \u201cfeche\u201d conclus\u00f5es sem evid\u00eancia suficiente.<\/p>\n<\/li>\n<li dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\" role=\"presentation\">Evite triunfalismo em cen\u00e1rios inst\u00e1veis. Celebrar desfechos antes da consolida\u00e7\u00e3o costuma gerar corre\u00e7\u00f5es humilhantes \u2014 e eros\u00e3o reputacional.<\/p>\n<\/li>\n<li dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\" role=\"presentation\">Comunique o processo. Dizer \u201cestamos apurando, falando com aliados, avaliando impactos\u201d n\u00e3o \u00e9 fraqueza; \u00e9 governan\u00e7a.<\/p>\n<\/li>\n<li dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\" role=\"presentation\">Preserve margem de manobra. Em crises internacionais, a palavra de hoje pode virar compromisso de amanh\u00e3.<\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p dir=\"ltr\">Para quem observa (e comenta), talvez a maturidade seja esta: menos julgamento instant\u00e2neo, mais leitura do tabuleiro; menos torcida, mais discernimento. Porque, em geopol\u00edtica, o microfone n\u00e3o \u00e9 acess\u00f3rio \u2014 \u00e9 parte da estrat\u00e9gia. E, na Venezuela, como tantas vezes na hist\u00f3ria, entender o contexto n\u00e3o \u00e9 justificar tudo; \u00e9 apenas recusar a an\u00e1lise pobre.<\/p>\n<p>_____<\/p>\n<p><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores<\/strong>.<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Lorena Nogaroli (Especialista em Gest\u00e3o de Riscos e Crises pela LSE. Fundadora e Diretora da Central Press) \u00a0 A import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o de sentido na comunica\u00e7\u00e3o de crise. Nos \u00faltimos dias, a captura de Nicol\u00e1s Maduro por for\u00e7as dos EUA \u2014 seguida da transfer\u00eancia do ditador venezuelano para os Estados Unidos \u2014 reabriu uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":315,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[23],"class_list":["post-567","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-artigo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/567","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/users\/315"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=567"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/567\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}