{"id":593,"date":"2026-02-12T10:14:45","date_gmt":"2026-02-12T13:14:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=593"},"modified":"2026-02-12T10:14:47","modified_gmt":"2026-02-12T13:14:47","slug":"fique-atento-falhas-na-comunicacao-de-alerta-sobre-a-depressao-kristin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2026\/02\/12\/fique-atento-falhas-na-comunicacao-de-alerta-sobre-a-depressao-kristin","title":{"rendered":"\u201cFique atento\u201d: Falhas na comunica\u00e7\u00e3o de alerta sobre a depress\u00e3o Kristin"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <strong>Bianca Persici Toniolo<\/strong> (Doutora em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A passagem da depress\u00e3o Kristin exp\u00f4s de forma evidente fragilidades estruturais na comunica\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia em Portugal. As mortes, os danos materiais e o impacto psicol\u00f3gico nas popula\u00e7\u00f5es afetadas levantam uma quest\u00e3o central que n\u00e3o pode ser ignorada: <strong>a forma como o risco foi comunicado contribuiu para a incapacidade de muitos cidad\u00e3os adotarem medidas de autoprote\u00e7\u00e3o eficazes?<\/strong><\/p>\n<p>Importa sublinhar um dado incontorn\u00e1vel: o n\u00famero de v\u00edtimas mortais apenas n\u00e3o foi mais elevado porque o fen\u00f3meno ocorreu durante a noite. Caso o pico de intensidade se tivesse verificado em per\u00edodo diurno, com maior mobilidade populacional, o desfecho poderia ter sido significativamente mais grave. Este facto, por si s\u00f3, refor\u00e7a a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia como instrumento de mitiga\u00e7\u00e3o de danos.<\/p>\n<p>A mensagem de alerta transmitida \u00e0s popula\u00e7\u00f5es resumiu-se a um SMS gen\u00e9rico sobre vento de at\u00e9 140 km\/h de intensidade, acompanhado da express\u00e3o \u201cfique atento\u201d e da recomenda\u00e7\u00e3o para seguir orienta\u00e7\u00f5es das autoridades. Mas quais orienta\u00e7\u00f5es? Como os resultados da passagem da depress\u00e3o Kristin por Portugal, infelizmente, comprovaram, esta comunica\u00e7\u00e3o foi insuficiente para promover a perce\u00e7\u00e3o adequada do risco e para orientar comportamentos preventivos concretos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-594\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/880\/2026\/02\/PHOTO-2026-02-01-18-21-11-472x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"472\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/880\/2026\/02\/PHOTO-2026-02-01-18-21-11-472x1024.jpeg 472w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/880\/2026\/02\/PHOTO-2026-02-01-18-21-11-138x300.jpeg 138w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/880\/2026\/02\/PHOTO-2026-02-01-18-21-11.jpeg 590w\" sizes=\"(max-width: 472px) 100vw, 472px\" \/><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Informar n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de comunicar. A transmiss\u00e3o de dados isolados, desprovidos de contextualiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ajuda os cidad\u00e3os a compreenderem o significado real do perigo nem a traduzirem esse conhecimento em a\u00e7\u00f5es protetoras.<\/p>\n<p>Uma escalonada no tempo, com refor\u00e7os sucessivos \u00e0 medida que a amea\u00e7a se tornava mais pr\u00f3xima, poderia ter promovido uma perce\u00e7\u00e3o de risco progressiva e a ativa\u00e7\u00e3o atempada de medidas de autoprote\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, a articula\u00e7\u00e3o entre autoridades meteorol\u00f3gicas, prote\u00e7\u00e3o civil, poder local e meios de comunica\u00e7\u00e3o social teria permitido uma mensagem mais consistente e contextualizada ao n\u00edvel do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia \u00e9 um est\u00e1gio cr\u00edtico dentro de um <em>continuum<\/em> comunicacional que se inicia na comunica\u00e7\u00e3o de risco e evolui para a comunica\u00e7\u00e3o de crise diante da imin\u00eancia de um desastre. Este per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, quando um risco est\u00e1 prestes a materializar-se ou acaba de se manifestar, constitui uma janela decisiva para reduzir impactos humanos, materiais e ambientais.<\/p>\n<p>A literatura sobre comunica\u00e7\u00e3o de risco e crise sublinha que, na fase de alerta \u2014 que marca a transi\u00e7\u00e3o entre risco e crise \u2014 as mensagens devem ir al\u00e9m da simples notifica\u00e7\u00e3o da amea\u00e7a. Devem convocar a a\u00e7\u00e3o imediata, fornecer orienta\u00e7\u00f5es claras e acion\u00e1veis, manter um fluxo permanente de informa\u00e7\u00e3o, indicar recursos dispon\u00edveis e refor\u00e7ar a capacidade dos cidad\u00e3os para se protegerem de forma aut\u00f3noma e coordenada. Quando esta comunica\u00e7\u00e3o falha, instala-se a incerteza, reduz-se a ades\u00e3o \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es institucionais e aumenta-se a vulnerabilidade coletiva.<\/p>\n<p>No caso da depress\u00e3o Kristin, a aus\u00eancia de instru\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas sobre comportamentos seguros \u2014 como a perman\u00eancia em casa, a limita\u00e7\u00e3o de desloca\u00e7\u00f5es, o afastamento de estruturas fr\u00e1geis ou a prote\u00e7\u00e3o de bens e animais \u2014 comprometeu a capacidade de resposta das popula\u00e7\u00f5es. A mensagem transmitida n\u00e3o refletiu a gravidade potencial do fen\u00f3meno nem traduziu a linguagem t\u00e9cnica em implica\u00e7\u00f5es concretas para o quotidiano das pessoas. O resultado foi uma comunica\u00e7\u00e3o que alertou, mas n\u00e3o preparou; informou, mas n\u00e3o protegeu.<\/p>\n<p>Quando a crise se concretiza, entra-se na fase de socorro, na qual a comunica\u00e7\u00e3o deve concentrar-se na prote\u00e7\u00e3o imediata da popula\u00e7\u00e3o, no refor\u00e7o da perce\u00e7\u00e3o de risco, na divulga\u00e7\u00e3o de instru\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas de autoprote\u00e7\u00e3o e na atualiza\u00e7\u00e3o constante da informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel. Esta fase exige mensagens acess\u00edveis, inclusivas e adaptadas \u00e0 diversidade social, et\u00e1ria e funcional da popula\u00e7\u00e3o. No entanto, a efic\u00e1cia desta resposta depende, em grande medida, da qualidade da comunica\u00e7\u00e3o estabelecida na fase anterior, bem como da resili\u00eancia dos pr\u00f3prios sistemas de comunica\u00e7\u00e3o utilizados.<\/p>\n<p>A degrada\u00e7\u00e3o de infraestruturas essenciais, nomeadamente fornecimento de eletricidade e acesso \u00e0 internet, limitou a capacidade de difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o em tempo \u00fatil e exp\u00f4s a fragilidade de estrat\u00e9gias excessivamente dependentes de canais digitais no caso em quest\u00e3o. Em emerg\u00eancias, \u00e9 fundamental que os mecanismos de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o dependam exclusivamente de tecnologias vulner\u00e1veis \u00e0 pr\u00f3pria crise, devendo ser assegurada a exist\u00eancia de recursos alternativos e redundantes capazes de alcan\u00e7ar as popula\u00e7\u00f5es mesmo em cen\u00e1rios de falha sist\u00e9mica.<\/p>\n<p>O impacto da comunica\u00e7\u00e3o deficiente n\u00e3o se mede apenas em danos materiais. Mede-se tamb\u00e9m na eros\u00e3o da confian\u00e7a institucional e na sensa\u00e7\u00e3o de abandono sentida por muitas comunidades. Quando a \u00faltima mensagem recebida antes de um evento extremo \u00e9 vaga e gen\u00e9rica, o que se instala \u00e9 a perce\u00e7\u00e3o de que a prote\u00e7\u00e3o individual foi deixada ao acaso.<\/p>\n<p>A fase de recupera\u00e7\u00e3o, que se segue ao socorro, n\u00e3o deve limitar-se \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Deve incluir uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre os processos comunicacionais adotados, com vista ao fortalecimento da resili\u00eancia social e institucional. Recuperar implica aprender, corrigir falhas e reconstruir a confian\u00e7a entre autoridades e cidad\u00e3os. Implica reconhecer que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9, ela pr\u00f3pria, uma forma de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante da intensifica\u00e7\u00e3o dos fen\u00f3menos meteorol\u00f3gicos extremos, a quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 se eventos semelhantes voltar\u00e3o a ocorrer, mas quando ir\u00e3o decorrer. Quando isso acontecer, a efic\u00e1cia da resposta n\u00e3o depender\u00e1 apenas dos meios t\u00e9cnicos dispon\u00edveis, mas tamb\u00e9m da capacidade de comunicar o risco de forma clara, compreens\u00edvel e orientada para a a\u00e7\u00e3o. Um simples \u201cfique atento\u201d n\u00e3o \u00e9 suficiente para salvar vidas. Comunica\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia exige clareza, responsabilidade e compromisso com a prote\u00e7\u00e3o efetiva das popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bianca Persici Toniolo (Doutora em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o) \u00a0 A passagem da depress\u00e3o Kristin exp\u00f4s de forma evidente fragilidades estruturais na comunica\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia em Portugal. 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