{"id":673,"date":"2026-08-03T18:53:56","date_gmt":"2026-08-03T21:53:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=673"},"modified":"2026-08-03T18:53:58","modified_gmt":"2026-08-03T21:53:58","slug":"comunicacao-inclusiva-diante-da-atualizacao-da-nr-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2026\/08\/03\/comunicacao-inclusiva-diante-da-atualizacao-da-nr-1","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00e3o Inclusiva diante da atualiza\u00e7\u00e3o da NR-1"},"content":{"rendered":"\n<p>Por\u00a0<strong>Patr\u00edcia Milano P\u00e9rsigo<\/strong>\u00a0(Professora Associada da UFSM, Doutora em Comunica\u00e7\u00e3o)\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A atualiza\u00e7\u00e3o da Norma Regulamentadora n\u00ba 1 (NR-1) refor\u00e7a a responsabilidade das organiza\u00e7\u00f5es pela identifica\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Embora esses fatores j\u00e1 estivessem compreendidos no gerenciamento dos riscos ocupacionais, a nova reda\u00e7\u00e3o, em vigor desde 26 de maio de 2026, passou a mencion\u00e1-los de maneira expl\u00edcita. Com isso, as organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o convocadas a observar n\u00e3o apenas as condi\u00e7\u00f5es materiais do ambiente, mas tamb\u00e9m a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e sobretudo a qualidade das rela\u00e7\u00f5es que nele se estabelecem.<\/p>\n<p>Esse movimento exige uma an\u00e1lise abrangente dos processos organizacionais, incluindo os canais de escuta, as pr\u00e1ticas de gest\u00e3o e os fluxos de informa\u00e7\u00e3o que sustentam o cotidiano de trabalho. Esse cen\u00e1rio apresenta, simultaneamente, desafios e oportunidades. O principal desafio consiste em reafirmar a dimens\u00e3o estrat\u00e9gica, transversal e relacional da comunica\u00e7\u00e3o organizacional.<\/p>\n<p>Uma vez que a comunica\u00e7\u00e3o permeia todos os processos e relacionamentos de uma organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode ser tratada de maneira fragmentada, meramente instrumental ou utilit\u00e1ria. A atualiza\u00e7\u00e3o da NR-1 contribui para evidenciar essa necessidade ao demonstrar que, no campo dos riscos ocupacionais, a comunica\u00e7\u00e3o pode ser tanto fator de preven\u00e7\u00e3o quanto de produ\u00e7\u00e3o ou agravamento de situa\u00e7\u00f5es prejudiciais \u00e0 sa\u00fade dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A falta de clareza na defini\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es, as solicita\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias, o excesso de reuni\u00f5es, a sobrecarga informacional, a aus\u00eancia de feedback, a dificuldade de acesso \u00e0s lideran\u00e7as e o uso de linguagem discriminat\u00f3ria ou pejorativa s\u00e3o alguns exemplos de quest\u00f5es comunicacionais que podem contribuir para a ocorr\u00eancia ou intensifica\u00e7\u00e3o de fatores de risco psicossociais. Da mesma forma, informa\u00e7\u00f5es incompletas, mudan\u00e7as organizacionais conduzidas sem transpar\u00eancia e canais de den\u00fancia que n\u00e3o asseguram confidencialidade podem gerar inseguran\u00e7a e silenciamentos.<\/p>\n<p>Por outro lado, a atualiza\u00e7\u00e3o da NR-1 amplia as oportunidades de atua\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas em interface com diversas \u00e1reas. A capacidade de realizar a leitura estrat\u00e9gica de cen\u00e1rios, mapear p\u00fablicos, diagnosticar relacionamentos e formular, executar e avaliar estrat\u00e9gias comunicacionais constitui uma contribui\u00e7\u00e3o relevante para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e para a implementa\u00e7\u00e3o das novas disposi\u00e7\u00f5es da norma.<\/p>\n<p>Se a NR-1 orienta as organiza\u00e7\u00f5es a examinarem as condi\u00e7\u00f5es e a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, cabe perguntar: como essas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o percebidas e vivenciadas pelos diferentes p\u00fablicos organizacionais?<\/p>\n<p>Esse questionamento \u00e9 fundamental porque uma mesma pol\u00edtica, mensagem ou pr\u00e1tica de gest\u00e3o pode produzir experi\u00eancias distintas, conforme a posi\u00e7\u00e3o ocupada pelas pessoas, suas caracter\u00edsticas, identidades, condi\u00e7\u00f5es de acesso e rela\u00e7\u00f5es de poder. Nesse sentido, os fatores de risco psicossociais tamb\u00e9m possuem uma dimens\u00e3o comunicacional: eles se manifestam nas rela\u00e7\u00f5es, nas pr\u00e1ticas de gest\u00e3o e nas formas pelas quais as informa\u00e7\u00f5es circulam, ou deixam de circular, entre os diferentes p\u00fablicos.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a comunica\u00e7\u00e3o acess\u00edvel e inclusiva se torna ainda mais necess\u00e1ria. Embora relat\u00f3rios de sustentabilidade frequentemente apresentem n\u00fameros relativos \u00e0 contrata\u00e7\u00e3o de pessoas pertencentes a grupos historicamente minorizados, \u00e9 preciso avan\u00e7ar para al\u00e9m da presen\u00e7a quantitativa.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o oferece conte\u00fados em diferentes l\u00ednguas, linguagens e formatos? Seus canais e sistemas s\u00e3o acess\u00edveis? As pessoas disp\u00f5em de condi\u00e7\u00f5es seguras e confidenciais para se manifestar? T\u00eam acesso a instrumentos de trabalho compat\u00edveis com suas caracter\u00edsticas e necessidades? Sentem-se representadas nas narrativas institucionais?<\/p>\n<p>Os diferentes p\u00fablicos organizacionais podem estar expostos a situa\u00e7\u00f5es e intensidades distintas de risco, especialmente quando barreiras comunicacionais, culturais, lingu\u00edsticas, tecnol\u00f3gicas e atitudinais se somam \u00e0s desigualdades j\u00e1 existentes.<\/p>\n<p>A diversidade, portanto, n\u00e3o deve ser compreendida como um risco para a organiza\u00e7\u00e3o. Os riscos encontram-se na produ\u00e7\u00e3o e na perpetua\u00e7\u00e3o das desigualdades, na invisibilidade, na exclus\u00e3o e na reprodu\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos. \u00c9 justamente nesse ponto que a comunica\u00e7\u00e3o inclusiva ultrapassa o discurso sobre diversidade e se concretiza como um processo protetivo, capaz de promover seguran\u00e7a, pertencimento e confian\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es organizacionais.<\/p>\n<p>Mais do que atender formalmente \u00e0s exig\u00eancias da NR-1, as organiza\u00e7\u00f5es precisam desenvolver uma cultura permanente de preven\u00e7\u00e3o. Escutar os trabalhadores, reconhecer as diferen\u00e7as entre os p\u00fablicos, revisar pr\u00e1ticas comunicacionais e assegurar que as informa\u00e7\u00f5es sejam acess\u00edveis, compreens\u00edveis e coerentes com as experi\u00eancias vividas no ambiente de trabalho.<\/p>\n<p>A atualiza\u00e7\u00e3o da NR-1, portanto, n\u00e3o apenas explicita a responsabilidade das organiza\u00e7\u00f5es diante dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Ela tamb\u00e9m coloca em evid\u00eancia sua responsabilidade comunicacional. Quando os processos de comunica\u00e7\u00e3o favorecem a escuta, a participa\u00e7\u00e3o, o pertencimento e a legitima\u00e7\u00e3o das diferentes identidades, a comunica\u00e7\u00e3o inclusiva amplia sua contribui\u00e7\u00e3o e colabora diretamente para a constru\u00e7\u00e3o de ambientes de trabalho mais seguros e saud\u00e1veis. Concretiza-se assim, como um fator protetivo.<\/p>\n<p>____________<\/p>\n<p><strong>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Patr\u00edcia Milano P\u00e9rsigo\u00a0(Professora Associada da UFSM, Doutora em Comunica\u00e7\u00e3o)\u00a0 \u00a0 A atualiza\u00e7\u00e3o da Norma Regulamentadora n\u00ba 1 (NR-1) refor\u00e7a a responsabilidade das organiza\u00e7\u00f5es pela identifica\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. 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