{"id":687,"date":"2026-08-14T10:54:40","date_gmt":"2026-08-14T13:54:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/?p=687"},"modified":"2026-08-14T10:55:58","modified_gmt":"2026-08-14T13:55:58","slug":"o-alerta-da-defesa-civil-chega-ao-celular-mas-o-cidadao-sabe-o-que-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/projetos\/institucional\/observatorio-crise\/2026\/08\/14\/o-alerta-da-defesa-civil-chega-ao-celular-mas-o-cidadao-sabe-o-que-fazer","title":{"rendered":"O alerta da Defesa Civil chega ao celular. Mas o cidad\u00e3o sabe o que fazer?"},"content":{"rendered":"\n<p>Por <strong>Luiz Celso Piratininga Jr.<\/strong> (Soci\u00f3logo e publicit\u00e1rio, Diretor da ADAG Comunica\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Com um El Ni\u00f1o potencialmente muito forte no horizonte, o sistema j\u00e1 opera em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O desafio agora \u00e9 transformar o aviso em orienta\u00e7\u00e3o para agir.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3><span style=\"color: #0000ff\"><strong><span style=\"color: #000000\">Fato<\/span> <\/strong><\/span><\/h3>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O El Ni\u00f1o est\u00e1 de volta<\/strong>. O boletim mais recente do Painel El Ni\u00f1o 2026\u20132027, referente a julho, refor\u00e7ou a previs\u00e3o de intensifica\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno. Confirmado em junho, o El Ni\u00f1o deve permanecer ativo pelo menos at\u00e9 o in\u00edcio de 2027 e tem 81% de probabilidade de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro deste ano.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Os efeitos n\u00e3o ser\u00e3o iguais em todo o Brasil<\/strong>. Enquanto o Sul tende a enfrentar chuvas intensas, \u00e1reas do centro-norte podem registrar menos chuva e calor excessivo. No Centro-Oeste e no Sudeste, ondas de calor e baixa umidade aumentam o risco de queimadas e de inseguran\u00e7a h\u00eddrica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O pa\u00eds entra neste novo ciclo com uma diferen\u00e7a importante<\/strong>. O Defesa Civil Alerta come\u00e7ou a operar em dezembro de 2024 e foi ampliado gradualmente at\u00e9 alcan\u00e7ar todo o territ\u00f3rio nacional, em outubro de 2025. A tecnologia envia avisos aos celulares compat\u00edveis conectados \u00e0s redes 4G ou 5G, sem cadastro pr\u00e9vio nem pacote de dados. Em situa\u00e7\u00f5es extremas, a mensagem ocupa a tela e aciona um sinal sonoro, mesmo que o aparelho esteja no modo silencioso.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Segundo a ABR Telecom, associa\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pela infraestrutura tecnol\u00f3gica do sistema, no primeiro semestre deste ano foram emitidos 1.768 alertas, que alcan\u00e7aram 2.779 munic\u00edpios:\u00a0 mais de quatro vezes o volume registrado no mesmo per\u00edodo de 2025.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A mensagem na tela \u00e9 um avan\u00e7o tecnol\u00f3gico. <strong>Fazer com que diferentes p\u00fablicos compreendam o risco, confiem na orienta\u00e7\u00e3o e saibam como agir \u00e9 uma tarefa de comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Entre receber e compreender<\/strong><\/h3>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A capacidade de avisar com anteced\u00eancia salva vidas.<\/strong> Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial, a mortalidade associada a desastres \u00e9 pelo menos seis vezes menor nos pa\u00edses que contam com bons sistemas de alerta precoce. Uma anteced\u00eancia de 24 horas pode reduzir os danos em at\u00e9 30%.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas a palavra importante \u00e9 \u201csistema\u201d. O modelo defendido pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas re\u00fane quatro elementos: conhecimento do risco; monitoramento e previs\u00e3o; comunica\u00e7\u00e3o do alerta; e capacidade de prepara\u00e7\u00e3o e resposta. <strong>Fazer a mensagem chegar \u00e9 uma parte decisiva. N\u00e3o \u00e9 a \u00fanica.<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>No Defesa Civil Alerta, a infraestrutura de transmiss\u00e3o \u00e9 nacional, mas o conte\u00fado e o momento do envio s\u00e3o definidos pelos \u00f3rg\u00e3os estaduais e municipais. Cabe a eles dizer qual \u00e9 o perigo, quem est\u00e1 amea\u00e7ado, o que deve ser feito, para onde a pessoa deve ir e quando haver\u00e1 uma nova orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center\"><strong>\u201cChuva forte. H\u00e1 risco de deslizamento. Fique atento\u201d descreve uma amea\u00e7a. <\/strong><\/h3>\n<h3 style=\"text-align: center\"><strong style=\"color: revert;font-size: revert\">N\u00e3o necessariamente permite que algu\u00e9m se proteja dela.<\/strong><\/h3>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Um morador antigo de uma \u00e1rea de risco, um turista, uma pessoa idosa, algu\u00e9m com defici\u00eancia e uma fam\u00edlia rec\u00e9m-chegada ao bairro podem compreender a mesma mensagem de maneiras diferentes. H\u00e1 tamb\u00e9m quem esteja fora da cobertura de telefonia ou n\u00e3o tenha aparelho compat\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O canal distribui o aviso. A comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica precisa fazer a orienta\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ar cada um desses cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3><strong>O ponto cego<\/strong><\/h3>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O ponto cego est\u00e1 em tratar a comunica\u00e7\u00e3o de risco como um texto produzido somente quando a emerg\u00eancia j\u00e1 come\u00e7ou<\/strong>. Nesse momento, h\u00e1 pouco espa\u00e7o para descobrir quem precisa ser alcan\u00e7ado, testar a clareza da mensagem, apresentar uma rota desconhecida ou construir confian\u00e7a em uma fonte at\u00e9 ent\u00e3o ausente da comunidade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Os dados mostram grandes diferen\u00e7as na capacidade de resposta dos munic\u00edpios<\/strong>. O Indicador de Capacidade Municipal, com dados de 2024, apontou que em 3.253 cidades 58,49% dos munic\u00edpios brasileiros) estavam nos est\u00e1gios iniciais de gest\u00e3o de riscos e desastres. Em estudo divulgado em maio de 2026, o Cemaden constatou que 75% dos munic\u00edpios priorit\u00e1rios possu\u00edam menos da metade dos planos e mapeamentos necess\u00e1rios. Em 91% deles, n\u00e3o havia plano de obras e servi\u00e7os para a redu\u00e7\u00e3o dos riscos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros n\u00e3o medem a qualidade das mensagens, mas revelam as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que uma orienta\u00e7\u00e3o possa ser cumprida. Um alerta que determina a evacua\u00e7\u00e3o n\u00e3o cria uma rota de fuga, n\u00e3o abre um abrigo nem providencia transporte para quem precisa de ajuda para se deslocar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o substitui essa estrutura. Mas pode revelar o que falta antes que o desastre o fa\u00e7a, al\u00e9m de preparar a popula\u00e7\u00e3o para utilizar aquilo que j\u00e1 existe.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3><strong>O que desenvolver<\/strong><\/h3>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>A comunica\u00e7\u00e3o precisa ocupar um lugar na mesa de prepara\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o ser chamada apenas para publicar o alerta<\/strong>. As equipes municipais devem participar da constru\u00e7\u00e3o dos protocolos, conhecer os riscos de cada territ\u00f3rio, testar as mensagens e manter um fluxo direto de informa\u00e7\u00f5es verificadas com a Defesa Civil e os respons\u00e1veis pela resposta.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 um trabalho que come\u00e7a antes da emerg\u00eancia, acompanha o resgate e continua depois que o perigo imediato passou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Antes do evento, \u00e9 preciso mapear as \u00e1reas amea\u00e7adas, as pessoas que vivem nelas<\/strong> e os lugares pelos quais a informa\u00e7\u00e3o circula: escolas, igrejas, unidades de sa\u00fade, associa\u00e7\u00f5es de moradores e mercados. Esses espa\u00e7os podem ajudar a divulgar previamente os n\u00edveis de alerta, as rotas de fuga, os pontos de apoio, os abrigos e os n\u00fameros que devem ser acionados.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O planejamento deve considerar quem n\u00e3o recebe o aviso pelo celular<\/strong>, quem depende de ajuda para se deslocar e quais recursos de acessibilidade s\u00e3o necess\u00e1rios. Simulados permitem verificar se a popula\u00e7\u00e3o compreendeu a orienta\u00e7\u00e3o e se a pr\u00f3pria prefeitura est\u00e1 preparada para cumpri-la.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Durante a emerg\u00eancia, a comunica\u00e7\u00e3o precisa estar integrada ao centro de decis\u00f5es<\/strong>, com acesso permanente a informa\u00e7\u00f5es confirmadas, uma fonte oficial reconhec\u00edvel, porta-voz e boletim com hora marcada. O aviso \u00e0 popula\u00e7\u00e3o tem de dizer o que est\u00e1 acontecendo, quais \u00e1reas est\u00e3o amea\u00e7adas, o que fazer naquele momento, para onde ir, quais servi\u00e7os funcionam e quando vir\u00e1 nova atualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Atender aos rep\u00f3rteres, aqui, \u00e9 mais do que tarefa de assessoria de imprensa<\/strong>: o jornalismo ocupa o espa\u00e7o que o boato ocuparia, se tiver acesso permanente a informa\u00e7\u00f5es confirmadas, uma fonte oficial reconhec\u00edvel, um porta-voz e boletins com hora marcada. O celular tamb\u00e9m deve ser combinado com sirenes, r\u00e1dios locais, carros de som, WhatsApp, agentes de sa\u00fade, escolas e redes comunit\u00e1rias. Em uma emerg\u00eancia, repetir uma orienta\u00e7\u00e3o correta por diferentes canais n\u00e3o \u00e9 excesso: \u00e9 prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Depois do evento, a comunica\u00e7\u00e3o informa se o risco diminuiu ou terminou<\/strong>, o que continua interditado, quando escolas, postos de sa\u00fade e estradas voltam a funcionar e onde buscar ajuda. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso avaliar o que funcionou, o que falhou e o que deve ser mudado nos protocolos. A avalia\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m do n\u00famero de pessoas alcan\u00e7adas:\u00a0 importa saber quantas compreenderam o aviso, quantas conseguiram agir e quais grupos ficaram de fora.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Nada disso se resolve com uma campanha publicit\u00e1ria no m\u00eas do desastre<\/strong>. Exige tratar a comunica\u00e7\u00e3o de risco como servi\u00e7o p\u00fablico permanente, integrada \u00e0 Defesa Civil, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 mobilidade e \u00e0 assist\u00eancia social. O objetivo n\u00e3o \u00e9 apenas informar que existe um perigo. \u00c9 preparar a popula\u00e7\u00e3o antes, orient\u00e1-la durante e prestar contas depois.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Uma pergunta para o setor<\/strong><\/h3>\n<p>Quando o alerta chegar, o cidad\u00e3o saber\u00e1 apenas que corre perigo \u2014 ou saber\u00e1 o que fazer para sair dele?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>____________<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Artigos assinados expressam a opini\u00e3o de seus autores.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiz Celso Piratininga Jr. (Soci\u00f3logo e publicit\u00e1rio, Diretor da ADAG Comunica\u00e7\u00e3o) \u00a0 Com um El Ni\u00f1o potencialmente muito forte no horizonte, o sistema j\u00e1 opera em todo o pa\u00eds. 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