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[ENTREVISTA] Conheça os finalistas do 7º Prêmio Instituto 3M, Thiago Burgo e Kelly Moreira

O Prêmio Instituto 3M visa incentivar o desenvolvimento de tecnologias e projetos inovadores nas áreas de saúde, educação e meio ambiente.

Em sua 7ª edição, o evento premiará o melhor projeto de transformação social com o valor de 50 mil reais, para a finalização e a implementação da proposta em bairros, cidades ou até mesmo, no país.

Após a primeira etapa de análise, seis projetos finalistas do Brasil todo foram selecionados pela Comissão Julgadora do Prêmio.

Entre eles, está o projeto de Geradores triboelétricos (ou tribogeradores) do Professor do Departamento de Física e da Pós-Graduação em Química da UFSM, Thiago Burgo e da acadêmica do curso de Bacharelado em Química, Kelly Schneider Moreira.

O Núcleo de Divulgação CCNE conversou com o professor Thiago Burgo e Kelly Moreira sobre o projeto, a importância social desta proposta e o sentimento de estarem entre os finalistas do 7º Prêmio Instituto 3M.

 

NDI: Como surgiu a ideia de se inscrever neste prêmio?

Thiago: Ao tomar conhecimento do Prêmio, que foi divulgado pela Agittec e pelo Gabinete de Projetos CCNE/UFSM, chamei a Kelly para um conversa pois julgava que que nosso projeto tinha um enfoque tanto tecnológico quanto de inovação, incluindo aí um ataque a um problema de saneamento público, o da reciclagem de embalagens longa vida. Além disso, ele se encaixava muito bem na chamada pública do edital do Prêmio da 3M.

Kelly: Meu orientador que conhece um pouco da história da 3M e sabe que a empresa tem grande interesse em inovação tecnológica, me incentivou a participar. Fiquei extremamente empolgada com a oportunidade de poder escrever nosso projeto para o Prêmio 3M.

 

NDI: Qual foi o proposta submetida no evento e no que consiste?

Kelly: A proposta submetida para o Prêmio 3M foi a utilização de embalagens longa vida para a construção de tribogeradores de baixo custo para armazenamento de energia. Geradores triboelétricos (ou tribogeradores) são dispositivos que usam a eletricidade estática para produzir ou estocar eletricidade. Eles funcionam baseados na capacidade de eletrização que diferentes materiais apresentam quando são postos em contato e então separados, chamado de triboeletrização, ou eletrização por atrito. Após o atrito, alguns materiais ficam positivos enquanto outros ficam negativos. A eletricidade estática é facilmente observada em dias secos, quando tomamos um pequeno choque quando encostamos em partes metálicas, como em corrimãos ou mesmo no carro.

Thiago: Se tivermos dois materiais isolantes, como nylon e politetrafluoretileno (teflon), e pressionarmos estes materiais um contra o outro, há geração de eletricidade estática, com o teflon ficando predominantemente negativo e o nylon positivo. Se um filme metálico é depositado nas faces oposta desses materiais, há uma indução de cargas opostas no metal, ficando o filme metálico do nylon negativo e o metal do teflon positivo. Se conectarmos os terminais metálicos num capacitor ou bateria, essa energia pode ser armazenada para posterior utilização. Usualmente, esses tribogeradores são ainda muito caros, devido aos materiais empregados (alguns polímeros de engenharia) e a necessidade de se depositar um filme metálico na sua superfície. Por outro lado, embalagens longa vida são compostas por polietileno, um material que se eletriza muito bem, e por um filme de alumínio, além de papel e adesivos. Assim, ao utilizar uma embalagem deste tipo, a necessidade de depositar um filme metálico nos materiais já estava superada. Para construir um tribogerador, só faltava encontrar um outro material para atritar com o polietileno da embalagem. Foi aí que utilizamos uma modificação química já feita anteriormente neste laboratório para modificar a embalagem de polietileno e utilizarmos para nosso tribogerador a embalagem sem nenhuma modificação e uma embalagem com uma modificação química, eliminando a necessidade de se utilizar materiais custosos e da necessidade da deposição de metal.

 

NDI: Para vocês, qual é a importância desse invento para a sociedade?

Thiago: A principal vantagem desse dispositivo encontra-se no fato de apresentar baixo custo, boa eficiência e ser totalmente escalonável, podendo ser útil para ambientes que requeiram baixa densidade de energia ou que operem remotamente com o armazenamento de energia de atividades diárias, como caminhando ou correndo, dirigindo, digitando e várias outras ações humanas, uma área da ciência chamada de energy harvesting.

Kelly: Além disso, o processo de reciclagem deste tipo de embalagem não é trivial. Mais do que isso, existem poucas usinas especializadas na reciclagem destas embalagens. De fato, embalagens longa vidasão jogadas no lixo diariamente e em grandes quantidades, tornando-se um problema de saneamento público. Por outro lado, catadores e recicladores de lixo poderiam se beneficiar do reaproveitamento desses materiais ao construir um dispositivo inovador, agregando valor aos materiais que eventualmente teriam descarte não-apropriado. 

NDI: Qual foi a sensação de saber que foram classificados para a próxima etapa?

Kelly: A própria fase inicial de elaboração do projeto já foi extremamente importante para meu desenvolvimento científico e pessoal. Ao passar dias escrevendo, discutindo e desenvolvendo as ideias juntamente com meu orientador, pude ganhar maturidade numa área que, infelizmente, é pouco explorada na Universidade, a da inovação tecnológica. Desde o momento da inscrição fiquei extremamente empolgada com a oportunidade de escrever o projeto para um Instituto tão bem conceituado. Surpresa e muito contente fiquei ao receber a notícia de que havia passado para a segunda etapa do Prêmio para Estudantes Universitários.

Thiago: Somente de estar entre os finalistas, temos a certeza de que o trabalho que estamos desenvolvendo representa um grande avanço numa área que é ainda pouco explorada no Brasil, mas que tem reconhecida importância. Finalmente, é uma grande satisfação representar a nossa instituição num concurso tão concorrido. Temos a certeza que isto servirá de inspiração para que tantos outros bons grupos de pesquisa da UFSM também busquem por inovações tecnológicas. 

 

NDI: Esse avanço tem mudado quais pontos em suas vidas profissionais e acadêmicas?

Kelly: Eu como estudante estou tendo uma experiência incrível. Terei a oportunidade de expandir e compartilhar meus conhecimentos com estudantes de diferentes áreas que, assim como nós, desenvolveram ideias inovadoras e tecnológicas. Ainda que minha formação na graduação esteja sendo muito boa, nunca tive contato com concursos, prêmios e muito menos com projetos que tenham a missão de exteriorizar o conhecimento para a comunidade externa a Universidade. Considero esta possibilidade como uma oportunidade de vida, incluindo aí uma evolução científica e pessoal.

Thiago: Na condição de professor, é a primeira vez que estou orientando alunos e somente este fato já tem sido de grande aprendizado. Estar na final de um prêmio oferecido por uma instituição tão séria quanto a 3M me faz pensar nas possibilidades que estão adiante, tanto acadêmicas quanto pessoais. Além disso, este concurso me fez pensar ainda mais em inovação, tecnologia e como nosso trabalho dentro do laboratório pode ser extrapolado para a sociedade. Neste momento, ando pensando muito mais em aplicações do nosso trabalho do que em artigos científicos propriamente dito, ainda que este último tenha igual importância. 

 

NDI: Se trouxerem esse prêmio para o CCNE, quais serão os primeiros passos?

Thiago: Caso vençamos o concurso, o prêmio servirá para terminarmos a implantação do Laboratório de Triboquímica e Materiais Funcionais, na compra de equipamentos e materiais. Neste sentido, poderemos prosseguir com o desenvolvimento do projeto de tribogeradores. Além disso, já demos início a conversas com a Agittec para um pedido de patente baseado neste projeto. De fato, o prêmio de 50 mil reais seria muito bem vindo, mas a ausência dele não exclui o prosseguimento deste projeto tão ambicioso.

 

Nos dias 19 e 20 de setembro, Thiago e Kelly participam do encontro de formação das propostas finalistas. A divulgação dos ganhadores do 7º Prêmio Instituto 3M ocorre no dia 21 de setembro.

 

Fotos e entrevista: Arianne Teixeira de Lima