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Crônicas no CHEGA: confissões de uma feminista arrogante

Sempre balizo o mundo a partir de mim. Se eu, minimamente intelectualizada e de esquerda, fui/sou arrogante, muitas e muitos iguais a mim também foram/são. 

Year of the Woman, de Audrey Lee

Aos 13 anos me descobri feminista. Sofri assédio de um professor pedófilo. Fui confrontada por ele e pela direção da escola quando me defendi. E a vice-diretora, mulher, teve a audácia de perguntar se não era eu quem estava interessada no  dito cujo. Coloquei meu dedo em riste nas fuças dela e dele. E como eu e minha mãe sempre fomos cúmplices, no outro dia a levei na escola. Ela, leoa aquariana (risos), falou poucas e boas para ambos. E reafirmou:

– Minha guria sabe se defender! A Louise nunca me mentiu. Se ela disse que aconteceu, aconteceu.

Reprovei no primeiro vestibular. Entrei no segundo. Uma instituição católica. Comecei a me interessar profundamente por literatura (cursei Letras). Depois de um tempo, tive a sorte de conhecer professoras as quais acreditavam no meu potencial e me apresentaram teóricos que falavam sobre os estudos culturais, memória,  identidade e lógico, feminismo (e de qual forma eu reportaria tudo isso para as literaturas emergentes  estudadas por mim, principalmente as literaturas africanas de língua portuguesa). Conheci Simone Beauvoir, Virginia Woolf, Germaine Greer. Posteriormente,  Judith Butler,  bell hooks*, dentre outras. Fiz ao longo desse tempo, palestras e rodas de conversas sabendo destrinchar as ondas do feminismo e a importância da separação do feminismo branco e do feminismo negro.

Me considerei, durante muito tempo “a feministona da estrela”. Aquela que manjava dos ‘paranauês’ da teoria feminista. E mesmo tendo plena consciência do feminismo como movimento social e político, a favor das mulheres , TODAS AS MULHERES, e dos impactos da opressão de gênero sofrida historicamente POR TODAS NÓS. Eu realmente alienei tudo isso e coloquei minhas leituras acima daquelas, que não tiveram as mesmas oportunidades epistêmicas que eu.

Nós, brasileiras e brasileiros, somos fundamentalmente: cristãs e cristãos; conservadoras e conservadores. Mas eu, defendia (defendo) o aborto. Sempre achei (acho) formidáveis as mulheres exercendo sua liberdade corporal e sexual acima das amarras machistas.

Tentei no grito comprovar para mulheres, identificadas  por ideias conservadoras, o quanto elas estavam equivocadas.

Eu e as feministas acadêmicas como eu, perdemos a capacidade de dialogar  com a mulher de  10, 20, 30 anos (ou mais) de casada, orgulhosa  do marido, dos filhos e de sua própria atuação perante sua família. Fomos solenemente rejeitadas por aquela que, se comparada a uma puta (invenção do patriarcado) irá preferir a morte. Fomos bombardeadas por ela, a mulher descartada por não ser tão bonita para os padrões, nem tão jovem e nem tão fresca, desencorajada em mostrar os seios em público, afinal, sempre lhe foi ensinado: é feio exibir o corpo!

Estive cega demais para entender: “meu corpo e minhas regras” infelizmente  não alcança a mulher periférica, abusada de todas as formas, desde a infância e invisibilizada em seu sofrimento e em sua luta.   Tampouco  a mulher do campo, aquela que não teve e nunca terá acesso a informação e muito menos a proteção das leis, viáveis e confiáveis,  em muitos casos, apenas no papel.

Arrogante, acreditei ser óbvio para qualquer pessoa do gênero feminino repudiar um misógino, no entanto não perguntei para essas mulheres se elas sabiam o que era misoginia. Ignorei as veteranas da idade da minha mãe, tias e avós, doutrinadas dentro de “moral e bons costumes”. Tripudiei, muitas vezes, nos seus valores cristãos. Não compreendi o quanto para elas reputação e recato são simbólicos, mesmo que tais valores sejam compulsórios. Tentei as fazer engolir aborto como algo coerente. Logo elas, felizes e orgulhosas por todas suas crias.

Simplesmente tampei meus ouvidos e olhos para a verdade delas, tão mulheres quanto eu e tão maravilhosas em suas feminilidades. Arrogante, eu fui arrogante. E eu preciso delas, em “seus pegues e pagues do mundo”. Preciso da candura e do ensinamento delas. Da fé resistente em um mundo inóspito. Necessito continuar lutando por mim e por elas.  Desejo elas ao meu lado, mudando em uma conjuntura excessivamente ruim para  sociedade como um todo, mas principalmente para nós mulheres.

Agora, espero que não seja tarde para reconhecer:  

Não será colocando nosso feminismo em uma cartilha que iremos conquistar aliadas. Volto a dizer (já falei em outros textos), nossa virada será no amor. Com diálogo e respeito. Nenhuma mulher a menos? Sim,  para além do discurso.

 

*bell hooks –Gloria Jean Watkins mais conhecida pelo pseudônimo bell hooks (escrito em minúsculas) é uma autora, teórica feminista, artista e ativista social estadunidense.O nome “bell hooks” foi inspirado na sua bisavó materna, Bell Blair Hooks. A letra minúscula, que desafia convenções linguísticas e acadêmicas, pretende dar enfoque ao conteúdo da sua escrita e não à sua pessoa. O seu objectivo, porém, não é ficar presa a uma identidade em particular mas estar em permanente movimento.

Texto por: Louise da Silveira, licenciada em Letras pela UFN, mestranda em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria e integrante do GT CHEGA

Revisão: Wellington Gonçalves, Relações Públicas do Núcleo de Divulgação Institucional do CCNE