{"id":325,"date":"2024-02-06T09:46:41","date_gmt":"2024-02-06T12:46:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/cappa\/?p=325"},"modified":"2024-02-06T09:46:42","modified_gmt":"2024-02-06T12:46:42","slug":"uma-mordida-impressionante-cientistas-da-ufsm-recriam-o-habito-de-caca-de-um-predador-extinto-ha-mais-de-230-milhoes-de-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/cappa\/2024\/02\/06\/uma-mordida-impressionante-cientistas-da-ufsm-recriam-o-habito-de-caca-de-um-predador-extinto-ha-mais-de-230-milhoes-de-anos","title":{"rendered":"Uma mordida impressionante: cientistas da UFSM recriam o h\u00e1bito de ca\u00e7a de um predador extinto h\u00e1 mais de 230 milh\u00f5es de anos"},"content":{"rendered":"\n<p>Compreender os\u00a0<strong>h\u00e1bitos de vida de animais que h\u00e1 muito tempo desapareceram de nosso planeta<\/strong>\u00a0\u00e9 um desafio que intriga paleont\u00f3logos h\u00e1 s\u00e9culos. Isso porque esses cientistas t\u00eam nos\u00a0<strong>ossos fossilizados sua \u00fanica evid\u00eancia para reconstruir a hist\u00f3ria de vida desses seres do passado.<\/strong><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o impediu uma equipe de pesquisadores ga\u00fachos de investigar a fundo os h\u00e1bitos alimentares de um animal extinto h\u00e1 mais de\u00a0<strong>230 milh\u00f5es de anos.<\/strong>\u00a0Usando tecnologias avan\u00e7adas e a criatividade, especialistas da<strong>\u00a0Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e da Universidade Federal do Pampa (Unipampa)<\/strong>\u00a0reconstru\u00edram o h\u00e1bito alimentar da esp\u00e9cie Proterochampsa nodosa, um r\u00e9ptil que viveu no Rio Grande do Sul h\u00e1 cerca de 230 milh\u00f5es de anos.\u00a0<strong>Descoberto h\u00e1 mais de 40 anosno munic\u00edpio de Candel\u00e1ria,<\/strong>\u00a0esta \u00e9 a primeira vez que o animal \u00e9 submetido a an\u00e1lises biomec\u00e2nicas, em um estudo in\u00e9dito.<\/p>\n<figure style=\"width: 787px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/suitacdn.cloud-bricks.net\/fotos\/899937\/file\/desktop\/Figura-3-modelo-de-elementos-finitos-768x466.jpg?1707075100\" alt=\"Uma mordida impressionante: cientistas da UFSM recriam o h\u00e1bito de ca\u00e7a de um predador extinto h\u00e1 mais de 230 milh\u00f5es de anos\" width=\"787\" height=\"477\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Simula\u00e7\u00e3o da mordida de \u201cProterochampsa nodosa\u201d. \u00c0 esquerda, distribui\u00e7\u00e3o dos esfor\u00e7os na mand\u00edbula do animal. As cores mais claras indicam os locais onde os esfor\u00e7os mec\u00e2nicos se concentravam, quando o animal desferia sua mordida com for\u00e7a m\u00e1xima. \u00c0 direita, reconstru\u00e7\u00e3o art\u00edstica do animal em vida, por M\u00e1rcio L. Castro<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u2013 Os proteroc\u00e2mpsios s\u00e3o animais curiosos, porque seu cr\u00e2nio lembra muito o dos atuais jacar\u00e9s e crocodilos, apesar de n\u00e3o terem nenhum tipo de parentesco evolutivo. O interessante, contudo, \u00e9 que eles adquiriram essa morfologia antes de os primeiros crocodilos aparecerem em nosso planeta \u200b\u2013 explica Daniel Sim\u00e3o de Oliveira, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Biodiversidade Animal da UFSM, que liderou o estudo.\u00a0<\/p>\n<figure style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/suitacdn.cloud-bricks.net\/fotos\/899936\/file\/desktop\/Figura-4-cena_Proterochampsa-768x405.jpg?1707075083\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"540\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Na reconstru\u00e7\u00e3o de M\u00e1rcio L. Castro, uma dupla de Proterochampsa \u00e0s margens de um rio, h\u00e1 230 milh\u00f5es de anos.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi essa aparente semelhan\u00e7a que inspirou o\u00a0<a href=\"https:\/\/anatomypubs.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1002\/ar.25380?af=R\"><strong>estudo publicado no peri\u00f3dico norte-americano The Anatomical Record<\/strong><\/a><strong>.\u00a0<\/strong>No trabalho, os cientistas reconstru\u00edram a morfologia do cr\u00e2nio e da mand\u00edbula do animal, e identificaram os pontos onde a musculatura se alojava. Isso permitiu que eles estimassem, m\u00fasculo a m\u00fasculo, a for\u00e7a com a qual o animal era capaz de morder suas presas.<\/p>\n<p>\u2013 Foi um processo longo. O primeiro passo envolveu tomografar os ossos do cr\u00e2nio do animal, e isolar os elementos digitalmente, para criar um modelo virtual do cr\u00e2nio. Foi a partir desse modelo que pudemos ent\u00e3o reconstruir a musculatura do animal<\/p>\n<p>A partir dos modelos gerados, os pesquisadores\u00a0<strong>estudaram a mordida do animal utilizando softwares de simula\u00e7\u00e3o virtual.\u00a0<\/strong>Com base em tecnologias empregadas na Engenharia Mec\u00e2nica, os cientistas puderam, pela primeira vez, analisar como a a\u00e7\u00e3o dos m\u00fasculos impactava o cr\u00e2nio da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>\u2013 Foi realizada uma an\u00e1lise biomec\u00e2nica do cr\u00e2nio, usando t\u00e9cnicas num\u00e9ricas. Aplicando virtualmente as for\u00e7as dos m\u00fasculos sobre os ossos da mand\u00edbula, fomos capazes de estimar os esfor\u00e7os mec\u00e2nicos experimentados pela estrutura \u00f3ssea do animal, em diversos cen\u00e1rios de mordida \u2013 \u201d explica o professor Tiago dos Santos, do Departamento de Engenharia Mec\u00e2nica da UFSM, que participou do estudo.\u00a0<\/p>\n<p>Entre as descobertas, os cientistas desvendaram que\u00a0<strong>o animal era capaz de desferir mordidas poderosas,<\/strong>\u00a0compar\u00e1veis a dos alig\u00e1tores modernos.\u00a0<\/p>\n<p>\u2013 Esse olhar multidisciplinar \u00e9 um aspecto interessante do nosso trabalho. Unindo especialistas de diferentes \u00e1reas, da Biologia \u00e0 Engenharia, conseguimos ver o Proterochampsa de uma forma que ningu\u00e9m havia visto antes. Em uma \u00e9poca em que os dinossauros estavam rec\u00e9m surgindo em nosso planeta, j\u00e1 t\u00ednhamos um animal capaz de subjugar suas presas com uma mordida impressionante \u201d \u2013 avalia o paleont\u00f3logo Fl\u00e1vio Pretto, do Centro de Apoio \u00e0 Pesquisa Paleontol\u00f3gica (Cappa) da UFSM.\u00a0<\/p>\n<p>Comparando os modelos a animais viventes com morfologias similares, como o alig\u00e1tor americano e o gavial-da-mal\u00e1sia, os pesquisadores compararam a performance de suas mordidas.<\/p>\n<p>\u2013 A evolu\u00e7\u00e3o por vezes gera animais com morfologias similares. \u00c9 um fen\u00f4meno que conhecemos como Converg\u00eancia Evolutiva, que frequentemente vemos no registro f\u00f3ssil. A pergunta por tr\u00e1s disso \u00e9: ser\u00e1 que por terem a mesma forma, esses animais se comportavam de maneira similar? \u2013 Questiona o professor Felipe Pinheiro, do Laborat\u00f3rio de Paleobiologia da Unipampa.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>resposta<\/strong>\u00a0\u00e9 que, ainda que fossem capazes de gerar for\u00e7as de mordida poderosas, os proteroc\u00e2mpsios\u00a0<strong>sobrecarregavam sua mand\u00edbula com esfor\u00e7os mec\u00e2nicos consider\u00e1veis\u00a0<\/strong>\u2013 muito maior que o sofrido por animais viventes \u2013 o que aponta que talvez esse n\u00e3o fosse um h\u00e1bito usual daqueles animais.<\/p>\n<p>\u2013 Talvez o Proterochampsa guardasse sua mordida poderosa para ocasi\u00f5es especiais, de modo a poupar sua estrutura de eventuais les\u00f5es. Provavelmente fosse um animal generalista, e ca\u00e7asse desde presas pequenas, at\u00e9 animais maiores, da mesma forma que fazem os jacar\u00e9s atuais \u2013 conclui Daniel.<\/p>\n<p>Na simula\u00e7\u00e3o abaixo,\u00a0<strong>os pesquisadores reconstru\u00edram a distribui\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os mec\u00e2nicos\u00a0<\/strong>(\u00e1reas com cores quentes), e a deforma\u00e7\u00e3o sofrida pela mand\u00edbula de Proterochampsa nodosa. No estudo, os pesquisadores simularam diferentes tipos de mordida, testando a performance do animal em v\u00e1rios cen\u00e1rios hipot\u00e9ticos. <img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/suitacdn.cloud-bricks.net\/fotos\/899939\/file\/desktop\/onnnn.jpg?1707075152\" width=\"618\" height=\"412\" \/><\/p>\n<p>\u2013 Essa \u00e9 a beleza e a dor-de-cabe\u00e7a da Paleontologia. Enquanto os zo\u00f3logos podem observar o comportamento dos animais que estudam diretamente na natureza, na Paleontologia, precisamos dar uma volta um pouquinho mais longa, e usar da ci\u00eancia e da criatividade que temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para tentar reconstruir o passado remoto da melhor maneira poss\u00edvel. \u00c9 um desafio definitivamente instigante \u2013 afirma Fl\u00e1vio.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compreender os\u00a0h\u00e1bitos de vida de animais que h\u00e1 muito tempo desapareceram de nosso planeta\u00a0\u00e9 um desafio que intriga paleont\u00f3logos h\u00e1 s\u00e9culos. Isso porque esses cientistas t\u00eam nos\u00a0ossos fossilizados sua \u00fanica evid\u00eancia para reconstruir a hist\u00f3ria de vida desses seres do passado. 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