{"id":1856,"date":"2019-09-19T10:21:18","date_gmt":"2019-09-19T13:21:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/?p=1856"},"modified":"2019-09-19T10:42:43","modified_gmt":"2019-09-19T13:42:43","slug":"outras-vozes-e-perspectivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/2019\/09\/19\/outras-vozes-e-perspectivas","title":{"rendered":"Outras vozes e perspectivas \u201cser ga\u00facho\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento capaz de ser localizado dentro de qualquer cultura e que tamb\u00e9m possibilita a constru\u00e7\u00e3o de identidades da popula\u00e7\u00e3o pertencente a este meio. \u00c9 a partir da tradi\u00e7\u00e3o que conseguimos distinguir uma cultura de outra e que tamb\u00e9m se constr\u00f3i o sentimento de pertencimento \u00e0quele local ou \u00e0quele contexto: um sentimento de \u201cminha terra\u201d ou \u201cminha tradi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O m\u00eas de setembro para o Rio Grande do Sul \u00e9, sem d\u00favidas, importante, pois se trata de um momento para cultuar e praticar, de forma ainda mais viva, os h\u00e1bitos ga\u00fachos que passam pelas artes, com as dan\u00e7as e m\u00fasicas t\u00edpicas do estado, pelas vestimentas e tamb\u00e9m pela alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o, contudo, tamb\u00e9m pode funcionar como v\u00e1lvula para refor\u00e7ar estere\u00f3tipos e estigmas que est\u00e3o enraizados em determinada cultura e que, devido a sua constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social de anos, d\u00e9cadas, s\u00e9culos, torna-se extremamente complexo romper ou adaptar alguns de seus aspectos. Mas, afinal, que constru\u00e7\u00e3o \u00e9 essa? Quais as cores, os trejeitos, os g\u00eaneros e as classes dessas vozes que foram consideradas para constituir um ideal do que se tem hoje de uma cultura ga\u00facha? Afinal, existe apenas uma tradi\u00e7\u00e3o dentro do Rio Grande do Sul e que \u00e9, portanto, plena e absoluta?<\/p>\n<p>O Centro de Ci\u00eancias Naturais e Exatas (CCNE) decidiu ouvir diferentes pessoas \u2013 inseridas na cultura sul-rio-grandense e que ocupam diferentes espa\u00e7os dentro desta tradi\u00e7\u00e3o \u2013 para compreender o entendimento de cada um sobre o que \u00e9 ser ga\u00facho, j\u00e1 que de acordo com o professor Benhur Pin\u00f3s da Costa, da UFSM, \u201cmesmo quando sabemos da multiplicidade de quem somos, insistimos em ser fronteira e encontrar a todo custo uma unicidade do ser ga\u00facho\u201d.<\/p>\n<p>Um dos maiores equ\u00edvocos dos tradicionalistas ga\u00fachos \u00e9 tomar a tradi\u00e7\u00e3o conhecida e, portanto, que d\u00e1 corpo, voz e face ao Rio Grande do Sul como \u00fanica. Para Josu\u00e9 Goulart, acad\u00eamico de Ci\u00eancias Sociais e coordenador do Coletivo Afronta, \u201ctomar esta tradi\u00e7\u00e3o ga\u00facha como absoluta significa interpretar as mazelas relacionadas \u00e0 etnia, sexualidade, classe e g\u00eanero, tais como o racismo, homofobia e machismo, como costumes e maneiras dentro do movimento e n\u00e3o como o que realmente s\u00e3o: preconceitos e grandes problemas sociais, que fomentam a desigualdade em todos os setores\u201d. Este esquecimento dos preconceitos que cerceiam n\u00e3o apenas a cultura ga\u00facha, mas a cultura de forma geral, \u201creverberam em uma identidade ga\u00facha atrelada ao machismo, ao bairrismo e ao apagamento da hist\u00f3ria\u201d, opina Alan Ricardo Costa, licenciado em Letras Espanhol e mestre em Letras pela UCPel.<\/p>\n<p>Sobre este apagamento hist\u00f3rico, Leonardo Bert\u00e9 Nunes, acad\u00eamico de Geografia, relembra o massacre aos Lanceiros Negros, que foi um grupo organizado por ex-escravos excepcionais em combate mortos no lugar de receber uma carta de alforria. Afinal, o que estamos celebrando na Semana Farroupilha? S\u00e3o os interesses e conquistas de toda a popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha ou de um grupo seleto?<\/p>\n<p>Neste contexto, \u00e9 poss\u00edvel refletir: qual perspectiva da hist\u00f3ria est\u00e1 sendo ensinada nas escolas e nas outras institui\u00e7\u00f5es e, dessa forma, que est\u00e1 criando o conhecimento sobre o que foi a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha? Edipo Djavan dos Reis, licenciado em Hist\u00f3ria pela URI e mestre em Geografia pela UFSM, com a disserta\u00e7\u00e3o intitulada\u00a0<em>\u201cHomossexualidades na territorialidade tradicionalista ga\u00facha\u201d<\/em>\u00a0comenta que, a partir de suas pesquisas sobre g\u00eanero dentro do tradicionalismo ga\u00facho e viv\u00eancias como homossexual inserido no movimento, \u201ca hist\u00f3ria que eu estudei \u00e9 diferente das hist\u00f3rias que geralmente s\u00e3o contadas dentro do movimento tradicionalista\u201d e que \u201capesar de existir toler\u00e2ncia [aos homossexuais], n\u00e3o h\u00e1 uma total aceita\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria acaba por ser falha em representa\u00e7\u00f5es, o que Louise da Silveira, licenciada em Letras pela UFN e mestranda em Geografia pela UFSM, aponta, contando que a Semana Farroupilha, em seu tempo de escola, era sempre constrangedora. Por ser negra, ela n\u00e3o se via representada nas imagens para colorir de pe\u00f5es e prendas, sempre altos, brancos e com os cabelos longos, al\u00e9m de n\u00e3o ter dinheiro para comprar um vestido e comparecer \u00e0s atividades da semana \u201ctipicamente trajada\u201d. Entretanto, o sentimento de Louise em rela\u00e7\u00e3o ao seu estado \u00e9 de pertencimento. \u201cSou uma ga\u00facha tradicional do s\u00e9culo XXI, mas n\u00e3o cultuo elementos tradicionalistas. O sul n\u00e3o \u2018\u00e9 o meu pa\u00eds\u2019, \u00e9 meu lar\u201d, pontua.<\/p>\n<p>N\u00e3o cultuar todos os elementos inerentes \u00e0 cultura ga\u00facha n\u00e3o significa, portanto, ser menos ga\u00facho. \u00c9 importante reconhecer os diferentes tipos de ser ga\u00facho e a pluralidade e diversidade presente em nossa terra, assim como ouvir as novas vozes e perspectivas. Se no passado muitos grupos ficaram calados, por que agora devem continuar? A hist\u00f3ria \u00e9 continuamente escrita e somos n\u00f3s, como atores sociais, que contribu\u00edmos para o surgimento de novos cap\u00edtulos. Igor Corr\u00eaa Pereira, licenciado em Geografia, fala que \u201ca hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 \u00e9, ela pode vir a ser. Da mesma forma, a identidade. Construir um novo sentido do que \u00e9 ser ga\u00facho \u00e9 tarefa dos que querem mudan\u00e7as no mundo e na sociedade\u201d. O que para Dioggo C. Dresch, acad\u00eamico de Matem\u00e1tica, reflete em um novo olhar do ga\u00facho. Para ele, \u00e9 uma \u201cbatalha di\u00e1ria\u201d contra todas as problem\u00e1ticas sociais existentes.<\/p>\n<p><em>Texto: J. Ant\u00f4nio de S. Buere Filho, acad\u00eamico de Produ\u00e7\u00e3o Editorial e bolsista do N\u00facleo de Divulga\u00e7\u00e3o do CCNE<\/em><\/p>\n<p><em>Edi\u00e7\u00e3o: Wellington Gon\u00e7alves, rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas\u00a0do N\u00facleo de Divulga\u00e7\u00e3o do CCNE<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento capaz de ser localizado dentro de qualquer cultura e que tamb\u00e9m possibilita a constru\u00e7\u00e3o de identidades da popula\u00e7\u00e3o pertencente a este meio. \u00c9 a partir da tradi\u00e7\u00e3o que conseguimos distinguir uma cultura de outra e que tamb\u00e9m se constr\u00f3i o sentimento de pertencimento \u00e0quele local ou \u00e0quele contexto: um sentimento de \u201cminha terra\u201d ou \u201cminha tradi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":258,"featured_media":1857,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1856","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1856","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/users\/258"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1856"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1856\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1857"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1856"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1856"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1856"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}