{"id":924,"date":"2019-03-09T21:12:15","date_gmt":"2019-03-10T00:12:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/?p=924"},"modified":"2019-03-31T10:12:15","modified_gmt":"2019-03-31T13:12:15","slug":"perolas-do-cotidiano-confissoes-de-uma-feminista-arrogante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/2019\/03\/09\/perolas-do-cotidiano-confissoes-de-uma-feminista-arrogante","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas no CHEGA: confiss\u00f5es de uma feminista arrogante"},"content":{"rendered":"\n<p>Sempre balizo o mundo a partir de mim. Se eu, minimamente intelectualizada e de esquerda, fui\/sou arrogante, muitas e muitos iguais a mim tamb\u00e9m foram\/s\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_925\" aria-describedby=\"caption-attachment-925\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-925\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccne\/wp-content\/uploads\/sites\/369\/2019\/03\/IMG-20190309-WA0026-300x188.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"188\"><figcaption id=\"caption-attachment-925\" class=\"wp-caption-text\">Year of the Woman, de Audrey Lee<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aos 13 anos me descobri feminista. Sofri ass\u00e9dio de um professor ped\u00f3filo. Fui confrontada por ele e pela dire\u00e7\u00e3o da escola quando me defendi. E a vice-diretora, mulher, teve a aud\u00e1cia de perguntar se n\u00e3o era eu quem estava interessada no&nbsp; dito cujo. Coloquei meu dedo em riste nas fu\u00e7as dela e dele. E como eu e minha m\u00e3e sempre fomos c\u00famplices, no outro dia a levei na escola. Ela, leoa aquariana (risos), falou poucas e boas para ambos. E reafirmou:<\/p>\n<p>&#8211; Minha guria sabe se defender! A Louise nunca me mentiu. Se ela disse que aconteceu, aconteceu.<\/p>\n<p>Reprovei no primeiro vestibular. Entrei no segundo. Uma institui\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. Comecei a me interessar profundamente por literatura (cursei Letras). Depois de um tempo, tive a sorte de conhecer professoras as quais acreditavam no meu potencial e me apresentaram te\u00f3ricos que falavam sobre os estudos culturais, mem\u00f3ria,&nbsp; identidade e l\u00f3gico, feminismo (e de qual forma eu reportaria tudo isso para as literaturas emergentes&nbsp; estudadas por mim, principalmente as literaturas africanas de l\u00edngua portuguesa). Conheci Simone Beauvoir, Virginia Woolf, Germaine Greer. Posteriormente,&nbsp; Judith Butler,&nbsp; bell hooks*, dentre outras. Fiz ao longo desse tempo, palestras e rodas de conversas sabendo destrinchar as ondas do feminismo e a import\u00e2ncia da separa\u00e7\u00e3o do feminismo branco e do feminismo negro.<\/p>\n<p>Me considerei, durante muito tempo \u201ca feministona da estrela\u201d. Aquela que manjava dos &#8216;paranau\u00eas&#8217; da teoria feminista. E mesmo tendo plena consci\u00eancia do feminismo como movimento social e pol\u00edtico, a favor das mulheres , TODAS AS MULHERES, e dos impactos da opress\u00e3o de g\u00eanero sofrida historicamente POR TODAS N\u00d3S. Eu realmente alienei tudo isso e coloquei minhas leituras acima daquelas, que n\u00e3o tiveram as mesmas oportunidades epist\u00eamicas que eu.<\/p>\n<p>N\u00f3s, brasileiras e brasileiros, somos fundamentalmente: crist\u00e3s e crist\u00e3os; conservadoras e conservadores. Mas eu, defendia (defendo) o aborto. Sempre achei (acho) formid\u00e1veis as mulheres exercendo sua liberdade corporal e sexual acima das amarras machistas.<\/p>\n<p>Tentei no grito comprovar para mulheres, identificadas&nbsp; por ideias conservadoras, o quanto elas estavam equivocadas.<\/p>\n<p>Eu e as feministas acad\u00eamicas como eu, perdemos a capacidade de dialogar&nbsp; com a mulher de&nbsp; 10, 20, 30 anos (ou mais) de casada, orgulhosa&nbsp; do marido, dos filhos e de sua pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o perante sua fam\u00edlia. Fomos solenemente rejeitadas por aquela que, se comparada a uma puta (inven\u00e7\u00e3o do patriarcado) ir\u00e1 preferir a morte. Fomos bombardeadas por ela, a mulher descartada por n\u00e3o ser t\u00e3o bonita para os padr\u00f5es, nem t\u00e3o jovem e nem t\u00e3o fresca, desencorajada em mostrar os seios em p\u00fablico, afinal, sempre lhe foi ensinado: \u00e9 feio exibir o corpo!<\/p>\n<p>Estive cega demais para entender: &#8220;meu corpo e minhas regras&#8221; infelizmente&nbsp; n\u00e3o alcan\u00e7a a mulher perif\u00e9rica, abusada de todas as formas, desde a inf\u00e2ncia e invisibilizada em seu sofrimento e em sua luta.&nbsp;&nbsp; Tampouco&nbsp; a mulher do campo, aquela que n\u00e3o teve e nunca ter\u00e1 acesso a informa\u00e7\u00e3o e muito menos a prote\u00e7\u00e3o das leis, vi\u00e1veis e confi\u00e1veis,&nbsp; em muitos casos, apenas no papel.<\/p>\n<p>Arrogante, acreditei ser \u00f3bvio para qualquer pessoa do g\u00eanero feminino repudiar um mis\u00f3gino, no entanto n\u00e3o perguntei para essas mulheres se elas sabiam o que era misoginia. Ignorei as veteranas da idade da minha m\u00e3e, tias e av\u00f3s, doutrinadas dentro de \u201cmoral e bons costumes\u201d. Tripudiei, muitas vezes, nos seus valores crist\u00e3os. N\u00e3o compreendi o quanto para elas reputa\u00e7\u00e3o e recato s\u00e3o simb\u00f3licos, mesmo que tais valores sejam compuls\u00f3rios. Tentei as fazer engolir aborto como algo coerente. Logo elas, felizes e orgulhosas por todas suas crias.<\/p>\n<p>Simplesmente tampei meus ouvidos e olhos para a verdade delas, t\u00e3o mulheres quanto eu e t\u00e3o maravilhosas em suas feminilidades. Arrogante, eu fui arrogante. E eu preciso delas, em &#8220;seus pegues e pagues do mundo&#8221;. Preciso da candura e do ensinamento delas. Da f\u00e9 resistente em um mundo in\u00f3spito. Necessito continuar lutando por mim e por elas.&nbsp; Desejo elas ao meu lado, mudando em uma conjuntura excessivamente ruim para&nbsp; sociedade como um todo, mas principalmente para n\u00f3s mulheres.<\/p>\n<p>Agora, espero que n\u00e3o seja tarde para reconhecer:&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 colocando nosso feminismo em uma cartilha que iremos conquistar aliadas. Volto a dizer (j\u00e1 falei em outros textos), nossa virada ser\u00e1 no amor. Com di\u00e1logo e respeito. Nenhuma mulher a menos? Sim,&nbsp; para al\u00e9m do discurso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*bell hooks &#8211;<strong>Gloria Jean Watkins<\/strong> mais conhecida pelo&nbsp;pseud\u00f4nimo&nbsp;<strong>bell hooks<\/strong>&nbsp;(escrito em&nbsp;min\u00fasculas) \u00e9 uma&nbsp;autora, te\u00f3rica&nbsp;feminista,&nbsp;artista&nbsp;e&nbsp;ativista social&nbsp;estadunidense.O nome &#8220;bell hooks&#8221; foi inspirado na sua bisav\u00f3 materna, Bell Blair Hooks.&nbsp;A letra min\u00fascula, que desafia conven\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas e acad\u00eamicas, pretende dar enfoque ao conte\u00fado da sua escrita e n\u00e3o \u00e0 sua pessoa. O seu objectivo, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 ficar presa a uma identidade em particular mas estar em permanente movimento.<\/p>\n<p>Texto por: Louise da Silveira, licenciada em Letras pela UFN, mestranda em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria e integrante do GT CHEGA<\/p>\n<p>Revis\u00e3o: Wellington Gon\u00e7alves, Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas do N\u00facleo de Divulga\u00e7\u00e3o Institucional do CCNE<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 13 anos me descobri feminista. Sofri ass\u00e9dio de um professor ped\u00f3filo. Fui confrontada por ele e pela dire\u00e7\u00e3o da escola quando me defendi. E a vice-diretora, mulher, teve a aud\u00e1cia de perguntar se n\u00e3o era eu quem estava interessada no  dito cujo. Coloquei meu dedo em riste nas fu\u00e7as dela e dele. E como eu e minha m\u00e3e sempre fomos c\u00famplices, no outro dia a levei na escola. 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