{"id":3230,"date":"2022-04-29T11:00:35","date_gmt":"2022-04-29T14:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/?p=3230"},"modified":"2022-04-29T11:00:36","modified_gmt":"2022-04-29T14:00:36","slug":"trabalhadoras-domesticas-lutam-por-direitos-ha-mais-de-80-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/2022\/04\/29\/trabalhadoras-domesticas-lutam-por-direitos-ha-mais-de-80-anos","title":{"rendered":"Trabalhadoras dom\u00e9sticas lutam por direitos h\u00e1 mais de 80 anos"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"col-12\">\n<h2 class=\"text-start text-muted text-break h4 mb-0\">Trabalho dom\u00e9stico \u00e9 tem\u00e1tica de estudo de pesquisas na Am\u00e9rica Latina<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O quartinho da empregada e o banheiro separado nos fundos da cozinha s\u00e3o retratos arquitet\u00f4nicos da heran\u00e7a de uma sociedade colonial escravocrata. Al\u00e9m disso, pagamentos em formato de sal\u00e1rio indireto, a partir de alimenta\u00e7\u00e3o, moradia e vestimenta s\u00e3o formas de manifesta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dessa heran\u00e7a. Nair Jane de Castro Lima, 90 anos, trabalhadora dom\u00e9stica desde os nove e sindicalizada na Associa\u00e7\u00e3o Profissional das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas do Rio de Janeiro \u2013 hoje Sindicato dos Trabalhadores Dom\u00e9sticos \u2013 desde os anos 1970, conta sobre o per\u00edodo em que foi presidenta da associa\u00e7\u00e3o: \u201cEu enfrentei muitos problemas com patroas que traziam meninas do interior e diziam que era para estudar, e de repente n\u00e3o estudavam nada e estavam \u2018escravizadas\u2019, trancadas dentro daquelas casas\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p><br \/>Na categoria do trabalho dom\u00e9stico remunerado, h\u00e1 um perfil: em geral s\u00e3o mulheres mais velhas, negras, de classe baixa. Os dados da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dieese.org.br\/outraspublicacoes\/2021\/trabalhoDomestico.html\">Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio Cont\u00ednua (Pnad Cont\u00ednua) de 2020<\/a>\u00a0mostram que as mulheres representam mais de 92% da categoria. Do total de 4,5 milh\u00f5es de trabalhadoras, tr\u00eas milh\u00f5es s\u00e3o negras, ou seja, 67% do total. A informalidade tamb\u00e9m \u00e9 um dado importante: 75% dessas mulheres n\u00e3o t\u00eam carteira assinada. A renda m\u00e9dia mensal caiu de R$924,00, em 2019, para R$876,00, em 2020, valor abaixo do sal\u00e1rio m\u00ednimo na \u00e9poca, que era de R$1045,00. Al\u00e9m disso, a m\u00e9dia de horas trabalhadas, que \u00e9 de 52 horas semanais, tem diferen\u00e7as entre mulheres negras e n\u00e3o negras: na regi\u00e3o Norte, por exemplo, enquanto uma trabalhadora negra tem uma jornada de 51 horas semanais, a de uma trabalhadora n\u00e3o negra \u00e9 de 49 horas semanais.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-3231 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/372\/2022\/04\/capa_trabalhadoras_domesticas2-1024x668-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"668\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/372\/2022\/04\/capa_trabalhadoras_domesticas2-1024x668-1.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/372\/2022\/04\/capa_trabalhadoras_domesticas2-1024x668-1-300x196.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/372\/2022\/04\/capa_trabalhadoras_domesticas2-1024x668-1-768x501.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Os dados mostram uma intersec\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a, classe e g\u00eanero que \u00e9 central no debate do trabalho dom\u00e9stico. Jurema Brites, docente no Departamento de Ci\u00eancias Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), antrop\u00f3loga e pesquisadora da tem\u00e1tica h\u00e1 25 anos, afirma que o trabalho dom\u00e9stico \u00e9 um dos lugares de maior subalternidade, uma vez que a rela\u00e7\u00e3o com os patr\u00f5es acontece em um espa\u00e7o isolado dentro da casa. \u201cA\u00ed n\u00f3s temos uma precariedade dos direitos, e elas s\u00e3o sempre sobre g\u00eanero e ra\u00e7a, est\u00e3o sempre interseccionadas com outras precariedades\u201d, salienta.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O primeiro Sindicato das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas do Brasil nasceu em Santos (SP), em 1936. Desde l\u00e1, j\u00e1 s\u00e3o 86 anos de luta pela busca de direitos e pela garantia daqueles j\u00e1 conquistados. A precariza\u00e7\u00e3o e o desrespeito \u00e0 categoria tamb\u00e9m s\u00e3o comuns, mesmo com conquistas importantes como a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/lcp\/lcp150.htm\">PEC das Dom\u00e9sticas<\/a>. Not\u00edcias sobre viola\u00e7\u00f5es de direitos da categoria s\u00e3o frequentes, como a\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/saude\/ultimas-noticias\/redacao\/2020\/03\/19\/primeira-vitima-do-rj-era-domestica-e-pegou-coronavirus-da-patroa.htm\">primeira v\u00edtima de Covid-19 no Brasil: uma dom\u00e9stica infectada por sua patroa no Rio de Janeiro<\/a>. Ou como\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pe\/pernambuco\/noticia\/2021\/09\/15\/caso-miguel-foi-muito-bem-ensaiada-ate-o-show-que-ela-deu-no-final-chorando-diz-mae-de-menino-sobre-fala-de-sari-corte-real-em-audiencia.ghtml\">a morte do menino Miguel, em Recife<\/a>. Ou como os v\u00e1rios\u00a0<a href=\"https:\/\/fenatrad.org.br\/2022\/04\/04\/trabalhadoras-domesticas-em-situacao-analoga-a-escravidao-no-brasil-ate-quando\/\">resgates de trabalhadoras dom\u00e9sticas em condi\u00e7\u00f5es de trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o<\/a>. De acordo com o Minist\u00e9rio do Trabalho e da Previd\u00eancia, de 2017 a 2021, 38 trabalhadoras dom\u00e9sticas foram resgatadas nessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mary Garcia Castro, professora aposentada na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora do trabalho dom\u00e9stico h\u00e1 33 anos, explica que, desde que investiga o assunto, as mudan\u00e7as podem ser consideradas paradoxais: \u201cMudou muita coisa e n\u00e3o mudou nada. Em especial no Brasil, continua a explora\u00e7\u00e3o das trabalhadoras dom\u00e9sticas, apesar de elas terem conseguido muitas coisas em n\u00edvel internacional\u201d, exp\u00f5e. Mary participou da organiza\u00e7\u00e3o de um livro latino-americano sobre o trabalho dom\u00e9stico remunerado. \u2018<em>Muchachas no more: Household Workers in Latin America and the Caribbean<\/em>\u2019 (Trabalhadoras dom\u00e9sticas na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, em portugu\u00eas), foi lan\u00e7ado em 1991 e \u00e9 base, at\u00e9 hoje, para os estudos desenvolvidos na \u00e1rea.<\/p>\n<h3><b>A PEC das Dom\u00e9sticas e a cria\u00e7\u00e3o da figura da diarista<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A Conven\u00e7\u00e3o 189 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) foi aprovada durante a Confer\u00eancia Internacional do Trabalho, em 2011. Para Aguinaldo Maciente, especialista em pol\u00edticas de emprego e mercado de trabalho da OIT do Brasil, a principal fun\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o \u00e9 a de reconhecimento do status dos trabalhadores e trabalhadoras: \u201cEla veio trazer esses trabalhadores para dentro da legisla\u00e7\u00e3o e da normativa internacional da garantia de direitos. Em muitos pa\u00edses, at\u00e9 mais que no caso brasileiro, a situa\u00e7\u00e3o de total informalidade dos v\u00ednculos prevalece\u201d, destaca.\u00a0 At\u00e9 2021, a Conven\u00e7\u00e3o foi ratificada por 31 pa\u00edses, com destaque para a Am\u00e9rica Latina, com 16 ratifica\u00e7\u00f5es. Aguinaldo explica que, uma vez aprovada uma conven\u00e7\u00e3o da OIT, o texto segue para aprecia\u00e7\u00e3o do Poder Executivo de cada pa\u00eds, que inicia um processo de an\u00e1lise para a posterior ratifica\u00e7\u00e3o, que acontece no Legislativo e \u00e9 sancionada pelo Executivo. A partir disso, o texto da Conven\u00e7\u00e3o \u00e9 adaptado para a legisla\u00e7\u00e3o interna. No Brasil, o tr\u00e2mite ocorreu por meio da Emenda Constitucional n\u00ba 72, e foi sancionada pela Lei Complementar n\u00ba 150, que ficou conhecida como PEC das Dom\u00e9sticas, aprovada em 2016. \u201cCom certeza foi um marco muito grande para se tornar mais concreta a garantia dos direitos dos empregados dom\u00e9sticos\u201d, refor\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Um dos grandes debates em torno da PEC das Dom\u00e9sticas \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da figura das diaristas, que n\u00e3o consta no pr\u00f3prio documento da OIT. A diferen\u00e7a entre uma diarista e uma trabalhadora dom\u00e9stica est\u00e1 na quantidade de dias trabalhados na casa de um mesmo empregador.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p><b><strong>\u00a0Diarista:<\/strong><\/b>\u00a0trabalha at\u00e9 dois dias por semana na casa de um mesmo empregador e \u00e9 considerada como \u2018auto-empregadora\u2019;<\/p>\n<p><b>Trabalhadora dom\u00e9stica:<\/b>\u00a0trabalha mais de dois dias por semana na casa de um mesmo empregador e, em tese, tem a carteira assinada e se beneficia de todos os direitos garantidos pela legisla\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Louisa Acciari, pesquisadora da Universidade de Londres e que fez sua tese sobre a PEC das Dom\u00e9sticas, aponta que a cria\u00e7\u00e3o da figura da diarista abre uma brecha para a precariza\u00e7\u00e3o dos direitos. Carteira assinada, sal\u00e1rio m\u00ednimo, 13\u00ba sal\u00e1rio e f\u00e9rias remuneradas s\u00e3o direitos b\u00e1sicos garantidos \u00e0s trabalhadoras dom\u00e9sticas pela Lei Complementar n\u00ba 150. Entretanto, a mesma lei assegura aos empregadores a n\u00e3o obrigatoriedade do v\u00ednculo quando a trabalhadora vai at\u00e9 a casa do empregador at\u00e9 duas vezes na semana, o que configura a diarista. \u201cQuer dizer que a maioria dos direitos n\u00e3o se aplicam porque a carteira n\u00e3o \u00e9 assinada. Esse ponto contradiz inclusive a Conven\u00e7\u00e3o 189 da OIT e gera um problema que permite que a lei n\u00e3o se aplique\u201d, explica. De acordo com dados da Pnad Cont\u00ednua de 2021,\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/economia\/2021\/11\/29\/internas_economia,1326633\/contratacao-de-diaristas-cresce-quase-30-no-brasil.shtml\"><span style=\"font-weight: 400\">a contrata\u00e7\u00e3o de diaristas foi a que mais cresceu no pa\u00eds no ano passado, somando 28,7%<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Apesar da cria\u00e7\u00e3o da figura da diarista, Louisa aponta que o avan\u00e7o da Lei n\u00ba 150 n\u00e3o pode ser diminu\u00eddo: \u201cBotar na Constitui\u00e7\u00e3o o princ\u00edpio de igualdade e uma lista de direitos n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. \u00c9 uma luta que elas t\u00eam h\u00e1 mais de 80 anos. \u00c9 uma lei que elas pediram. \u00c9 uma demanda que veio do movimento delas, e \u00e9 uma conquista gigante: uma das categorias mais exploradas e marginalizadas conseguir essa lei\u201d, refor\u00e7a. Louisa aponta que o problema est\u00e1 em como a lei \u00e9 implementada. \u201cPrecisa de um governo que realmente queira priorizar a implementa\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o, que coloca recurso para isso e que corra atr\u00e1s de formalizar e de fazer um sistema f\u00e1cil de usar, de penalizar empregador que n\u00e3o respeita direitos\u201d, indica. Para a pesquisadora, um dos obst\u00e1culos para a implementa\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 150 tamb\u00e9m passou pelo momento pol\u00edtico na \u00e9poca, com o impeachment de Dilma Rousseff, e com a posterior Reforma Administrativa.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nair Jane resume a legisla\u00e7\u00e3o brasileira sobre o trabalho dom\u00e9stico: \u201c\u00c9 uma colcha de retalhos\u201d. Para a trabalhadora, fica o questionamento: \u201cO Brasil assinou [a Conven\u00e7\u00e3o 189 da OIT], mas cad\u00ea a pr\u00e1tica?\u201d. Ela afirma que a luta n\u00e3o acaba por essa raz\u00e3o: \u201cCada hora a gente pensa que vamos usufruir dos ganhos, mas tem que continuar lutando para fazer valer esses ganhos e n\u00e3o v\u00ea-los escoar ralo abaixo\u201d.<\/p>\n<h3><b>A sindicaliza\u00e7\u00e3o como ferramenta emancipat\u00f3ria<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ernestina Pereira, 65, \u00e9 remanescente do Quilombo do Algod\u00e3o, que fica em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Quando tinha 13 anos, come\u00e7ou a trabalhar com sua m\u00e3e: ela buscava trouxas de roupas e lavava para outras pessoas. Aos 14, ela assumiu uma casa de fam\u00edlia em que passou a fazer todo o trabalho dom\u00e9stico, entre cozinhar, limpar e cuidar dos netos da patroa. Foi s\u00f3 com a mudan\u00e7a do interior para a cidade que Ernestina conseguiu estudar. Na comunidade em que morava, o racismo impedia que crian\u00e7as negras pudessem ir \u00e0 escola. \u201cA d\u00edvida da sociedade \u00e9 muito grande com as mulheres negras. Quando eu penso na quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e penso em mim \u2013 eu n\u00e3o gosto de ser ego\u00edsta, mas eu sou exemplo disso \u2013 os meus parentes brancos foram pra escola e estudaram, e os meus parentes negros, a maioria n\u00e3o foi\u201d, relembra.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Foi por meio da religi\u00e3o, com o envolvimento em comunidades de base e na atua\u00e7\u00e3o como agente pastoral negra, que Ernestina descobriu o sindicato. \u201cQuando eu tomei consci\u00eancia da minha negritude, eu entrei pra Associa\u00e7\u00e3o das Empregadas Dom\u00e9sticas\u201d. A entidade foi transformada em Sindicato das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas de Pelotas em janeiro de 1987, ap\u00f3s Ernestina participar do Congresso Nacional das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas e conhecer duas lideran\u00e7as negras da categoria: Laudelina Campos Melo, que fundou o primeiro sindicato das dom\u00e9sticas, e Benedita da Silva, lideran\u00e7a pol\u00edtica que j\u00e1 atuou como trabalhadora dom\u00e9stica. \u201cEu me senti bastante provocada e incentivada a fazer minha parte\u201d, diz. Para Ernestina, o trabalho desenvolvido no sindicato \u00e9 fundamental: \u201c\u00c9 que nem um posto de gasolina: os carros se abastecem de gasolina e a trabalhadora se abastece de informa\u00e7\u00e3o e de empoderamento, e tamb\u00e9m passa informa\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o que ela vive\u201d, explica. Aposentada por quest\u00f5es de sa\u00fade, Ernestina atende no sindicato tr\u00eas vezes por semana, em que recebe trabalhadoras em busca de informa\u00e7\u00e3o e combate situa\u00e7\u00f5es de desrespeito aos direitos delas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ernestina tamb\u00e9m concorreu a deputada federal em 1990 pelo Partido dos Trabalhadores (PT), e a vereadora da cidade de Pelotas em 1992 e em 2000. N\u00e3o se elegeu mas, para ela, concorrer a um cargo pol\u00edtico era uma forma de marcar posi\u00e7\u00e3o. \u201cEra para questionar a sociedade. Com a prepara\u00e7\u00e3o da Campanha da Fraternidade em 1997, que celebrava cem anos da aboli\u00e7\u00e3o e teve um grande movimento de consci\u00eancia negra, eu tomei consci\u00eancia da minha negritude e vi que teria que assumir tamb\u00e9m a quest\u00e3o de ra\u00e7a e classe\u201d, relata. Para Ernestina, a categoria n\u00e3o deve sentir-se inferior: \u201cN\u00f3s temos que valorizar a profiss\u00e3o que temos e cobrar respeito por este trabalho que fizemos. A trabalhadora dom\u00e9stica e a sociedade em geral tem que reconhecer. A trabalhadora dom\u00e9stica \u00e9 um ser humano que merece o mesmo respeito que qualquer outra pessoa precisa\u201d, reitera.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nair Jane de Castro Lima tamb\u00e9m conheceu a milit\u00e2ncia por meio da religi\u00e3o. Quando tinha 37 anos, ap\u00f3s quase 30 anos no trabalho dom\u00e9stico, ela participava de encontros supletivos em uma escola no Rio de Janeiro em que a igreja atuava. \u201cL\u00e1 a gente tamb\u00e9m tinha essas aulas sobre direitos e sobre deveres. Aprendemos o seguinte: direitos implicam deveres. E tem que saber quais s\u00e3o. E foi nesse per\u00edodo que eu descobri que existia uma associa\u00e7\u00e3o de empregadas dom\u00e9sticas\u201d, relembra. Depois, Nair Jane se tornou presidenta da Associa\u00e7\u00e3o Profissional dos Trabalhadores Dom\u00e9sticos no Rio de Janeiro. Segundo ela, a responsabilidade era triplicada: al\u00e9m do trabalho na casa dos patr\u00f5es, tinha o trabalho na associa\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de projetos para conscientiza\u00e7\u00e3o de outras trabalhadoras. \u201cEsse foi um per\u00edodo muito importante para a conscientiza\u00e7\u00e3o da gente, de ter os mesmos direitos e de que precis\u00e1vamos nos considerar trabalhadoras. Os patr\u00f5es diziam que o nosso trabalho n\u00e3o dava lucro. E a\u00ed eu dizia para a minha patroa: como \u00e9 que a senhora pode ir para o seu escrit\u00f3rio? Como \u00e9 que a senhora pode viajar? Como \u00e9 que a senhora pode ter uma comida gostosa?\u201d, descreve Nair Jane. Ela relembra que descobriu a import\u00e2ncia de se afirmar enquanto trabalhadora. \u201cN\u00f3s somos trabalhadoras e temos que provar que n\u00f3s produzimos sim. N\u00f3s produzimos a riqueza: crian\u00e7as que a gente educa, a alimenta\u00e7\u00e3o sadia, a casa limpa, o telefone com todos os recados anotados. Podem me dizer o que quiserem, como quiserem, eu vou sempre afirmar: trabalho dom\u00e9stico produz riqueza, trabalho dom\u00e9stico produz sa\u00fade, trabalho dom\u00e9stico produz educa\u00e7\u00e3o\u201d, evidencia. Nair Jane est\u00e1 afastada do sindicato h\u00e1 dois anos por conta da pandemia, mas ainda participa de reuni\u00f5es online e, com o arrefecimento da contamina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, de vez em quando vai at\u00e9 o sindicato para conversar e participar de alguma reuni\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Jurema Brites, a sindicaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o beneficia somente as trabalhadoras sindicalizadas, mas todas as mulheres do Brasil. \u201cNas conquistas de direitos, elas foram decisivas. A partir das parcerias, primeiro com a igreja cat\u00f3lica nos anos 1970 e 1980, depois, na d\u00e9cada de 1990, come\u00e7a uma alian\u00e7a com as feministas e com ONGs que conseguiam trabalhar diretamente com os parlamentares. Elas iam para o parlamento pressionar para votar. A PEC foi aprovada por isso. Na cent\u00e9sima reuni\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, as trabalhadoras brasileiras foram decisivas\u201d, afirma. A import\u00e2ncia do sindicato tamb\u00e9m est\u00e1 nas nuances das rela\u00e7\u00f5es de trabalho: \u201cTer um sindicato que te defenda, ter um lugar para chegar e falar de abuso, \u00e9 um lugar que pode denunciar trabalho escravo. \u00c0s vezes a mulher chega l\u00e1 despeda\u00e7ada e \u00e9 atendida na quest\u00e3o emocional e na quest\u00e3o trabalhista. A sindicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante, mas \u00e9 bem dif\u00edcil conquistar essa categoria para a sindicaliza\u00e7\u00e3o\u201d, sustenta Jurema.<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Na pandemia, o trabalho do sindicato foi fundamental, entre promo\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>lives<\/i>\u00a0e forma\u00e7\u00f5es online, a categoria conseguiu uma visibilidade grande, principalmente por meio das redes sociais da Federa\u00e7\u00e3o Nacional das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas (Fenatrad). Al\u00e9m disso, elas atuaram no enfrentamento da Covid-19, com distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool em gel, confec\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras e distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas, uma vez que o desemprego na \u00e1rea cresceu. De acordo com levantamento da Pnad Cont\u00ednua de 2020, cerca de 1,5 milh\u00e3o de trabalhadoras dom\u00e9sticas perderam seu emprego no per\u00edodo.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p><b>Para saber mais:<\/b><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/1congresorithal\/\"><b>Rithal:<\/b><\/a>\u00a0Red de Investigaci\u00f3n sobre Trabajo del Hogar en Am\u00e9rica Latina (Rede de Investiga\u00e7\u00e3o sobre Trabalho Dom\u00e9stico na Am\u00e9rica Latina, em portugu\u00eas), \u00e9 uma rede de pesquisadores que nasceu em 2017 por meio de uma lista de e-mails. O objetivo \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o e estabelecimento de espa\u00e7os de di\u00e1logo sobre a tem\u00e1tica do trabalho dom\u00e9stico nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. A rede tem a integra\u00e7\u00e3o de trabalhadoras dom\u00e9sticas e pesquisadoras como uma metodologia de trabalho. Atualmente a rede conta com 125 participantes. Em mar\u00e7o de 2021, aconteceu o\u00a0<a href=\"https:\/\/plataforma9.com\/congressos\/1-congresso-da-rithal-red-de-investigacion-sobre-trabajo-del-hogar-en-america-latina\">1\u00ba Congresso da Rithal<\/a>, sediado na UFSM\u00a0 em formato online.<\/p>\n<p><br \/><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/5TdR4lUhXKZdrZbpGPSZuB?si=cfef4d018b3f4666\"><b>Podcast Nossos passos v\u00eam de longe:<\/b><\/a>\u00a0Desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa Pol\u00edticas da Intimidade e pelo Laborat\u00f3rio de Experimenta\u00e7\u00e3o em Jornalismo (LEX) da UFSM, com apoio da ONG Themis \u2013 G\u00eanero, Justi\u00e7a e Direitos Humanos, o podcast conta as hist\u00f3rias de trabalhadoras dom\u00e9sticas do Brasil. O primeiro epis\u00f3dio j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel\u00a0<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/2jjPpR800VCei7hQxzslCr?si=6D9Ez_o4QWqojf0RUdD6Og\">aqui.<\/a><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b><strong><em>Revista Arco<\/em><\/strong><\/b><\/p>\n<p><b><strong><em>Expediente:\u00a0<\/em><\/strong><\/b><\/p>\n<p><em><b><strong>Reportagem:<\/strong><\/b>\u00a0Samara Wobeto, acad\u00eamica de Jornalismo e bolsista;<\/em><\/p>\n<p><em><b><strong>Design gr\u00e1fico:<\/strong><\/b>\u00a0Cristielle Luise, acad\u00eamica de Desenho Industrial e bolsista;<\/em><\/p>\n<p><em><b><strong>M\u00eddia social:<\/strong><\/b>\u00a0Elo\u00edze Moraes, acad\u00eamica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acad\u00eamica de Jornalismo e bolsista; Ludmilla Naiva, acad\u00eamica de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acad\u00eamica de Produ\u00e7\u00e3o Editorial e bolsista;\u00a0Alice dos Santos, acad\u00eamica de Jornalismo e volunt\u00e1ria; e\u00a0 Gustavo Salin Nuh, acad\u00eamico de Jornalismo e volunt\u00e1rio;<\/em><\/p>\n<p><em><b><strong>Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas:<\/strong><\/b>\u00a0Carla Isa Costa;<\/em><\/p>\n<p><em><b><strong>Edi\u00e7\u00e3o de Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/b>\u00a0Samara Wobeto, acad\u00eamica de Jornalismo e bolsista;<\/em><\/p>\n<p><em><b><strong>Edi\u00e7\u00e3o geral:<\/strong><\/b>\u00a0Luciane Treulieb e Maur\u00edcio Dias, jornalistas.<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalho dom\u00e9stico \u00e9 tem\u00e1tica de estudo de pesquisas na Am\u00e9rica Latina O quartinho da empregada e o banheiro separado nos fundos da cozinha s\u00e3o retratos arquitet\u00f4nicos da heran\u00e7a de uma sociedade colonial escravocrata. Al\u00e9m disso, pagamentos em formato de sal\u00e1rio indireto, a partir de alimenta\u00e7\u00e3o, moradia e vestimenta s\u00e3o formas de manifesta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dessa heran\u00e7a. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":274,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[73,61,948,956],"class_list":["post-3230","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","tag-ccsh","tag-ciencias-sociais","tag-revista-arco","tag-trabalho-domestico"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3230","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/wp-json\/wp\/v2\/users\/274"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3230"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3230\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ccsh\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}