{"id":3460,"date":"2020-04-15T13:05:52","date_gmt":"2020-04-15T16:05:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ce\/?p=3460"},"modified":"2020-04-30T20:02:06","modified_gmt":"2020-04-30T23:02:06","slug":"abril-de-2020-em-distanciamento-social-como-medida-de-enfrentamento-a-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ce\/2020\/04\/15\/abril-de-2020-em-distanciamento-social-como-medida-de-enfrentamento-a-covid-19","title":{"rendered":"Abril de 2020 \u2013 em distanciamento social, como medida de enfrentamento a Covid 19."},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Sueli Salva- UFSM<\/strong><\/p>\n<p>Caros\/as estudantes e colegas, estamos vivendo momentos diferentes de tudo que j\u00e1 conhecemos, de um dia para o outro nos disseram para ficar em casa. De um dia para outro nos disseram que n\u00e3o pod\u00edamos abra\u00e7ar, acariciar, beijar. Que dev\u00edamos cuidar dos mais velhos. Junto com isso nos disseram que n\u00e3o ter\u00edamos aulas presencias e as crian\u00e7as tamb\u00e9m deveriam ficar em casa. Muitos, de um dia para o outro, ficaram sem o seu trabalho, ficaram sem escolas onde deixar as crian\u00e7as, ficaram sem as aulas na universidade, ficaram sem o conv\u00edvio dos\/as colegas, ficaram sem aula. Nos disseram que t\u00ednhamos que ficar em casa, mas tamb\u00e9m nos disseram que n\u00e3o est\u00e1vamos em f\u00e9rias. Tudo isso, para que hospitais pudessem ter tempo de organizar-se para receber centenas, milhares de pessoas que adoecer\u00e3o gravemente ao serem contaminados por um v\u00edrus que ocasiona a Covid 19.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 novo e quando ocorre algo desconhecido pode gerar medo, ansiedade, ang\u00fastia, mal estar. Para estabelecer um di\u00e1logo com voc\u00eas, fa\u00e7o uso de um escritor e poeta que muito me ensina sobre a vida e tamb\u00e9m me fez pensar sobre nossa condi\u00e7\u00e3o de sentir medo. Esse escritor \u00e9 Mia Couto.<\/p>\n<p>Mia couto, certa vez foi convidado a falar sobre o medo. Mia Couto \u00e9 pseud\u00f4nimo de Ant\u00f3nio Em\u00edlio Leite Couto\u00a0que nasceu e foi escolarizado na\u00a0Beira, cidade capital da\u00a0prov\u00edncia de Sofala, em\u00a0Mo\u00e7ambique\u00a0&#8211; \u00c1frica. Adotou o seu pseud\u00f4nimo porque tinha uma paix\u00e3o por gatos. Com 14 anos de idade, teve alguns poemas publicados no jornal &#8220;<em>Not\u00edcias da Beira&#8221;<\/em>\u00a0e tr\u00eas anos depois, em 1971, mudou-se para a cidade capital de\u00a0Mo\u00e7ambique, Louren\u00e7o Marques\u00a0(agora\u00a0Maputo). Iniciou os estudos universit\u00e1rios em\u00a0medicina, mas abandonou esta \u00e1rea no princ\u00edpio do terceiro ano, passando a exercer a profiss\u00e3o de jornalista depois do 25 de Abril de 1974. (fonte: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mia_Couto)\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mia_Couto)<\/a><\/p>\n<p>Ent\u00e3o Mia Couto falou para aquela plateia sobre o medo. Ou\u00e7am as suas palavras no link.<\/p>\n<p><iframe title=\"Mia Couto -- &quot;H\u00e1 quem tenha medo que o medo acabe&quot;\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wSnsmM_3xrY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o conseguiu ouvir aqui, est\u00e1 o texto completo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Murar o Medo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confian\u00e7a em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e dem\u00f4nios. Os anjos, quando chegaram, j\u00e1 era para me guardarem.\u00a0Os anjos atuavam como uma esp\u00e9cie de agentes de seguran\u00e7a privada das almas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferen\u00e7a entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da viol\u00eancia contra as crian\u00e7as sempre foi praticada, n\u00e3o por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha inf\u00e2ncia reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar\u00a0que eu estaria mais protegido apenas por n\u00e3o me aventurar para al\u00e9m da fronteira da minha l\u00edngua, da minha cultura e do meu territ\u00f3rio. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invis\u00edvel m\u00e3o roubava-me a coragem de viver e a aud\u00e1cia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que\u00a0h\u00e1, neste mundo, mais medo de coisas m\u00e1s do que coisas m\u00e1s propriamente ditas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">No Mo\u00e7ambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invej\u00e1vel\u00a0<em>casting<\/em>\u00a0internacional. Os chineses que comiam crian\u00e7as, os chamados terroristas que lutavam pela independ\u00eancia e um ateu barbudo com um nome alem\u00e3o. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Os chineses abriram restaurantes \u00e0 nossa porta, os ditos terroristas s\u00e3o hoje governantes respeit\u00e1veis e Carl Marx, o ateu barbudo, \u00e9 um simp\u00e1tico av\u00f4 que n\u00e3o deixou descend\u00eancia. O pre\u00e7o dessa constru\u00e7\u00e3o de terror foi, no entanto, tr\u00e1gico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indiz\u00edveis barbaridades.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Em nome da seguran\u00e7a mundial, foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguin\u00e1rios de toda a hist\u00f3ria. A mais grave dessa longa heran\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o externa \u00e9 a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus pr\u00f3prios fracassos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">A Guerra Fria esfriou,\u00a0mas o manique\u00edsmo que a sustinha n\u00e3o desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo: a Oriente e a Ocidente e, por que se trata de entidades demon\u00edacas, n\u00e3o bastam os seculares meios de governa\u00e7\u00e3o. Precisamos de interven\u00e7\u00e3o com legitimidade divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">O que era ideologia passou a ser cren\u00e7a. O que era pol\u00edtica, tornou-se religi\u00e3o. O que era religi\u00e3o, passou a ser estrat\u00e9gia de poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Para fabricar armas, \u00e9 preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, \u00e9 imperioso sustentar fantasmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">A manuten\u00e7\u00e3o desse alvoro\u00e7o requer um dispendioso aparato e um batalh\u00e3o de especialistas que, em segredo, tomam decis\u00f5es em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as amea\u00e7as dom\u00e9sticas, precisamos de mais pol\u00edcia, mais pris\u00f5es, mais seguran\u00e7a privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as amea\u00e7as globais, precisamos de mais ex\u00e9rcitos, mais servi\u00e7os secretos e a suspens\u00e3o tempor\u00e1ria da nossa cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia come\u00e7ar, por exemplo,\u00a0pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de \u201celes\u201d. Aos advers\u00e1rios pol\u00edticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou \u00e9 o seguinte: a realidade \u00e9 perigosa, a natureza \u00e9 trai\u00e7oeira e a humanidade, imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Vivemos como cidad\u00e3os, e como esp\u00e9cie, em permanente situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. Como em qualquer outro estado de s\u00edtio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restri\u00e7\u00f5es servem para que n\u00e3o sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira n\u00e3o atingiu a ind\u00fastria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilh\u00e3o e meio de d\u00f3lares em armamento militar? Por que raz\u00e3o os que hoje tentam proteger os civis na L\u00edbia s\u00e3o exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais semin\u00e1rios sobre seguran\u00e7a do que sobre justi\u00e7a?\u00a0Se queremos resolver e n\u00e3o apenas discutir a seguran\u00e7a mundial, teremos que enfrentar amea\u00e7as bem reais e urgentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">H\u00e1 uma arma de destrui\u00e7\u00e3o massiva que est\u00e1 sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Essa arma chama-se fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Em pleno s\u00e9culo XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fra\u00e7\u00e3o muito pequena do que se gasta em armamento. A fome ser\u00e1, sem d\u00favida, a maior causa de inseguran\u00e7a do nosso tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Mencionarei ainda uma outra silenciada viol\u00eancia:\u00a0em todo o mundo, uma em cada tr\u00eas mulheres foi &#8212; ou ser\u00e1 &#8212; v\u00edtima de viol\u00eancia f\u00edsica ou sexual durante o seu tempo de vida.\u00a0\u00c9 verdade que, sobre uma grande parte do nosso planeta, pesa uma condena\u00e7\u00e3o antecipada pelo fato simples de serem mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">A nossa indigna\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um ex\u00e9rcito sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir raz\u00f5es. As quest\u00f5es de \u00e9tica s\u00e3o esquecidas, porque est\u00e1 provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, n\u00e3o temos que fazer prova de coer\u00eancia, nem de \u00e9tica nem de legalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">\u00c9 sintom\u00e1tico que a \u00fanica constru\u00e7\u00e3o humana que pode ser vista do espa\u00e7o seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invas\u00f5es. A Muralha n\u00e3o evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que v\u00edtimas das invas\u00f5es que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Esses corpos convertidos em muro e pedra s\u00e3o uma met\u00e1fora do quanto o medo nos pode aprisionar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">H\u00e1 muros que separam na\u00e7\u00f5es, h\u00e1 muros que dividem pobres e ricos,\u00a0mas n\u00e3o h\u00e1 hoje, no mundo um muro, que separe os que t\u00eam medo dos que n\u00e3o t\u00eam medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos n\u00f3s, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galeano acerca disto, que \u00e9 o medo global, e dizer:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">&#8220;Os que trabalham t\u00eam medo de perder o trabalho; os que n\u00e3o trabalham t\u00eam medo de nunca encontrar trabalho; quando n\u00e3o t\u00eam medo da fome t\u00eam medo da comida; os civis t\u00eam medo dos militares; os militares t\u00eam medo da falta de armas e as armas t\u00eam medo da falta de guerras.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">E, se calhar, acrescento agora eu:\u00a0h\u00e1 quem tenha medo que o medo acabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Muito obrigado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s a leitura gostaria de pensar o momento em que estamos vivendo. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea o est\u00e1 vivendo? <\/strong><\/p>\n<p><strong>O que mais preocupa voc\u00ea, ou melhor, do que voc\u00ea tem medo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nos envie seus escritos para que possamos, ainda que de longe, iniciar um di\u00e1logo. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Email: <a href=\"mailto:nepei.ce@gmail.com\">nepei.ce@gmail.com<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Muito obrigada!<\/p>\n<p>Sueli Salva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sueli Salva- UFSM Caros\/as estudantes e colegas, estamos vivendo momentos diferentes de tudo que j\u00e1 conhecemos, de um dia para o outro nos disseram para ficar em casa. 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