{"id":3506,"date":"2020-05-11T14:45:11","date_gmt":"2020-05-11T17:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ce\/?p=3506"},"modified":"2020-05-11T14:45:36","modified_gmt":"2020-05-11T17:45:36","slug":"invisiveis-em-tres-atos-educar-e-cuidar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ce\/2020\/05\/11\/invisiveis-em-tres-atos-educar-e-cuidar","title":{"rendered":"Invis\u00edveis em tr\u00eas atos &#8211; Educar e Cuidar"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: right\"><em>A seguinte contribui\u00e7\u00e3o faz parte da iniciativa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ce\/educar-aprender\/\">Educar e Cuidar [clique e saiba mais]<\/a><\/em><br \/><em>e \u00e9 de inteira responsabilidade do autor do texto. Contribua voc\u00ea tamb\u00e9m<\/em>!<\/p>\n<p><b>Valdo Barcelos \u2013 Professor e escritor &#8211; UFSM<\/b><\/p>\n<p><b>Primeiro Ato: Marias.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> A seguinte hist\u00f3ria foi contada pelo teatr\u00f3logo Augusto Boal (1931-2009). Teatro Gl\u00f3ria, Belo Horizonte, 1999. O evento reuniu v\u00e1rios grupos populares de teatro. Um deles denominava-se<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Marias do Brasil. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Era formado por 13 mulheres de nome Maria, todas negras e todas empregadas dom\u00e9sticas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Como \u00e9 de costume, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o todas voltaram ao palco e foram efusivamente aplaudidas. Apenas uma Maria n\u00e3o retornou. Boal perguntou ao diretor da pe\u00e7a o que havia ocorrido. Ouviu que uma das Marias tinha ficado chorando no camarim. Boal foi at\u00e9 l\u00e1 ver o que tinha acontecido. Perguntou para a Maria o que havia ocorrido e ela disse, solu\u00e7ando, coisas sem nexo. Tipo: uma boa empregada dom\u00e9stica tem que ser invis\u00edvel&#8230;Quanto menos vista melhor&#8230; lava, passa, cozinha, arruma a cama, recolhe as meias, os sapatos, as cuecas do patr\u00e3o, as calcinhas da patroa, tira o p\u00f3, varre a casa&#8230;O importante \u00e9 que isto seja feito sem que ningu\u00e9m veja. Hoje quando eu estava no palco o rapaz da ilumina\u00e7\u00e3o fazia com que a luz incidisse em mim, para eu ser vista. O rapaz do som ajeitava o microfone para eu ser ouvida. Boal ficou pensando que estes seriam motivos para alegria&#8230;Maria continuou: agora quando eu estava no palco \u00e0 fam\u00edlia para quem eu trabalho, h\u00e1 18 anos, estava na plateia me vendo e ouvindo<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">atentamente. Pela primeira vez, em 18 anos, fui notada e escutada por eles. Agora sabem que eu existo. Boal insistiu que isso era motivo para alegria e n\u00e3o para tristeza. Maria segue&#8230;No palco eu n\u00e3o chorei. Chorei depois no camarim quando me sentei e olhei no espelho! Sabe o que eu vi? O que foi que voc\u00ea viu perguntou Boal? Vi uma Mulher&#8230;Mas Maria, todos os dias quando fa\u00e7o a barba e olho no espelho eu vejo um homem. Natural voc\u00ea ver no espelho uma mulher. Natural n\u00e3o! Essa foi a primeira vez que eu vi uma mulher no espelho. E antes o que voc\u00ea via quando olhava no espelho? Antes de fazer teatro, no espelho eu via uma empregada dom\u00e9stica. Maria viu que era Maria e n\u00e3o somente o uniforme que escondia seu corpo. Maria levantou a cabe\u00e7a! Voltou ao palco para receber os merecidos aplausos.<\/span><\/p>\n<p><b>Segundo Ato: prisioneiros.<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Um meio dia qualquer. Uma fam\u00edlia qualquer de classe m\u00e9dia se re\u00fane para almo\u00e7ar. Todos \u00e0 mesa, televis\u00e3o ligada. Dona Z\u00e9fa, empregada dom\u00e9stica, fica em p\u00e9 ao fundo para atender algum pedido dos comensais. O Jornal do meio dia noticia uma rebeli\u00e3o na pris\u00e3o local. Detentos colocam fogo em colch\u00f5es. Os bombeiros s\u00e3o chamados para apagar o inc\u00eandio. A dona da casa, patroa da dona Z\u00e9fa, indignada fala: \u201cQue absurdo esses bandidos, comem, dormem, roubam, matam, e ainda botam fogo nas camas&#8230;a\u00ed tem que chamar os bombeiros&#8230;se fosse eu deixava que o fogo tomasse conta e morressem todos l\u00e1 dentro&#8230;\u201d Dona Z\u00e9fa sai da sala em sil\u00eancio, vai at\u00e9 a cozinha, tira o avental e coloca atr\u00e1s da porta. Vai embora chorando bem baixinho. Dona Z\u00e9fa tem um filho de 23 anos que est\u00e1 cumprindo pena no pres\u00eddio local&#8230;<\/span><\/p>\n<p><b>Terceiro Ato: Coronav\u00edrus<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Depois de muita discuss\u00e3o o governo brasileiro decidiu conceder um \u201cAux\u00edlio Emergencial\u201d para quem n\u00e3o tem nenhum tipo de renda e que n\u00e3o pertence a nenhum programa assistencial &#8211; est\u00e3o invis\u00edveis. Os burocratas reunidos fazem seus c\u00e1lculos. Concluem que v\u00e3o beneficiar cerca de 30 milh\u00f5es de pessoas. Come\u00e7am o cadastramento e constatam que cerca de 90 milh\u00f5es de pessoas ser\u00e3o alcan\u00e7adas pelo benef\u00edcio (dados do Dataprev), ou seja, o n\u00famero de invis\u00edveis mais que dobrou. Como assim? Quase metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 invis\u00edvel? Tenho uma sugest\u00e3o para quem quiser \u201cver\u201d esses \u201cinvis\u00edveis\u201d: circulem mais fora dos seus condom\u00ednios fechados; dos clubes privados que frequentam; dos corredores das universidades; dos shopping centers; andem pelas ruas, sentem numa pra\u00e7a; peguem um transporte coletivo; podem at\u00e9 tomar coragem e pegar o carro e dar uma volta pela periferia da cidade, podem ir com os vidros fechados e com o ar condicionado ligado \u2013 v\u00e3o se sentir seguros&#8230;at\u00e9 a pr\u00f3xima pandemia.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A seguinte contribui\u00e7\u00e3o faz parte da iniciativa\u00a0Educar e Cuidar [clique e saiba mais]e \u00e9 de inteira responsabilidade do autor do texto. Contribua voc\u00ea tamb\u00e9m! Valdo Barcelos \u2013 Professor e escritor &#8211; UFSM Primeiro Ato: Marias. A seguinte hist\u00f3ria foi contada pelo teatr\u00f3logo Augusto Boal (1931-2009). Teatro Gl\u00f3ria, Belo Horizonte, 1999. 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