{"id":3774,"date":"2020-07-07T19:35:19","date_gmt":"2020-07-07T22:35:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ce\/?p=3774"},"modified":"2020-07-07T19:38:01","modified_gmt":"2020-07-07T22:38:01","slug":"racismo-a-brasileira-educar-e-cuidar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ce\/2020\/07\/07\/racismo-a-brasileira-educar-e-cuidar","title":{"rendered":"Racismo \u00e0 brasileira &#8211; Educar e Cuidar"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: right\"><em>A seguinte contribui\u00e7\u00e3o faz parte da iniciativa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/ce\/educar-cuidar\/\">Educar e Cuidar [clique e saiba mais]<\/a><\/em><br \/><em>e \u00e9 de inteira responsabilidade do autor do texto. Contribua voc\u00ea tamb\u00e9m<\/em>!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Valdo Barcelos \u2013 Prof. e escritor-UFSM<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em fun\u00e7\u00e3o dos movimentos antirracistas que se espalharam desde os EUA para o mundo, uma pergunta tem sido feita a intelectuais e pesquisadores das quest\u00f5es raciais no Brasil: <strong>porque o movimento negro aqui n\u00e3o tem a for\u00e7a e a visibilidade do movimento negro nos EUA?<\/strong> Os representantes de nossa elite intelectual, via de regra branca, ficam constrangidos. N\u00e3o \u00e9 para menos. \u00c9 essa elite que ocupa os postos de comando nos tribunais, parlamentos, universidades, igrejas, For\u00e7as Armadas. Uma das respostas mais frequentes \u00e9 que o Brasil se constituiu de forma menos violenta que os EUA quanto ao racismo. Essa resposta mostra o enorme sedentarismo intelectual de grande parcela da intelectualidade. Uma pregui\u00e7a em refletir sobre o pa\u00eds real e um hist\u00f3rico servilismo das elites em rela\u00e7\u00e3o aos demais intelectuais dos ditos pa\u00edses \u201cdesenvolvidos\u201d. <\/span><span style=\"font-weight: 400\">O antrop\u00f3logo Da Matta, afirma que a elite brasileira \u00e9 uma das mais insens\u00edveis do planeta.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Para Darcy Ribeiro, h\u00e1 que nos libertarmos das pr\u00e1ticas acad\u00eamicas de copiar e imitar os intelectuais de al\u00e9m-mar, para n\u00e3o nos transformarmos em \u201cacad\u00eamicos perfeitos\u201d, do tipo que s\u00f3 se preocupa em colocar \u201cpor\u00e9ns\u201d nos textos que outros escrevem. De prefer\u00eancia textos de estrangeiros. O que anseia este tipo de intelectual \u00e9 fazer doutorado fora e quando voltar recitar o que l\u00e1 ouviu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em rela\u00e7\u00e3o a como se produziu esse \u201cesquecimento\u201d da hist\u00f3ria do movimento negro no Brasil, vou me deter a apenas um caso: A Revolta da Chibata, que eclodiu no dia 22 de novembro de 1910 no Rio de Janeiro, e foi comandada pelo marinheiro timoneiro negro Jo\u00e3o C\u00e2ndido Felisberto, o Almirante Negro. Vamos a um fragmento de um dos interrogat\u00f3rios a que Jo\u00e3o C\u00e2ndido foi submetido: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201c&#8230;o que foi? Engoliu a l\u00edngua negro F*&#8230;?\u00a0 &#8211; \u00c9 o seu rev\u00f3lver regulamentar, senhor&#8230; &#8211; seu preto assassino, sabe o que vou fazer com este meu rev\u00f3lver regulamentar? Vamos, seu C*&#8230;, marinheiro do C*&#8230;! Aqui \u00e9 um quartel do ex\u00e9rcito, t\u00e1 entendendo? Aqui n\u00e3o \u00e9 nenhum navio de merda, t\u00e1 me entendendo: Aqui a negrada n\u00e3o manda! E n\u00e3o olhe nos olhos seu corvo imundo&#8230; tirem esse negro F*&#8230;da minha frente! Antes que eu cometa uma insensatez\u201d.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Retirado do livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Jo\u00e3o C\u00e2ndido \u2013 o Almirante Negro,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de Alcy Cheuiche (L&amp;PM, 2010). A Revolta da chibata foi um movimento de marinheiros negros filhos de escravos que decidiram n\u00e3o mais aceitar o supl\u00edcio a que eram submetidos pelos oficiais brancos da Marinha: a Chibata. Conhecida como o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">gato de nove caudas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. O castigo s\u00f3 terminava quando o comandante do navio decidia. Tudo assistido pela armada. Foi ap\u00f3s o marinheiro baiano Marcelino Rodrigues Menezes ter recebido 250 chibatadas de uma s\u00f3 vez, que Jo\u00e3o C\u00e2ndido decidiu que isso nunca mais ia acontecer na marinha do Brasil. Nesse dia come\u00e7ou a planejar a Revolta. Os revoltosos acabaram presos, alguns imediatamente fuzilados, outros morreram nas masmorras de inani\u00e7\u00e3o, tortura e asfixia pelo calor. Nem julgados foram. Os sobreviventes foram deportados para a Amaz\u00f4nia para cumprir trabalhos for\u00e7ados na implanta\u00e7\u00e3o das linhas telegr\u00e1ficas e na Ferrovia Madeira\/Mamor\u00e9. Durante a viagem de navio, v\u00e1rios morreram de doen\u00e7as, outros foram fuzilados e seus corpos jogados ao mar. Pode dizer-se tudo, menos que a condi\u00e7\u00e3o dos negros(as) aqui foi \u201cmenos violenta\u201d que em outros pa\u00edses. Que vivemos numa \u201cdemocracia racial\u201d e outras incompet\u00eancias intelectuais. Um alerta: documentos n\u00e3o dizem nada. Documentos apenas respondem \u00e0s perguntas que lhes fizermos. H\u00e1 que mudarmos as perguntas que se fazem sobre o passado hist\u00f3rico do Brasil. O pa\u00eds que, sozinho, recebeu o maior n\u00famero dos 12 milh\u00f5es de escravizados africanos: cerca de 5 milh\u00f5es. Brasil, o \u00faltimo pa\u00eds do mundo ocidental a proibir, oficialmente, a escravid\u00e3o de seres humanos. <strong>Para finalizar: algu\u00e9m tem d\u00favida sobre quem morrer\u00e1 mais pela COVID-19 no Brasil? Brancos ou negros?<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A seguinte contribui\u00e7\u00e3o faz parte da iniciativa\u00a0Educar e Cuidar [clique e saiba mais]e \u00e9 de inteira responsabilidade do autor do texto. 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