{"id":5244,"date":"2021-03-23T08:51:58","date_gmt":"2021-03-23T11:51:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/?p=5244"},"modified":"2021-03-23T08:53:11","modified_gmt":"2021-03-23T11:53:11","slug":"doutoranda-franciele-oliveira-investiga-familias-negras-no-pos-abolicao-em-santa-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/2021\/03\/23\/doutoranda-franciele-oliveira-investiga-familias-negras-no-pos-abolicao-em-santa-maria","title":{"rendered":"Doutoranda Franciele Oliveira investiga fam\u00edlias negras no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o em Santa Maria"},"content":{"rendered":"\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"225\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/Foto1-Eu-no-Arquivo-Publico-do-Estado-do-Rio-Grande-do-Sul-APERS-28-de-janeiro-de-2020.-Foto-Vanessa-Flores-dos-Santos.-225x300-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5245\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O Dia Internacional da Mulher \u00e9 um dia de luta pelos direitos das mulheres e pela visibiliza\u00e7\u00e3o do seu papel na sociedade. A UFSM, atualmente, conta com 1055 alunas no doutorado, o equivalente a 61%. Nesta semana, trazemos tr\u00eas doutorandas da UFSM que contam um pouco da sua trajet\u00f3ria na ci\u00eancia e da pesquisa que desenvolvem na Universidade.<\/p>\n<p>Hoje, entrevistamos a pesquisadora Franciele Oliveira, graduada em Hist\u00f3ria (Bacharelado e Licenciatura Plena) pela UFSM. Mestre e doutoranda do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/cursos\/pos-graduacao\/santa-maria\/ppgh\/\">Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria (PPGH)<\/a>\u00a0na mesma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Faz parte de algum grupo de pesquisa ou recebe bolsa? Se sim, qual(quais)?<\/b><\/p>\n<p>Eu fa\u00e7o parte do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/pro-reitorias\/pre\/observatorio-de-direitos-humanos\/grupo-de-estudos-sobre-o-pos-abolicao-gepa\/\">Grupo de Estudos Sobre P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o \u2013 GEPA<\/a>, da Universidade Federal de Santa Maria, grupo que fundamos em 2016. Sou Bolsista Capes \u2013 DS. Perten\u00e7o ao\u00a0<a href=\"https:\/\/anpuh.org.br\/index.php\/grupos-de-trabalho\/atividades\/item\/300-gt-emancipacoes-e-pos-abolicao\">GT Emancipa\u00e7\u00f5es e P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria<\/a>\u00a0(GTEP ANPUH\/RS), atualmente como vice-coordenadora do GTEP ANPUH\/RS, representando o GEPA. Na gradua\u00e7\u00e3o, fui bolsista do Programa de Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Doc\u00eancia \u2013 PIBID, atuando na Escola Estadual Professora Edna May Cardoso. No mestrado fui Bolsista Capes \u2013 DS.<\/p>\n<p><b>O que lhe despertou a vontade de ser pesquisadora?<\/b><\/p>\n<p>O que me despertou a vontade de ser pesquisadora foi um misto das ra\u00edzes familiares, a educa\u00e7\u00e3o recebida, sobretudo no ensino p\u00fablico, com professoras que me foram refer\u00eancias e a forma\u00e7\u00e3o junto a organiza\u00e7\u00f5es negras da cidade e seus militantes.\u00a0<\/p>\n<p>Sempre gostei muito de estudar, de ler, de estar em sala de aula e de comunicar toda informa\u00e7\u00e3o que aprendo. Acho que o estudo sempre foi uma forma de liberta\u00e7\u00e3o em nossas vidas, de afundarmos em outros universos, que nos levariam a aprender algo, para que pud\u00e9ssemos ter uma vida melhor enquanto mulheres. Falo n\u00f3s, porque penso nas mulheres da minha fam\u00edlia, minha m\u00e3e e minhas irm\u00e3s, todas estudaram, diferentemente da gera\u00e7\u00e3o de minhas av\u00f3s. Minha av\u00f3 paterna, Josefa Oliveira, uma mulher nordestina, nascida em 1931, m\u00e3e biol\u00f3gica de 14 filhos e m\u00e3e de cria\u00e7\u00e3o, madrasta, de outros seis, nunca p\u00f4de estudar. Foi aprender a escrever o nome j\u00e1 adulta, nos anos 1960. Minha av\u00f3 materna, Marluza de Jesus Rodrigues, teve de parar os estudos depois que casou. Fez, portanto, o ensino ginasial incompleto.\u00a0<\/p>\n<p>Acho que ter mulheres na fam\u00edlia que n\u00e3o puderam estudar e tamb\u00e9m as que conseguiram acessar o ensino, como minha m\u00e3e, foi fundamental para eu me tornar uma pesquisadora. Minha m\u00e3e \u00e9 professora municipal aposentada, ensinou Portugu\u00eas e Literatura por 27 anos. Eu e minhas irm\u00e3s fomos criadas por uma m\u00e3e professora, que \u00e9 nossa refer\u00eancia. Minha m\u00e3e sempre gostou muito de estudar tamb\u00e9m, desde pequena teve problemas de sa\u00fade, que ela driblava com leituras de livros arranjados por meu av\u00f4. Sempre tivemos isso, de ter livros em casa, uma m\u00e3e professora, que gostava muito de ler e incentivava isso em n\u00f3s. Uma refer\u00eancia, que sempre fez com que v\u00edssemos a profiss\u00e3o de professora como algo importante.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m poderia dizer que muitas outras professoras me instigaram \u00e0 pesquisa. Na escola, eu realmente amava as aulas de Hist\u00f3ria, foi assim que fui entendendo o que eu queria fazer. Eram os livros did\u00e1ticos que eu mais gostava, lia os livros de Hist\u00f3ria independentemente de ter atividades. Lembro-me de admirar muito outras mulheres professoras de Hist\u00f3ria, que ensinavam muito bem, explicavam quest\u00f5es da Hist\u00f3ria Pol\u00edtica e do Brasil. Suas aulas eram instigantes! Posso citar seus nomes, pois realmente n\u00e3o esqueci: Cleunice Fialho, Tiana Cabral e Adriana Oliveira.<\/p>\n<p>A pesquisa que desenvolvo hoje tem a ver, tamb\u00e9m, com o trabalho iniciado h\u00e1 10 anos. Muito do que aprendi e me tornou a pesquisadora que sou deve-se tamb\u00e9m ao meu contato com o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.santamaria.rs.gov.br\/cultura_esporte\/456-museu-comunitario-treze-de-maio\">Museu Treze de Maio<\/a>, onde atuei por quatro anos, como estagi\u00e1ria e volunt\u00e1ria. L\u00e1 conheci pessoas fundamentais, que marcaram minha vida e minha forma\u00e7\u00e3o, como Nei D\u2019Ogum, que era o Diretor do N\u00facleo de A\u00e7\u00f5es Culturais e Educativas do Museu e a Profa. Dra. Marta Nunes, que era a Diretora T\u00e9cnica do Museu, grandes mestres.<\/p>\n<p><b>Poderia contar sobre sua pesquisa?\u00a0<\/b><\/p>\n<p>No doutorado, atuo com hist\u00f3rias de fam\u00edlias negras em Santa Maria no p\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o. Dedico-me a compreender as rela\u00e7\u00f5es familiares e as rela\u00e7\u00f5es que culminaram em casamentos legitimados via religiosa e civil, entre homens e mulheres negros e negras, nascidos de Ventre Livre, ou seja, crian\u00e7as que nasceram filhas de mulheres escravizadas na cidade. Suas m\u00e3es compuseram a \u00faltima gera\u00e7\u00e3o de mulheres cativas em Santa Maria. Essas crian\u00e7as, nascidas a partir da Lei de 28 de setembro de 1871, passaram a ser consideradas livres e ing\u00eanuas, diferentes da condi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de suas m\u00e3es, que ainda seguiam escravizadas.\u00a0<\/p>\n<p><b><i>Eu estudo, ent\u00e3o, as trajet\u00f3rias dessas crian\u00e7as, que tiveram uma vida marcada pela corda bamba entre a escravid\u00e3o e a liberdade, envoltas pelos dispositivos daquela Lei (como as tutelas, que levaram \u00e0 separa\u00e7\u00e3o de suas m\u00e3es) e procuro entender os sentidos da liberdade para essas pessoas.\u00a0<\/i><\/b>Eu acompanho suas vidas adultas, em seus casamentos no per\u00edodo republicano e procuro entender como se d\u00e3o essas configura\u00e7\u00f5es familiares, o que essas pessoas almejavam enquanto fam\u00edlia, como se articulavam e quais as suas estrat\u00e9gias familiares neste contexto, que \u00e9 marcado pela Aboli\u00e7\u00e3o, pela Rep\u00fablica e por lutas por cidadania e direitos diante das hierarquias raciais reformuladas.<\/p>\n<p><b>Por que \u00e9 relevante realizar este estudo?<\/b><\/p>\n<p>Acredito que \u00e9 um estudo fundamental, pois ele revela uma outra cidade, para al\u00e9m das elites locais, brancas e suas fam\u00edlias, que angariaram espa\u00e7os de poder, atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ascens\u00e3o social e econ\u00f4mica, muito representadas em obras de memorialistas e monumentos da cidade.\u00a0<b><i>Eu e outros historiadores estamos apresentando uma Santa Maria multi\u00e9tnica, para al\u00e9m de homens e mulheres brancos, europeus, descendentes e de ascend\u00eancia luso-brasileira e \u00edtalo-germ\u00e2nica.<\/i><\/b>\u00a0H\u00e1 uma expressiva popula\u00e7\u00e3o negra e, de modo geral, n\u00e3o branca (pretos, pardos e caboclos, nos termos dos censos da \u00e9poca), que, no s\u00e9culo 19, chegaram a representar 48% da popula\u00e7\u00e3o total da cidade. Homens e mulheres ind\u00edgenas, negros livres e escravizados, que n\u00e3o podemos mais ignorar da hist\u00f3ria de Santa Maria. Nossos estudos t\u00eam demonstrado a presen\u00e7a expressiva dessas pessoas, bem como suas formas de atua\u00e7\u00e3o, culturas e trabalhos, seus protagonismos em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, fossem a\u00e7\u00f5es individuais, coletivas ou familiares, associativas, etc. Al\u00e9m disso, temos conseguido demonstrar como a cidade foi palco importante das experi\u00eancias negras no p\u00f3s-emancipa\u00e7\u00e3o e no p\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o, sendo p\u00f3lo de atra\u00e7\u00e3o para muitos ex-escravizados do estado, que procuraram melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, possibilitadas por uma cidade em expans\u00e3o, devido \u00e0 ferrovia.\u00a0<\/p>\n<p><b><i>Desvelamos importantes nomes e sobrenomes, fam\u00edlias inteiras e suas genealogias, de pessoas vinculadas a feitos important\u00edssimos da hist\u00f3ria da cidade no p\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o, a exemplo do associativismo negro local, que englobou 30 associa\u00e7\u00f5es negras na cidade (mapeadas pelo GEPA, em livro lan\u00e7ado em 2020), tais como clubes sociais, irmandade religiosa, imprensa negra, clubes de futebol, clubes pol\u00edticos, recreativos e carnavalescos, espa\u00e7os que engendraram pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es, que pautavam igualdade e direitos.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 apresenta resultados?<\/b><\/p>\n<p>Em meus estudos, pude entrevistar netos e netas de pessoas escravizadas e retornar a essas pessoas informa\u00e7\u00f5es acerca de seus ancestrais, suas genealogias e documentos relacionados a suas fam\u00edlias, delineando a atua\u00e7\u00e3o de seus antepassados, como \u00e9 o caso dos irm\u00e3os Rossy, Romeu e Romilda do Nascimento, netos de Jos\u00e9 Francisco do Nascimento e Innoc\u00eancia Maria Joaquina, fam\u00edlia cuja trajet\u00f3ria foi tema de meu estudo no Mestrado. Em pesquisa paralela, junto \u00e0 Comunidade Quilombola Rinc\u00e3o dos Fernandes, de Uruguaiana\/RS, por exemplo, foi poss\u00edvel localizar as cartas de alforria dos ancestrais da comunidade, onde atuei como historiadora na escrita do Relat\u00f3rio T\u00e9cnico de Identifica\u00e7\u00e3o e Delimita\u00e7\u00e3o (RTID) via Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (INCRA\/RS).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/Da-direita-para-a-esquerda-Eu-Rossy-Nascimento-Romeu-Nascimento-e-Romilda-Nascimento-ja-falecida-netos-de-Jose-e-Innocencia-que-tiveram-as-trajetorias-estudadas-por-m.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5246\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/Da-direita-para-a-esquerda-Eu-Rossy-Nascimento-Romeu-Nascimento-e-Romilda-Nascimento-ja-falecida-netos-de-Jose-e-Innocencia-que-tiveram-as-trajetorias-estudadas-por-m.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/Da-direita-para-a-esquerda-Eu-Rossy-Nascimento-Romeu-Nascimento-e-Romilda-Nascimento-ja-falecida-netos-de-Jose-e-Innocencia-que-tiveram-as-trajetorias-estudadas-por-m-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/Da-direita-para-a-esquerda-Eu-Rossy-Nascimento-Romeu-Nascimento-e-Romilda-Nascimento-ja-falecida-netos-de-Jose-e-Innocencia-que-tiveram-as-trajetorias-estudadas-por-m-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/Da-direita-para-a-esquerda-Eu-Rossy-Nascimento-Romeu-Nascimento-e-Romilda-Nascimento-ja-falecida-netos-de-Jose-e-Innocencia-que-tiveram-as-trajetorias-estudadas-por-m-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o momento, analisei o livro de batismos religiosos dos nascidos de Ventre Livre em Santa Maria. Tratava-se do registro de 532 crian\u00e7as nascidas entre 1871 e 1887, filhas de mulheres escravizadas na cidade. Atrav\u00e9s desse livro, foi poss\u00edvel localizar essas crian\u00e7as, seus nomes, suas m\u00e3es, os senhores e senhoras que as escravizavam, os locais onde nasceram e foram batizadas, suas datas de nascimento e batismo, seus padrinhos e madrinhas, os padres que as batizaram, etc. Atrav\u00e9s desses dados, podemos construir s\u00e9ries e categorias anal\u00edticas, que nos permitem observar um perfil dessas crian\u00e7as e alguns padr\u00f5es, bem como comportamentos destoantes, permitindo levantar uma s\u00e9rie de quest\u00f5es, observadas depois em redu\u00e7\u00e3o da escala de an\u00e1lise, atrav\u00e9s de m\u00e9todos que tomam os seus nomes como fios condutores. Cruzamos, assim, in\u00fameros outros documentos para acompanhar suas trajet\u00f3rias, tais como os registros de casamento, registros de \u00f3bitos, processos de tutela, etc.\u00a0<\/p>\n<p><b>H\u00e1 mais mulheres na sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o? A presen\u00e7a de mulheres na sua \u00e1rea<\/b>\u00a0<b>de pesquisa \u00e9 expressiva?\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Acredito que no campo da Hist\u00f3ria, a presen\u00e7a de pesquisadoras mulheres seja equivalente ou em n\u00fameros aproximados da presen\u00e7a masculina, o que, por outro lado, n\u00e3o significa que n\u00e3o enfrentemos barreiras sociais, em raz\u00e3o de nosso g\u00eanero, situa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio, importuna\u00e7\u00e3o, descr\u00e9dito, preterimento, silenciamento, apagamento e outras tantas viol\u00eancias, que lidamos desde o nosso nascimento. A bibliografia amplamente lida nos cursos e programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria ainda apresenta um perfil muito restrito de autores, sobretudo de homens brancos, de tradi\u00e7\u00e3o ocidental e euroc\u00eantrica, o que vem sendo tensionado dentro e fora da academia, permitindo redescobrir outros autores e autoras, epistemologias, cosmovis\u00f5es, fontes e m\u00e9todos.\u00a0<\/p>\n<p><b><i>O campo de estudos em que atuo, do p\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o no Brasil, tem forte presen\u00e7a de historiadoras e historiadores negros, por exemplo, alterando e confrontando o perfil hegem\u00f4nico da produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica, fruto, tamb\u00e9m, de longas lutas dos movimentos negros, que tornaram poss\u00edvel a implementa\u00e7\u00e3o e a amplia\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de acesso e perman\u00eancia ao ensino superior, que s\u00e3o essenciais para atingirmos mais igualdade nos espa\u00e7os universit\u00e1rios.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>Voc\u00ea teve professoras ou outras pesquisadoras\/extensionistas que te apoiaram e te inspiraram nessa trajet\u00f3ria? Poderia falar mais sobre ela(s) e como elas te incentivaram?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Tenho a felicidade de ter encontrado mulheres maravilhosas em minha trajet\u00f3ria que me apoiaram e me inspiraram. Conheci no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.santamaria.rs.gov.br\/cultura_esporte\/456-museu-comunitario-treze-de-maio\">Museu Treze de Maio<\/a>, pessoas importantes, que me conduziram, tamb\u00e9m, ao mundo da pesquisa. Entre elas, Marta Nunes, que era Diretora T\u00e9cnica do Museu, que tenho como grande amiga e importante refer\u00eancia. Marta Nunes \u00e9 doutora em Qu\u00edmica pela USP, p\u00f3s-doutora em Qu\u00edmica pela UFRGS e pela Universidade da Calif\u00f3rnia em Davis\/CA\/EUA e \u00e9 Professora Adjunta da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). Ela \u00e9 uma mulher inspiradora, que tem a trajet\u00f3ria de vida ligada a um importante clube social negro da cidade de Santa Cruz do Sul e articula in\u00fameros projetos culturais, de ensino, pesquisa e extens\u00e3o dentro e fora das universidades. Marta sempre apoiou minha forma\u00e7\u00e3o, esteve em minha banca de Gradua\u00e7\u00e3o, escreveu o pref\u00e1cio de meu primeiro livro (2016) e me apoiou quando precisei sair de casa. Trabalhamos juntas h\u00e1 cerca de oito anos, em diversos projetos e movimentos sociais. Em 2018, Marta foi uma das pessoas que tornou poss\u00edvel levar cinco pesquisadoras, entre elas eu, para apresentarem trabalhos no II Semin\u00e1rio Internacional Hist\u00f3rias do P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o no Mundo Atl\u00e2ntico, que aconteceu no Rio de Janeiro. Nos \u00faltimos anos, ela \u00e9 a respons\u00e1vel por promover projetos e pesquisas sobre mulheres nas ci\u00eancias naturais e exatas, engenharia e computa\u00e7\u00e3o. \u00c9 coordenadora do projeto \u201cMeninas nas Ci\u00eancias \u2013 UERGS\u201d, que possibilita inspira\u00e7\u00e3o e acesso \u00e0 pesquisa a outras tantas meninas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/eu-e-marta-no-lancamento-do-livro-Moreno-Rei-1024x683-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5247\" srcset=\"https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/eu-e-marta-no-lancamento-do-livro-Moreno-Rei-1024x683-1.jpg 1024w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/eu-e-marta-no-lancamento-do-livro-Moreno-Rei-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/eu-e-marta-no-lancamento-do-livro-Moreno-Rei-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/378\/2021\/03\/eu-e-marta-no-lancamento-do-livro-Moreno-Rei-1024x683-1-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m destaco a import\u00e2ncia da professora Beatriz Loner em minha trajet\u00f3ria. Uma importante historiadora que me deu aulas na UFSM e me abriu todo um universo de possibilidades em termos de pesquisa, apresentando-me livros, autores, fontes, mecanismos de pesquisa. Foi a respons\u00e1vel por me iniciar nos Arquivos de Porto Alegre. Loner \u00e9 um dos nomes mais importantes da historiografia do P\u00f3s-Aboli\u00e7\u00e3o no Rio Grande do Sul e da Hist\u00f3ria Social do Trabalho no estado. Era Graduada em Hist\u00f3ria pela UFRGS, mestre em Hist\u00f3ria pela Unicamp e doutora em Sociologia pela UFRGS. Foi minha co-orientadora na Gradua\u00e7\u00e3o e sempre incentivou a seguir meus estudos no Mestrado, inclusive, tendo lido e debatido meu projeto, tornando-se, novamente, minha co-orientadora. Infelizmente, veio a falecer em 2018, aos 66 anos de idade, ap\u00f3s lutar contra a doen\u00e7a que a acometera por quase dois anos. No per\u00edodo que esteve internada, pude visit\u00e1-la para transmitir algumas boas not\u00edcias de nossas vit\u00f3rias conjuntas, as quais n\u00e3o teria conseguido sem o seu apoio, de professora exemplar. Em nossas \u00faltimas conversas, ela incentivou-me a ir para o Doutorado e voar sempre.<\/p>\n<p><b>Quais s\u00e3o os maiores desafios enfrentados por mulheres na busca pela igualdade de g\u00eanero na ci\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p>Muitas de n\u00f3s fomos ou somos constantemente assediadas ou violentadas at\u00e9 chegarmos aos bancos escolares, ao ensino superior, \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e aos laborat\u00f3rios e salas de pesquisa onde atuamos. At\u00e9 chegarmos onde estamos, n\u00f3s j\u00e1 passamos por muitos ass\u00e9dios, dentro de nossas casas, nas ruas, nos \u00f4nibus, nos postos de trabalho. E, muitas vezes, os espa\u00e7os educacionais, que nos permitiriam a possibilidade de uma ascens\u00e3o social, reproduzem essas viol\u00eancias de g\u00eanero em sua estrutura. Que, como toda a sociedade, ainda \u00e9 gerenciada, hegemonicamente, por homens brancos, muitas vezes sequer comprometidos em ouvir queixas, den\u00fancias e reivindica\u00e7\u00f5es das mulheres acerca dessas viol\u00eancias, em ambiente educacional e de pesquisa.\u00a0<b><i>A educa\u00e7\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o e a pesquisa podem ser importantes vias de liberta\u00e7\u00e3o feminina para muitas de n\u00f3s, \u00e9 atrav\u00e9s delas que muitas de n\u00f3s conseguem angariar oportunidades, melhores postos de trabalho, melhores condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e condi\u00e7\u00f5es de vida para si e seus filhos, que s\u00e3o muitas vezes fatores chave, que impactam na emancipa\u00e7\u00e3o de mulheres atreladas \u00e0 viol\u00eancia.\u00a0<\/i><\/b><\/p>\n<p>Esses espa\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o e pesquisa para n\u00f3s mulheres s\u00e3o fundamentais. \u00c9 preciso tornar esses espa\u00e7os educacionais de forma\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, cada vez mais, ao alcance de n\u00f3s mulheres, j\u00e1 que s\u00e3o parte fundamental de uma pol\u00edtica emancipat\u00f3ria de g\u00eanero.\u00a0<b><i>Para isso, as universidades, os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, os laborat\u00f3rios precisam estar atentos \u00e0 presen\u00e7a ou aus\u00eancia das mulheres, precisam garantir acesso e perman\u00eancia que, muitas vezes, tem a rotina marcada por jornadas triplas de trabalho e pela maternidade.\u00a0<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>De que forma voc\u00ea acredita que mais meninas poderiam ser incentivadas a se interessar pela ci\u00eancia e ambicionar se tornarem cientistas?<\/b><\/p>\n<p>Acredito que um bom exemplo s\u00e3o os investimentos em pol\u00edticas de A\u00e7\u00f5es Afirmativas e de Inclus\u00e3o. H\u00e1, por exemplo, editais de ingresso na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que, nas avalia\u00e7\u00f5es curriculares, ampliam o per\u00edodo de comprova\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o para candidatas mulheres, considerando o tempo de maternidade destas, sejam m\u00e3es biol\u00f3gicas ou adotivas, cis ou trans. Da mesma forma, as pol\u00edticas de cotas para pessoas trans, entre essas mulheres, que permitam reserva de vagas a esse grupo social, respeitando, inclusive, a utiliza\u00e7\u00e3o de seus nomes sociais.<\/p>\n<p>Projetos de extens\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m fundamentais no incentivo para que outras meninas possam ambicionar a pesquisa cient\u00edfica. Espa\u00e7os de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia, que diminuam o distanciamento entre as universidades, o ensino superior e o ensino b\u00e1sico parecem extremamente necess\u00e1rios, com a abertura de laborat\u00f3rios e bibliotecas. Como as gera\u00e7\u00f5es futuras ambicionar\u00e3o ser algo que n\u00e3o conhecem? Que n\u00e3o ouviram falar? Que n\u00e3o possuem refer\u00eancias?\u00a0<b><i>\u00c9 extremamente necess\u00e1rio retornar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral, sobretudo \u00e0s jovens meninas, o que fazemos em nossos laborat\u00f3rios, projetos e pesquisas, formando redes que impulsionem umas \u00e0s outras.<\/i><\/b>\u00a0Dentro dessa pol\u00edtica de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres por meio da educa\u00e7\u00e3o, cito como exemplo, mais uma vez, o projeto \u201cMeninas nas Ci\u00eancias \u2013 UERGS\u201d, coordenado pela Profa. Dra. Marta Nunes, uma grande refer\u00eancia para mim.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As outras doutorandas entrevistadas s\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/2021\/03\/08\/doutoranda-rosane-heck-busca-tornar-alimentos-mais-saudaveis-por-meio-da-incorporacao-do-omega-3\/\">Rosane Heck do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Tecnologia de Alimentos<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/2021\/03\/10\/doutoranda-jessica-croda-avalia-sistemas-agroflorestais-saf-nos-assentamentos-da-reforma-agraria-no-bioma-pampa\/\">J\u00e9ssica Croda do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia Florestal<\/a>.<\/p>\n<p>Confira tamb\u00e9m o programa\u00a0<b>Elas na Ci\u00eancia<\/b>\u00a0no canal do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=PLBB5c0vb8B4H1C7tqECyDqfAwIuj_bZMu\">YouTube da TV Campus<\/a>\u00a0que entrevista professoras da UFSM.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Dia Internacional da Mulher \u00e9 um dia de luta pelos direitos das mulheres e pela visibiliza\u00e7\u00e3o do seu papel na sociedade. 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Nesta semana, trazemos tr\u00eas doutorandas da UFSM que contam um pouco da sua trajet\u00f3ria na ci\u00eancia e da pesquisa que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":307,"featured_media":5247,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-5244","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/users\/307"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5244"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5244\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5247"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufsm.br\/unidades-universitarias\/palmeira-das-missoes\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}