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Revista Arco
Jornalismo Científico e Cultural

Tradição e sexualidade

“Por mais conservador, machista e repressivo que possa ser o tradicionalismo, continuam os gays fazendo parte do Movimento”. A frase é de Édipo Göergen, mestrando em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele se interessou pela temática LGBT ainda no final da graduação em História e decidiu continuar a pesquisa na sua pós-graduação.   Diversas motivações guiaram o pesquisador durante o estudo sobre identidades homossexuais no movimento tradicionalista. A vontade de se inteirar sobre o papel dos homossexuais dentro dos Centros de Tradições Gaúchas (CTG), de acordo com Édipo, era uma delas.   Primeiro, o mestrando pretendia escrever sobre espaços gays da cidade onde residia, Santo Ângelo, mas o evento do casamento homossexual coletivo - que iria acontecer em um CTG de Santana do Livramento e foi muito abordado pela mídia - fez com que Göergen mudasse o foco do trabalho. Além disso, por ser homossexual e por ter feito parte do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Édipo sentiu o dever de mudar o cenário de preconceito que existe nesse meio.   “Me senti responsável em ajudar a dar visibilidade à essa realidade, já que muitas pessoas, principalmente as que se mantinham contrárias ao referido casamento, acreditavam não existir gays nos CTGs, ou até mesmo, que o MTG não seria lugar para os gays”, relatou o pesquisador.     As questões de gênero e sexualidade são assuntos complicados para a ciência e, segundo Édipo, mais ainda, para o campo da Geografia. A relação da pesquisa com o campo tem a ver com o conceito de territorialidade, uma das cinco categorias de análise do globo terrestre. “Compreendo o Movimento Tradicionalista Gaúcho, ou então o tradicionalismo, como uma territorialidade, ou seja, para alguns autores da Geografia, a parte simbólica de um território. Da mesma forma, os núcleos de encontro dos tradicionalistas, como os Centros de Tradições Gaúchas e os eventos promovidos pelo MTG, como territórios”, disse Édipo.   O pesquisador baseia-se no território aliado à ideia de identidade. Os dois conceitos conversam, porque a identidade significa a união de um grupo de pessoas que representam os mesmos ideais e, consequentemente, o mesmo território. Assim, o MTG se caracteriza como um espaço onde os indivíduos expressam uma identidade e um território. “A questão é: como um mesmo indivíduo lida com identidades tão paradoxais, a tradicionalista e a homossexual? Já que, levando em conta os últimos estudos, cada indivíduo pode portar inúmeras identidades, dependendo da circunstância em que se encontra”, comenta o pesquisador.   A dissertação terá outras fases para atingir os objetivos do autor. Uma delas, vai ser a realização de entrevistas com membros homossexuais do MTG, para que ele entenda como ocorre a relação entre identidade e territorialidade. O pesquisador apresenta a dissertação do mestrado no final desse ano. Reportagem: Laura Lis Boessio e Marina Fortes Fotografia de capa: Facebook do Édipo Fotografia: Camila Mildner