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As dores e as delícias de um relacionamento à distância



Pesquisa divulgada no Journal Of Communication afirma que pessoas envolvidas nesse tipo de relação são capazes de formar laços mais intensos e profundos.

Bárbara Linhares

Frederico Westphalen

Se procurarmos o significado do termo “relacionamento à distância” na internet, uma das respostas o define como um relacionamento íntimo entre parceiros geograficamente separados um do outro. Ainda navegando na web, é possível encontrar inúmeros sites e blogs dando dicas de como fazer esse tipo de relação funcionar, e a maioria desses conselhos tem a  ver com a fidelidade do casal. Mas fora da teoria do mundo virtual, a prática funciona? Como duas pessoas deixam de lado as crenças de que um relacionamento acontece, preferencialmente, de modo presencial, e vivenciam o amor a quilômetros de distância? 

A Pâmela e a Francieli estudam na mesma faculdade e fazem o mesmo curso, porém só vieram a realmente se conhecer, no final de 2020, por conta de uma rede social. Já a Izadora e o Gabriel pertencem ao mesmo clube de jovens, mas de cidades opostas, e foi através dele que os dois tiveram o primeiro contato.  

Conexão São Paulo – Rio Grande do Sul

Não é só por aplicativo de relacionamento que se dá match com alguém. Através do Twitter a estudante de Relações Públicas da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria – Campus Frederico Westphalen) Pâmela Francelino, 29 anos, iniciou um relacionamento com a também estudante de Relações Públicas, Francieli Paholski, 22 anos. Pâmela é natural de Campinas, em São Paulo, e Francieli, da cidade de Alpestre, interior gaúcho. As duas aproveitaram bem a rede social de frases curtas para poder enfim, se conhecer, já que ambas se viam apenas pelos corredores da faculdade, e nunca haviam conversado ou demonstrado interesse.

Foi em dezembro de 2020, quando Francieli atravessou a rua do prédio em que Pâmela mora. Ela estava na sacada e resolveu registrar o seu interesse no Twitter, só que não esperava que Francieli fosse respondê-la com uma mensagem direta. “Foi quando alguém (Francieli) atravessou a rua. Aí eu tweetei sobre e ela respondeu o meu tweet, me mandou uma mensagem direta, respondendo o meu tweet perguntando se era sobre ela. E eu disse que se ela tivesse passado naquele horário, naquele dia, então, sim. E aí, a gente se viu no mesmo dia”, conta Pâmela. 

No dia seguinte, Francieli voltou para a casa de sua família em Alpestre mas com sentimentos novos pela pessoa que recém havia conhecido e se dando conta de que queria se relacionar com Pâmela. “Foi quando eu fui pra casa e eu senti saudade e falta de estar com ela. Mesmo que a gente ficou só um dia. A gente ficou conversando e quanto mais a gente conversava, mais eu gostava, mais eu queria estar com ela, “ relembra.

Apesar de ambas estarem em Frederico Westphalen e viverem curtos períodos a distância como quando Francieli retorna para Alpestre, o casal revela que não se preocupa com o momento que cada uma tiver de retornar para suas cidades de forma definitiva, e que o importante é preservar a individualidade para manter uma relação sadia. 

O psicólogo Robson Rodrigues Feijó, de Florianópolis, especialista em terapia de casais e família, declara que essa não preocupação com o futuro distanciamento tem haver em como cada indivíduo na relação, lida com suas questões pessoais, como a solidão e a insegurança. “Um casal que mora em cidades ou estados ou até países diferentes, vai precisar lidar com a solidão, que é não ter a presença do outro ali consigo. Então, a diferença no trato em relação a isso está em como cada um vai lidar com as suas questões pessoais. Porque cada um de nós tem uma mochilinha, e nessa mochilinha tem vários modos de relacionamento, tem várias crenças, tem várias ideias de como deve ser uma relação. Então, vai depender dessa mochilinha que cada um tem, sabe? É lidar com isso, a partir das coisinhas que tem dentro dessa mochila”, comenta.

Conexão Rio do Sul – Campos Novos

Os 180 km que separam Rio do Sul e Campos Novos, não foram o suficiente para evitar o relacionamento entre a estudante de Direito na Furb (Universidade Regional de Blumenau), Izadora Linhares Kuhnen, 20 anos, e o namorado Gabriel Henrique Carvalho, 19 anos, estudante de Publicidade e Propaganda na Unoesc (Universidade do Oeste de Santa Catarina). Com dois anos e meio de namoro, a riosulense, e o rapaz, campos-novense, fazem planos para, depois de formados, juntarem as escovas de dentes.

Os dois se conheceram em 2017 por causa do Interact Club, um clube que visa ajudar a sociedade através de campanhas e doações. Foi quando Gabriel mandou uma mensagem na rede social do clube de Izadora, solicitando participar de uma reunião, porque no final de semana estaria em Rio do Sul. “Ele mandou uma mensagem pra página do Interact, perguntando se ele poderia participar de uma reunião. Fui eu que respondi, porque era administradora da página. Disse que tudo bem, e tal. Só que as nossas reuniões eram na segunda-feira. Ele estaria lá no final de semana, então não pode ir ”, conta Izadora.

Gabriel salvou o contato de Izadora para futuros eventos do clube. Depois, adicionaram um ao outro na rede social SnapChat, porém sem trocar mensagens, até que em 2018, uma foto de gosto em comum levou a uma conversa.“Em 2018, eu participei do Parlamento Jovem, fui para Florianópolis. E quando eu mandei um post, um mês antes de ir, que tinha sido escolhido para ser parlamentar jovem, ela me respondeu: ‘Nossa, tu é muito parecido comigo’. E aí, eu chamei ela no WhatsApp e a gente começou a conversar”, relata Gabriel. 

Apesar da pouca idade, o casal já realizou uma viagem internacional juntos. Tentam manter uma rotina de verem-se a cada quinze dias, no mínimo, revezando quem vai até o encontro do outro, acordo que tem funcionado.  

Para o Psicólogo, Robson Rodrigues Feijó, que também já viveu um relacionamento a distância, realizar acordos entre o casal é uma das partes fundamentais para a construção de um bom relacionamento. “Eu acho que por isso que a conversa e os acordos são muito importantes. Porque digamos que uma das partes do casal entenda que essa distância tem haver com privação. Se essa pessoa entender que essa distância é privação, talvez, de fato, ela possa ir atrás de, de outras fontes de satisfação sexual, afetiva, enfim. E um acordo que quase sempre rola, eu tenho a impressão que é desse acordo que tá relacionado a planos de encontro, sabe? Das pessoas que se relacionam à distância, de se encontrar sei lá, de três em três meses, de quinze em quinze dias. Eu atendo uma pessoa que encontra o namorado periodicamente. Eles moram em estados diferentes e eles têm esse acordo. E isso funciona muito bem”, reflete.

Quando perguntei ao psicólogo Robson Rodrigues Ferreira se relacionamentos à distância eram possíveis, ele afirmou que sim, desde que houvesse vontade e desejo para estar nesse tipo de relação e ainda revelou, que já foi uma dessas pessoas que não acreditam nesta ideia de se relacionar a distância. “Isso é muito interessante, porque eu não achava que isso era uma possibilidade pra mim, sabe? Eu sou muito do contato, muito de estar perto, enfim, do toque. E quando eu conheci esse meu último namorado, ele não me contou logo de cara que era plano dele ir pra uma outra cidade. Eu sabia que ele estava no final da residência médica dele, e aí quando ele me contou, aquilo foi um choque, e eu falei, ‘Ah, eu acho que não vai dar certo, talvez a gente tenha que terminar’, porque nós tínhamos acabado de nos conhecer. Se conheceu e aí com três semanas a gente já tava namorando, eu pedi ele em namoro. Mas aí, ele começou a trazer outras perspectivas em relação a essa distância, em relação a essa possibilidade de relacionamento desse modo e tal. E eu fui aceitando, e no fim, todo final de semana eu tava indo lá pra cidade dele”, revela.

Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade da cidade de Hong Kong e Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e divulgada pelo Journal of Communication, revelou que, pessoas em relacionamento a distância por terem menos contato cotidiano, possuem um desenvolvimento mais significativo por revelarem mais de si mesmas em cada conversa e por idealizarem as reações de seus parceiros quando fazem essas revelações. Para os pesquisadores, relacionamentos a distância não possuem relevância para serem estudados, porque as pessoas acostumaram a pensar que eles são raridade, ou anormais, mas diversos estudos recentes mostraram que eles podem ser iguais ou melhores do que aqueles geograficamente próximos. 

Repórter: Bárbara Linhares

Edição digital e publicação: Emily Calderaro (monitora)

Professor responsável: Reges Schwaab

* Trabalho experimental desenvolvido na disciplina de Reportagem em Jornalismo Impresso em 2021/1, período em que trabalhamos de modo remoto em razão da pandemia do novo coronavírus.

Contato: meiomundo@ufsm.br

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