Texto: Pedro Giordani / Foto: Carlos Eduardo Ribeiro
Em entrevista à TV Brasil, foi perguntado à professora e filósofa brasileira Lúcia Helena Galvão o que mais espantaria Platão nos tempos atuais. A resposta de Lúcia foi categórica: “Ele se espantaria, provavelmente, acima de tudo, com a nossa falta de identidade. Se você chega e pergunta a um ser humano: quem é você? Esse ser humano vai ficar enrolado, sem saber o que dizer”, responde a professora. Essa resposta revela um dos grandes dilemas contemporâneos: a crise de identidade, agravada por uma sociedade capitalista que valoriza mais o ter do que o ser.
Porém, essa mazela presente na sociedade, que muitos chamam de “evoluída”, não se reflete na cultura indígena. Em nossa sociedade, é difícil responder a uma pergunta extremamente simples como “quem é você?”, pois a identidade é construída pelas profissões e endereços e consequentemente os bens adquiridos. Caso os perca ou mude de localidade, o indivíduo perde também a sua identidade. Já o indígena sabe quem é, conhece sua origem, de onde veio e ao que pertence. Sua identidade não é construída pela aquisição de bens que, cedo ou tarde, acabarão em uma lixeira.
Diante desse cenário, percebe-se a negação da complexidade e da autonomia desses povos por parte dos chamados “evoluídos”, o que ocasiona problemáticas de exclusão territorial e social, impedindo os indígenas de frequentarem lugares não indígenas. Contudo, após séculos de resistência e contribuição à formação do Brasil, os povos originários estão cada vez mais presentes nos centros acadêmicos de todo o país. Segundo o Censo da Educação Superior do Ministério da Educação, em 2022 o número de estudantes indígenas matriculados no ensino superior chegou a aproximadamente 70 mil, representando centenas de etnias. Desse total, 29% estavam em universidades públicas e 71% em privadas, um salto expressivo em relação a 2009, quando eram apenas 11,4 mil.

Com esse crescimento expressivo, as universidades foram impulsionadas a repensar políticas de acesso e permanência. Porém, ainda estão longe de se tornar espaços que acolham os povos nativos. Isso ocorre porque boa parte da sociedade ainda mantém uma visão de supremacia cultural em relação aos indígenas.
Em discurso, a deputada federal e ativista indígena Célia Xakriabá foi ao encontro da fala da filósofa brasileira Lúcia Helena: “As pessoas, elas sabem o seu interesse, a profissão da sua mãe, mas não sabem de onde vem a sua identidade. E aqueles que carecem muito de saber de onde vêm, não sabem também para onde vão”. Essa fala reflete a importância dos indígenas em todas as áreas da sociedade, e nas universidades não poderia ser diferente.
Aprender e respeitar sua individualidade em todos os espaços é essencial para construir uma educação mais humana e diversificada. Valorizar o conhecimento e a presença indígena é também um passo importante para resgatar o sentido de pertencer e reconectar o ser humano à sua própria essência. Só assim poderemos, de fato, enfrentar e superar a nossa crise de identidade, reconhecendo que compreender quem somos passa, inevitavelmente, por reconhecer de onde viemos.
Referências:
https://www.youtube.com/shorts/_dY-4usYPcw – fala da professora e filósofa brasileira Lúcia Helena Galvão
https://www.instagram.com/reel/DPgXy-EDYuO/?igsh=MWZzdzAwMm1temRqMg== – fala da deputada federal e ativista indígena Célia Xakriabá (além da fala recortada, usei algumas reflexões abordadas)
https://www.youtube.com/watch?v=jrwoydK4lUY&list=RDjrwoydK4lUY&start_radio=1 – Não utilizei nada especifico, mas a música do Fabio Brazza vai ao encontro da ideia da forma como o indígena enxerga o mundo e a terra, questionando a ideia de ‘’sociedade evoluída ‘’que vivemos
https://www.youtube.com/watch?v=36NC4G2KVoE – Historia e inspiração que levou à construção da música do Brazza
https://revistapesquisa.fapesp.br/numero-de-estudantes-indigenas-no-ensino-superior-cresce-mas-grupo-enfrenta-desafios-para-se-formar – dados mencionados