Por Marina Lima
Em 2013, o caso de Rawan, uma menina de apenas oito anos do Iêmen, chamou a atenção internacional. Casada à força com um homem de 40 anos, ela faleceu na noite de núpcias devido a graves lesões internas. Este episódio trágico não só devastou sua família e comunidade, mas também lançou luz sobre a prática do casamento infantil, que ainda afeta milhões de meninas ao redor do mundo.
O Contexto de Uma Tragédia Global
A Meta 5.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU, estabelece um compromisso ambicioso: eliminar todas as práticas nocivas contra mulheres e meninas, incluindo o casamento infantil e a mutilação genital feminina, até 2030. Entretanto, a realidade é desafiadora, especialmente no Brasil, onde um número alarmante de meninas é afetado.
De acordo com dados do IBGE, cerca de 36% das brasileiras se casam antes dos 18 anos, colocando o Brasil no topo da lista de países da América Latina com maior prevalência de casamentos infantis e o quarto maior em números absolutos no mundo. Essas uniões, muitas vezes motivadas por fatores culturais, pobreza e falta de acesso à educação, têm impactos devastadores na saúde, na vida social e no desenvolvimento pessoal dessas meninas.
Mas o problema vai além de números. Essas práticas têm raízes profundas em contextos culturais, socioeconômicos e religiosos. Em comunidades pobres, o casamento infantil é visto, muitas vezes, como uma forma de aliviar a carga financeira ou proteger a “honra” da família, enquanto em algumas culturas ele é romantizado, reforçando o papel submisso da mulher.
Práticas Nocivas: Um Drama Cotidiano
Além dos casamentos infantis, a mutilação genital feminina é uma das práticas mais cruéis enfrentadas por meninas e mulheres. Essa mutilação, comum em regiões da África, Oriente Médio e até em comunidades migrantes no Brasil, causa traumas físicos e psicológicos irreversíveis. Entre as consequências estão infecções crônicas, complicações no parto e um impacto devastador na autoestima e no bem-estar emocional das vítimas.
A pandemia de COVID-19 trouxe impactos devastadores para meninas em situação de vulnerabilidade, aumentando o risco de práticas nocivas como o casamento infantil. Segundo dados do UNICEF, cerca de 10 milhões de meninas em todo o mundo estão sob maior risco de serem forçadas a casar devido às consequências econômicas e sociais da crise global. O fechamento de escolas, o aumento da pobreza e a sobrecarga nos sistemas de proteção social agravaram as desigualdades de gênero, forçando muitas famílias a recorrer ao casamento
precoce como estratégia de sobrevivência. Este cenário reforça a necessidade urgente de políticas públicas eficazes e iniciativas de conscientização para combater essas práticas e proteger os direitos das meninas.
As Consequências da Infância Roubada
A morte de Rawan gerou uma onda de protestos e pressão internacional para a introdução de leis que protejam crianças de casamentos forçados no Iêmen e em outros países. O caso mobilizou ONGs, ativistas e organismos internacionais, levando a discussões sobre direitos humanos, igualdade de gênero e proteção infantil em fóruns globais.
Embora o caso de Rawan tenha catalisado debates, a mudança prática tem sido lenta. O casamento infantil continua sendo uma prática comum em diversas regiões, incluindo o Iêmen, onde conflitos armados agravam a vulnerabilidade de meninas e mulheres. Organizações como a UNICEF e o UNFPA têm trabalhado para promover campanhas de conscientização e oferecer apoio às vítimas.
Os impactos do casamento infantil vão muito além do abandono escolar. Meninas casadas precocemente enfrentam taxas alarmantes de violência doméstica, gravidezes precoces – muitas vezes de alto risco – e a impossibilidade de desenvolverem uma carreira ou terem autonomia financeira. Esse ciclo não apenas perpetua a pobreza, mas também impede comunidades inteiras de progredirem.
Como aponta o relatório do UNICEF, “Quando você priva uma menina de sua infância, o custo social e econômico é imensurável.”
Iniciativas para mudar essa realidade
Felizmente, iniciativas de combate e prevenção têm ganhado força. No Brasil, políticas públicas começam a abordar o problema por meio de campanhas educativas e ações legislativas para aumentar a idade mínima para o casamento. Organizações como a ONU Mulheres e ONGs locais, como a Plan International Brasil, têm promovido projetos de conscientização em comunidades vulneráveis.
Um exemplo de sucesso é o programa “Meninas Livres”, que capacita adolescentes a conhecerem seus direitos e denunciarem casos de abusos. Na esfera internacional, campanhas como “Girls Not Brides” reúnem esforços globais para erradicar o casamento infantil.
“Achei que minha vida tinha acabado quando me casaram aos 13 anos. Mas hoje, ajudo outras meninas a entenderem que têm uma escolha,” conta Fatima, uma sobrevivente da mutilação genital que agora trabalha como ativista no Quênia.
Um Futuro Sem Práticas Nocivas
Seja por meio de políticas públicas, da atuação de ONGs ou da coragem de meninas e mulheres como Rawan, cada passo conta para transformar o conto de terror de tantas meninas em histórias de superação e empoderamento.
A eliminação de práticas nocivas como o casamento infantil não é apenas uma questão de justiça social; é um passo crucial para o desenvolvimento sustentável e a igualdade de gênero. Como destaca a ONU, investir no futuro das meninas é investir no futuro de toda a sociedade.
Fontes consultadas: IBGE, ONU, UNICEF, Plan International Brasil, relatórios de direitos humanos e depoimentos de sobreviventes. Coberturas jornalísticas sobre o caso de Rawan (BBC, Al Jazeera). Dados e análises do UNFPA sobre a prevalência do casamento infantil no Iêmen.
Texto produzido para a disciplina Comunicação, Cidadania e Ambiente, sob a orientação da professora Cláudia Herte de Moraes.
Edição especial para Íntegra.