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12 coisas que você pode aprender ouvindo o podcast Clima de Crise

Podcast produzido pela UFSM reúne pesquisadores e profissionais que estão na linha de frente dos estudos sobre Mudanças Climáticas.



As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 deixaram marcas visíveis nas cidades, nas paisagens e na vida de milhares de pessoas. Mas também evidenciaram algo maior: a crise climática já faz parte do cotidiano. Foi a partir desse cenário que surgiu o podcast Clima de Crise, produzido pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para aproximar universidade e sociedade a partir da pauta climática.

Com seis episódios divididos em duas temporadas, o podcast reúne pesquisadores e profissionais que estão na linha de frente dos estudos sobre mudanças climáticas para discutir, em linguagem acessível, como eventos extremos afetam a saúde, o território, a comunicação, a educação e a vida em comunidade. Mais do que explicar fenômenos ambientais, a série busca mostrar os impactos sociais da crise climática.

“O principal aprendizado é o entendimento de que já estamos vivendo em um período de emergência climática e que precisamos agir, individual e coletivamente”, afirma a diretora do podcast, Camila Pereira. “Precisamos repensar nosso consumo, nossos hábitos, nossa comunicação, nossa gestão e nossas leis ambientais.”

O Clima de Crise parte de perguntas concretas: o que acontece com quem precisa de atendimento de saúde quando uma cidade fica isolada por uma enchente? Como as pessoas se informam quando a internet deixa de funcionar? O que muda nos rios e no solo depois de um evento extremo? Ao longo dos episódios, especialistas ajudam a compreender como a crise climática reorganiza rotinas, amplia desigualdades e transforma territórios. “Passei a enxergar a crise climática de forma mais próxima, entendendo que ela já está acontecendo e que não há como voltar atrás”, diz Camila.

A lista a seguir reúne 12 aprendizados e curiosidades extraídos das entrevistas com especialistas e apresentam ideias que ajudam a entender melhor o que aconteceu em 2024 e o que pode acontecer daqui para frente.

  1. O vínculo com o território muda a forma de reagir a desastres

    Diante de um desastre, nem todo mundo reage da mesma forma, e isso pode estar relacionado com a relação construída com o lugar onde se vive. No episódio 1, Pertencimento e Memória em tempos de Crise Climática, a professora Maria Medianeira Padoin, do Departamento de História da UFSM, destaca que se reconhecer como parte do território pode influenciar a disposição para agir diante dos problemas e impactar diretamente a resposta às crises. Ela considera fundamental que se fortaleça um “sentimento comunitário”, ou seja, “um sentimento de pertencimento coletivo, [que o território] não só meu, [mas é] nosso”.

  2. Universidades podem atuar diretamente nos territórios em situações de crise

    No episódio 1, Maria Medianeira Padoin explica que a presença da UFSM no território da Quarta Colônia se dá em projetos desenvolvidos junto às comunidades, escolas e gestores locais, e são voltados à compreensão e à busca de soluções para problemas da região em diálogo com os moradores. Durante as enchentes de 2024, essa rede também se tornou visível na prática. “Eu comecei a receber muitas ligações de nossos alunos, era meia-noite, uma da manhã… [eles diziam] nós estamos sem luz, com necessidades”, relata. Ao mesmo tempo, professores de diferentes áreas também entraram em contato oferecendo ajuda, evidenciando a universidade como uma rede mobilizada diante da crise.

  3. Nem toda cidade pode ter todos os serviços de saúde — e isso vira um problema em situações de crise

    No episódio 2, Saúde em contexto de emergência climática, a mestranda em Saúde Coletiva pela UFSM, Gabriela Toniolo Bertolo, explica que não existem atendimentos especializados em todos os municípios do Brasil, já que o sistema de saúde no país é organizado para funcionar de forma regionalizada.

    “Pensa um município de 2, 3 mil habitantes ter cardiologista, ter cirurgia geral para aquela população — isso é inviável e insustentável, tanto financeiramente quanto de forma logística para o sistema”, afirma.

    A organização do SUS em regiões e macrorregiões permite concentrar recursos e garantir atendimento para aquela população, mas cria vulnerabilidades em situações extremas. Durante as enchentes de 2024, cidades ficaram isoladas e perderam acesso a serviços: “Em dois dias, Santa Maria ficou ilhada. E como agir quando os serviços de média e alta complexidade, os principais prestadores da região, ficam isolados? Não é possível trazer os pacientes para cá, e os que já estão aqui também não conseguem voltar para casa.”

    Segundo Gabriela, foi necessário mobilizar diferentes frentes para garantir o atendimento, com apoio de outras instâncias públicas e, em alguns momentos, da iniciativa privada.

  4. Remédios doados durante enchentes podem acabar descartados

    Durante as enchentes de 2024, a grande quantidade de doações de medicamentos acabou gerando alguns desafios, como conta Gabriela Bertolo no episódio 2: “A solidariedade é o que nos torna humanos, mas, sem uma orientação, nos trouxe vários problemas”.

    Muitos dos medicamentos doados não puderam ser utilizados, seja por falta de controle de validade, por terem sido armazenados de forma inadequada ou por não corresponderem às necessidades do momento: “Quando as pessoas doam medicamento da farmacinha da casa delas, aquele medicamento controlado ou aquele medicamento cortado que a gente não tem noção da data de validade, não temos como entregar esse medicamento para a população, ele vai ser descartado”, explica Gabriela.

    A situação exigiu a criação de uma estrutura específica para triagem, com equipe técnica responsável por avaliar o que poderia ou não ser aproveitado.

  5. Quando a internet falha, a informação também entra em risco

    Sem internet, como uma comunidade se informa em meio a um desastre? Durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, essa pergunta deixou de ser hipotética. Em diversas regiões, a conexão caiu ou se tornou instável — e, com ela, o principal meio de acesso à informação.

    No episódio 3 — Jornalismo Local, Desertos de Notícia e Resiliência Climática — a professora Laura Storch, do Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM, relata que algumas regiões da Quarta Colônia ficaram sem acesso à internet: “toda aquela lógica globalizada de informação, desabou naquele momento”.

    O episódio revela como a crise expôs a dependência de infraestruturas digitais e a vulnerabilidade dos sistemas de informação em contextos extremos.

  6. Rádios e WhatsApp foram essenciais para a circulação de informação durante a crise

    Com a queda ou instabilidade da internet, a circulação de informação passou a depender de meios mais próximos do território. No episódio 3, Laura Storch destaca que as rádios mantêm uma relação direta com as comunidades, o que fortalece seu papel em momentos de crise. Além disso, sua atuação envolve presença física nas áreas afetadas, com profissionais que se deslocam até regiões isoladas para relatar o que está acontecendo.

    Mesmo com falhas na conexão, os grupos de WhatsApp também tiveram papel importante sempre que havia algum acesso disponível. Por serem organizados a partir de vínculos diretos entre moradores, funcionaram como redes locais de troca de informações. “Existia um fluxo de informação muito potente acontecendo ali”, afirma.

    Os grupos ajudavam a identificar pessoas isoladas, organizar pedidos de ajuda e circular informações urgentes entre moradores e equipes de resposta.

  7. Eventos extremos são naturais, o desastre depende de como ocupamos o território

    No episódio 4 — Clima, Território e Educação Ecológica — o professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFSM Adriano Figueiró explica que eventos como as chuvas fortes de 2024 são parte do processo natural da dinâmica da evolução da paisagem: “Não há nada de estranho no que aconteceu, porque isso vem acontecendo há milhões de anos. A paisagem hoje só é o que é porque eventos extremos dessa natureza aconteceram com muito mais intensidade, com muito mais frequência”, afirma.

    O que transforma esses eventos em desastre, no entanto, é a forma como os territórios são ocupados. Áreas como margens de rios e encostas instáveis são especialmente vulneráveis. “Os maiores danos ocorreram justamente naquelas estruturas construídas pelos seres humanos que desrespeitam os caminhos naturais da própria paisagem”, explica Adriano.

    Segundo ele, esses eventos continuarão ocorrendo — possivelmente com maior frequência em função das mudanças climáticas. Diante disso, é preciso aprender como reduzir os danos à vida e aos bens materiais.

  8. O solo leva séculos para se formar — mas pode desaparecer em poucos dias

    No episódio 4, Adriano Figueiró destaca que a formação do solo é um processo extremamente lento: “Para produzir 1 cm de solo, eu preciso por volta de 400 anos”.

    Durante as enchentes de 2024, áreas da Quarta Colônia perderam quase 1,5 metro de solo em apenas três dias de chuva. O contraste revela que certos danos ambientais são praticamente irreversíveis no tempo humano, e reforça a importância de práticas de conservação e planejamento do uso da terra: “com algumas técnicas simples de conservação do solo, nós poderíamos ter preservado mais do nosso patrimônio”, enfatiza o pesquisador.

  9. Um rio pode ficar mais rápido e destrutivo depois de um evento extremo

    Eventos extremos podem alterar a forma e o comportamento dos rios, com efeitos que permanecem no tempo. No episódio 5, Chuva, solo e ciência: o que aprendemos com as enchentes, o professor do Departamento de Solos da UFSM Jean Minella explica que, após as enchentes, mudanças no leito do rio reduziram sua rugosidade e alteraram seu fluxo.

    “Ele se tornou menos rugoso, mais retilíneo”, afirma, explicando que é como se tivesse passado por uma “pavimentação natural”, ou seja, “para um mesmo evento de chuva que aconteça agora, as velocidades do rio estão maiores. Então o rio está propagando aquela mesma vazão que propagava antes de uma forma muito mais rápida”.

    Isso, segundo o pesquisador, pode intensificar os danos em eventos futuros.

  10. O mesmo sistema que causa enchente também pode causar falta de água depois

    No episódio 5, o professor Jean Minella explica que os períodos de enchente e estiagem estão ligados ao funcionamento do sistema hídrico. Segundo ele, a forma como a superfície das bacias é ocupada interfere diretamente na recarga dos aquíferos, das nascentes e na quantidade de água disponível nos rios ao longo do ano.

    O impacto vai além dos eventos extremos. Jean Minella afirma que rios que ficam “extremamente violentos” durante as chuvas podem depois “agonizar”, sem água suficiente para abastecer comunidades urbanas e rurais. “Esse excesso que a gente tem de escoamento superficial é a água que vai faltar no período de baixa precipitação”, resume o pesquisador.

    Para ele, o sistema está “obviamente desequilibrado”: a água escoa rápido demais durante as chuvas e deixa de abastecer o solo, os rios e os aquíferos nos períodos secos.

  11. Nem os especialistas esperavam a dimensão das enchentes no Sul

    Mesmo com dados e modelos de medição cada vez mais sofisticados, a magnitude de alguns eventos climáticos ainda surpreende. No episódio 6 — Variabilidade climática no Sul do Brasil — a meteorologista e docente do Departamento de Física da UFSM Nathalie Boiaski afirma que os eventos extremos surpreenderam até quem pesquisa o tema. “Nenhum de nós era capaz de compreender a magnitude de um evento extremo até então”, relata.

    A pesquisadora, que mora na Quarta Colônia, conta que também foi atingida pelas enchentes de 2024: “Eu sou meteorologista, tenho a formação, eu tinha os dados na mão. Por que que eu não saí? Porque a gente não quer acreditar”.

    Ela relata que não deixou sua casa imediatamente, porque jamais imaginou que o rio pudesse atingir o nível que atingiu. Segundo ela, como nunca havia acontecido algo parecido antes, acreditou que “ia chover, mas não ia ser tanto assim a ponto de a gente precisar sair de casa”. A saída aconteceu apenas quando percebeu que o nível do rio estava subindo rápido demais.

    Para ela, os eventos recentes mostram que, mesmo com avanços na meteorologia, a dimensão dos impactos ainda desafia a capacidade de previsão e resposta da sociedade.

  12. Eventos extremos locais são mais difíceis de prever — e os alertas ganham ainda mais importância

    No episódio 6, Nathalie Boiaski explica que eventos em escala regional ou local são mais difíceis de antecipar com precisão, especialmente pela falta de dados em determinadas áreas. Chuvas intensas podem atingir uma região específica enquanto bairros próximos permanecem sem chuva, o que dificulta a representação desses eventos nos modelos de previsão. “chove no centro da cidade de Santa Maria e não chove em Camobi”, exemplifica.

    A situação se torna ainda mais complexa em áreas com pouco monitoramento. “Então nós precisamos sim de mais monitoramento, porque não tem milagre que o meteorologista possa fazer sem ter um ponto de observação, sem ter pluviômetro, sem ter termômetro, sem ter anemômetros”, afirma a pesquisadora, citando a falta de equipamentos em parte da Quarta Colônia.

    Nesse cenário, mesmo com incertezas, a recomendação é sempre considerar os avisos e agir preventivamente. A forma como as pessoas respondem a esses alertas pode influenciar diretamente os impactos das situações de risco. Ela defende que os alertas meteorológicos sejam levados a sério: “Na dúvida, saia”.

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O podcast Clima de Crise foi produzido no âmbito dos projetos “Governança e multidimensionalidade dos riscos climáticos” (Fapergs 06/2024) e “Comunicação de proximidade” (PROEXT-PG/Capes), vinculados à Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Todos os episódios já estão disponíveis, confira:

Texto: Luciane Treulieb, jornalista

Ilustração: Evandro Bertol, designer

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