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Arco Entrevista: A China já é uma potência capaz de contrapor os Estados Unidos no sistema internacional?

Bruno Hendler, professor de relações internacionais da UFSM, analisa o contexto chinês baseado em seus estudos sobre "Ascensão e Queda de Grandes Potências"



O ano de 1949 marca o início do domínio do Partido Comunista sobre a China. Desde então, o país tem passado por uma grande transformação, especialmente a partir da década de 1980, quando Deng Xiaoping intensificou reformas econômicas que romperam a dicotomia entre estados capitalista e socialista.

Essa data também pode ser considerada o início do surgimento de uma nova potência global. Não livre de erros e controvérsias, o país alcançou um patamar de desenvolvimento nunca antes visto, mantido por mais de 40 anos – mesmo período em que 850 milhões de cidadãos saíram da situação de extrema pobreza.  

O objetivo do país é dar continuidade a esse caminho de crescimento sem precedentes na história contemporânea. Meta que preocupa os Estados Unidos que, desde a Guerra Fria, não via sua soberania tão ameaçada. Dispostos a não abdicarem de sua hegemonia, os americanos se articulam no cenário internacional juntamente a países europeus e da Oceania para barrar o crescimento chinês. A China, por sua vez, busca investir no antigo “terceiro mundo” e se alinhar às lógicas produtivas do “primeiro mundo” para aumentar a sua influência no sistema internacional.

Bruno Hendler, professor da graduação e pós-graduação em Relações Internacionais da UFSM, pesquisa as movimentações que constituem esse jogo de xadrez geopolítico, especialmente do lado chinês, investigando os impactos de sua ascensão para o mundo e para o Brasil.

Bruno realizou doutorado sanduíche na Universidade do Povo (Renmin University) em Pequim, onde ficou de fevereiro a junho de 2017. Neste mesmo ano, o pesquisador participou do 3th Bridge to the Future Program, programa da All China Youth Federation que selecionou 15 pesquisadores da América Latina para conhecer acadêmicos e políticos chineses. Também participou de um congresso na Sun Yat-Sen University em Zhuhai e, ainda em 2017, visitou de outubro a novembro seis países do Sudeste Asiático para entrevistar acadêmicos, políticos e diplomatas.

Atualmente, coordena o Grupo de Pesquisa em Ásia-Pacífico (GEAP-UFSM), e está vinculado aos grupos de pesquisa em Economia Política da UFSC e ao LabChina da UFJR. Fez parte do grupo de autores do livro “China contemporânea: seis interpretações“, lançado este ano pela editora Autêntica. A obra reúne análises de estudiosos brasileiros sobre o desenvolvimento chinês em múltiplos aspectos.

A Revista Arco entrevistou Bruno Hendler para saber a respeito do gigante asiático e sua cultura, sistema político, suas diferenças em relação ao ocidente e a forma como percebemos essas discrepâncias e a relação entre capital e estado no país comandado há mais de 70 anos pelo Partido Comunista.

ARCO – Você poderia nos contar sobre a sua trajetória e o que te levou a estudar sobre a China?

Eu sou formado em Relações Internacionais e sempre gostei muito de história. Por isso,  acabei em uma linha de pesquisa conhecida como ‘Ascensão e Queda das Grandes Potências’. Os autores da área voltam 500, 600 anos na história para entender como Portugal e Espanha foram grandes potências e depois entraram em declínio. O mesmo aconteceu com Holanda, França e Inglaterra até chegar aos Estados Unidos. Há uma pergunta comum a todos esses pesquisadores: “Qual é a nova grande potência?”. E a China é a principal potência emergente. Então,  comecei a estudá-la para entender o impacto da sua ascensão como grande potência para o mundo e para o Brasil.

ARCO – Quando se classifica um país como potência, geralmente se analisam três fatores: militar, econômico e cultural. A China já é uma potência nesses três campos? 

No aspecto militar, a China é o segundo país que mais investe nas suas forças armadas. Em questão de potência, ela briga pelo segundo lugar com a Rússia. Mais cedo ou mais tarde, a China irá ultrapassar a Rússia e se consolidar como segunda potência mundial, atrás dos Estados Unidos.

O aspecto econômico é onde reside o principal debate. Em alguns aspectos, como paridade de poder de compra, a China já passou os Estados Unidos. Em termos de PIB [Produto Interno Bruto] absoluto, a tendência é de que a China passe os Estados Unidos em breve. Mas há outros indicadores, como o PIB per capita, que a China continua muito atrás, porque tem 1,5 bilhão de habitantes. 

O país tem ascendido no que se chama “globais de valor”, ou seja, empresas chinesas deixaram de apenas transferir riqueza para as potências centrais – Europa e Estados Unidos – e passaram a concentrar, gerar e extrair riqueza de outros países mais periféricos. O caminho que a economia chinesa está traçando é uma tendência de se aproximar dos países ricos. Inclusive, um dos pontos do meu artigo no livro “China Contemporânea – Seis interpretações” é o fato da China ser o país que mais possui companhias entre as 500 principais empresas do mundo, com 129 –  os Estados Unidos têm 121. Isso é bem significativo. 

Em termos culturais, a China é um dos países que mais dá bolsas de estudos para estrangeiros estudarem lá. Mas, por ser um país muito diferente em termos civilizacionais do ocidente, há muita reticência e preconceito contra o país, seu povo e cultura, tanto que existe o termo “sinofobia”. Esse é um obstáculo que a China tenta vencer.

Nesses três aspectos, a China já é uma potência global capaz de contrapor a influência dos Estados Unidos no sistema internacional. Ao meu ver, estamos entrando no mundo G2, que é como muitos autores classificam essa polarização.

ARCO – Você acredita que no Ocidente, especificamente no Brasil, temos pouco conhecimento sobre o país?

Com certeza. Quando eu fui como estudante à China, me surpreendi com a quantidade de chineses estudando a cultura ocidental, falando português, espanhol e outras línguas. Apesar de ter sido uma viagem oferecida pelo governo chinês e de ter sido eles quem selecionaram as pessoas que falariam comigo, essa busca por entender outras culturas é muito mais forte do lado chinês. No Brasil, há cerca de uns dez anos, houve o início de uma difusão da cultura chinesa: começaram grupos de estudo e institutos de pesquisa sobre o país. Mas ainda  acredito que a falta de conhecimento é grande. Outro aspecto a se considerar é que a civilização chinesa é muito autocentrada – não há um aparato disseminação de cultura e valores chineses, como o que os Estados Unidos construíram no pós-guerra. É muito mais difícil penetrar nessa civilização.

ARCO- Você acha que esse pouco conhecimento faz com que haja interpretações distorcidas sobre o que acontece no país?

O nosso vocabulário político e social sobre democracia, direitos humanos, livre iniciativa, desenvolvimento econômico e social é muito diferente do contexto chinês.

"O ocidente usa suas próprias lupas para entender a China e isso gera visões muito míopes."

Quando se fala que lá há uma ditadura que oprime bilhões, simplesmente se ignora o fato de que não há como se sustentar por 70 anos no governo sem entregar desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e uma certa liberdade para seus habitantes. Precisamos recalibrar nosso vocabulário, estudar a história da China, a forma como a civilização chinesa se construiu para entender como, há dois mil anos, esse país se organiza em um Estado centralizado que controla muita coisa da vida social.

ARCO –  Poderia explicar sobre o funcionamento do sistema político da China?

O serviço público na China é altamente remunerado e reconhecido. Há um status muito grande em você ser um funcionário público na China. Essa lógica de ascensão é muito parecida com a de uma empresa, com uma meritocracia. Xi Jinping, por exemplo, começou como vereador, depois foi prefeito e traçou todo o caminho do funcionalismo público até se tornar o atual presidente da China.

O governo chinês tem programas de intercâmbio entre altos executivos e políticos e servidores de carreira do Estado. Então membros do partido comunista – já que para você ascender na carreira pública você tem que fazer parte do partido – atuam por um período em empresas como gestores e executivos. Há também executivos que se reciclam, passando algum período em funções públicas. Então a sinergia entre Estado e capital, entre mercado e governo, é muito forte. No entanto, essa sinergia também dá margem para casos de corrupção. A China não é livre de corrupção. Você tem casos clássicos de evasão fiscal nos governos locais. Mas no geral, essa lógica é eficiente.

Esse caminho do funcionalismo público na China existe de formas diferentes há mais de dois mil anos. Para nós, pode não fazer sentido, mas lá há um peso muito forte do Confucionismo, que é uma ideologia que preza pelo bem-estar público em primeiro lugar. 

ARCO – Um ponto que você costuma frisar é que nenhum país chega a ser potência sem entrar em conflito com as potências já consolidadas. Pode-se dizer, então, que os Estados Unidos fizeram movimentos parecidos com os da China para se consolidarem como potência?

"A China, perto do que americanos fizeram quando ascenderam, é uma pombinha da paz."

A história da ascensão norte-americana se dá em três tempos. Você tem a formação do território norte-americano nos séculos 18 e 19, que se faz com genocídio indígena e escravidão. Esse período segue  até a Guerra de Secessão, quando termina e deixa grandes bolsões de pobreza.

Na primeira metade do século 20, há o imperialismo norte-americano na América Central e em partes da Ásia como na própria China, Panamá, Cuba, Nicarágua, Honduras, República Dominicana, Haiti e México.

E no pós-guerra, quando eles se tornam a grande potência, a atuação se dá de forma muito mais sofisticada. Eles ainda invadem países – como Coreia e Vietnã- mas passam a praticar mudanças de regimes políticos através da CIA. A própria agência divulga registros de diversas intervenções, invasões e apoios a golpes militares.

Já a China aderiu e propôs organizações internacionais.  A China investe em países que são esquecidos pelo ocidente, principalmente na África e na América Latina.  Então, você tem empresas que estão levando uma espécie de desenvolvimento para esses lugares. Claro, isso não é sem interesse. 

Para conter a ascensão chinesa, os americanos têm articulado alianças internacionais desde o governo Obama. A China, por sua vez, busca espaços para se projetar e se contrapor a essa contenção. Um vai dizer que só está reagindo aos movimentos do outro. Mas, na prática, os dois lados fazem uma competição por posições. 

Essa disputa entre o estabelecido e o emergente acontece em qualquer lugar. Na Fórmula 1, por exemplo, quando dois pilotos estão na disputa pelo título, é inevitável que eles se toquem em algum momento. Isso ocorre em todas as esferas, e no sistema internacional a competição é muito forte, claro que irão surgir tensões.

ARCO – E como fica o Brasil no meio dessa disputa entre potências?

Na Guerra Fria, você tinha os dois blocos, o capitalista, com os Estados Unidos, e o socialista, com a União Soviética. Ainda havia um terceiro bloco, o dos países não alinhados, o famoso terceiro mundo. Em tese, o Brasil, ao longo da Guerra Fria, não se enquadraria em nenhum deles, porque não era do primeiro mundo, dos capitalistas desenvolvidos, não era socialista, mas também não era um país da África e da Ásia, que tinham acabado de ganhar sua própria independência. A história da posição do Brasil na política externa é de alinhamento estrutural com os Estados Unidos em termos de defesa, estratégia e cooperação militar.

Porém, o Brasil teve momentos muito claros de aproximação com o terceiro mundo – às vezes até com o segundo mundo dos países socialistas, por motivos pragmáticos. Em 1975, quando Angola se torna independente de Portugal graças ao partido comunista, o regime militar do Brasil rapidamente a reconhece como independente, porque era interesse da indústria nacional exportar produtos para Angola. 

Então, o Brasil tem dois eixos de relações externas, um vertical ou hemisférico com os Estados Unidos e a Europa, e um eixo horizontal ou multilateral com o mundo em desenvolvimento. E, a cada governo, o Brasil oscila entre esses eixos, ora enfatizando o terceiro mundo, ora enfatizando o mundo em desenvolvimento. E tudo bem ocorrer essas oscilações dentro do que se considera civilizado. No governo Lula, houve um foco muito grande para o Sul Global, o antigo terceiro mundo, mas sem deixar de lado a relação com EUA e Europa. Aí veio o governo Temer, com um realinhamento de relações principais com os Estados Unidos, mas sem romper com a China. 

Mas quando vem o governo Bolsonaro, é um tiro no pé. Desde a campanha, promoveu uma retórica de hostilidade em relação à China, sendo que, desde 2009, ela é o principal parceiro comercial do Brasil. Além disso, ele amarrou a sua política externa ao governo Trump, não ao Estado norte-americano, e o Trump perdeu a disputa de reeleição, então agora o Brasil está distante tanto da China, quanto dos Estados Unidos – se isolou dos dois eixos. E a diplomacia brasileira sempre foi uma referência internacional, por isso somos o país que anualmente abre a Assembleia Geral das Nações Unidas. A política diplomática do governo Bolsonaro conseguiu destruir todos os eixos de projeção que o país tinha. Hoje, o Brasil é um pária internacional. 

ARCO – Em relação à questão do modelo econômico da China: qual a importância do sistema político do partido comunista da China no desenvolvimento da economia de mercado no país?

Sobre esse assunto, há muitos livros e teses. De um lado, os liberais vão dizer que a China se abriu, virou capitalista e se desenvolveu, porque ela tem acesso a recursos e mercados no exterior. Enquanto marxistas e nacionalistas reivindicam a participação do Estado na criação das zonas econômicas especiais, investimentos externos, além  da participação de empresas estatais em setores chaves da economia.

Os setores de comunicação, transporte, construção civil e energia são mantidos sob o controle do Estado. Sem as empresas estatais, o país deixa de existir, mas se você tirar as empresas privadas da China, ela para. 

Um ponto a se destacar é a mudança do investimento estatal. Até os anos 2000, prevalecia investimento público em setores pesados – metalurgia, siderurgia, construção e afins -, além da exportação dos famosos produtos de R$1,99. Mas de 15 anos para cá, esse modelo de investimento público começou a ser substituído por outro voltado para o consumo do mercado doméstico e para os setores de serviços. Design de produtos, arquitetura, tecnologia de ponta e entretenimento são os setores que mais movimentam dinheiro há pelo menos 50 anos, a indústria pesada ficou para trás. 

A China procura se desenvolver nesses setores por meio da absorção de conhecimento dos países desenvolvidos – para isso ela importa cérebros desses países. Quando eu estava em uma universidade da China, os jogadores da liga universitária eram todos chineses, mas os técnicos, fisioterapeutas e médicos eram todos italianos. Havia um professor recém-formado no sul da Espanha realizando um estágio na China, mas era um estágio onde ele ensinava. Outro exemplo é a arquitetura. Quando estive em Pequim, havia arquitetos alemães, franceses, espanhóis. A China está absorvendo a economia do conhecimento. 

Enquanto isso, a indústria de manufatura chinesa é levada para a África, América Latina e sudeste asiático. Eles estão terceirizando as atividades de menor valor agregado e complexificando sua produção interna para  competir com o ocidente. 

ARCO – E sobre a afirmação que a China é socialista. Socialismo de mercado ainda é socialismo?

Eu vou voltar em uma resposta que eu dei: nós precisamos calibrar o nosso vocabulário. Esses dois conceitos – tanto o capitalismo de estado quanto o socialismo de mercado – não servem para entender a China. O Estado, que seria socialista, funciona em uma lógica altamente meritocrática e ligada às empresas. Por outro lado, as empresas funcionam sob a tutela do Estado. É uma zona cinzenta.

ARCO – Então como você definiria a estrutura econômica da China? 

Eu não não me arrisco a criar um conceito para defini-la, mas tem gente que faz isso. Eu sugiro dois autores. Um é o Elias Jabbour, que usa um termo chamado “economia do projetamento”. Ele busca um sociólogo brasileiro do século 20, Ignácio Rangel. Para ele, a Economia do Projetamento é uma nova forma de socialismo. A outra autora é Isabela Nogueira de Moraes, que foi minha orientadora no doutorado. Ela trabalha numa perspectiva marxista de falar que é uma China com tensões de classe, analisando como essa nova burguesia tenta fugir do controle do Governo.

ARCO – Esse modelo econômico único da China foi o diferencial para o país não ter o mesmo fim da União Soviética? 

Sim, foi o diferencial, mas não é tão único. A China pegou carona em um modelo de desenvolvimento econômico asiático com o Japão e com os tigres asiáticos, como Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura. Muito do que a gente falou a respeito da integração entre empresas estatais e privadas, protecionismo comercial, foram coisas que tanto o Japão quanto a Coreia do Sul fizeram. O que a China fez foi pegar alguns elementos e elevar a um outro patamar. Então sim, esse sistema econômico é a chave do sucesso da China, mas ressalto que essa política econômica não aconteceu só na China.

Eu me arrisco a dizer que todos os países que se dizem grandes potências se desenvolveram com esse modelo de protecionismo e controle estatal. É o caso dos Estados Unidos, da Alemanha, da França, da Inglaterra e da Suécia. Não é Estado mínimo que desenvolve país. Claro, como a gente viu no caso da União Soviética, também não é um Estado máximo que desenvolve um país. É sempre esse meio termo, mas me sinto muito em cima do muro, dizendo que não é nem um nem outro.

"É preciso um estado que esteja acima da burguesia, acima das classes capitalistas, que invista na ciência - principalmente nos setores de longo prazo, que agora não rende frutos, mas que no futuro irá gerar lucro e desenvolvimento."

ARCO – Seria um estado empreendedor?

É uma mescla entre estado empreendedor e estado dirigista. Um estado keynesiano, ou seja, ele controla as engrenagens chave da economia sem ser necessariamente o grande empresário de todos os setores. O Estado não precisa controlar todas as padarias, mas sim regular a oferta de trigo para que elas possam competir em um sistema equilibrado a fim de ver quem faz o melhor pão, por exemplo.

ARCO – Então essa rigidez da China com o setor privado é uma forma de manter condições iguais para competição?

É isso mesmo. O magnata Jack Ma, anos atrás, aderiu ao Partido Comunista. Não é o estado que é convertido ao capitalismo. É o burguês que é convertido ao Partido Comunista, que, na nossa visão, é o mais capitalista de todos os partidos comunistas. De novo, são os nossos termos que não conseguem dar conta da realidade. 

ARCO – Por mais difícil que seja definir esse sistema econômico, podemos dizer que a China propõe um caminho possível para o desenvolvimento de países periféricos?

Bom, uma coisa é você se inspirar no que a China está fazendo e adotar um modelo parecido, e outro é estreitar os laços econômicos com eles. Ninguém garante que os países africanos, ao se aproximarem da China, vão se tornar mini-Chinas. Esse debate é feito no livro “Chutando a Escada” do Ha-Joon Chang. Ele usa a seguinte metáfora: quando um país sobe a escada do desenvolvimento, a “chuta”, isto é, cria empecilhos para que outros países tracem o mesmo caminho. Agora que a China se desenvolveu, ela tende a se tornar mais liberal, a querer mais livre comércio, a buscar defender a globalização. 

Então se a associação com a China vai levar a um desenvolvimento parecido com o chinês, eu não sei. O Vietnã diz que sim. O Vietnã é uma China de 20 anos atrás. O país passou a receber muito investimento chinês e tem se desenvolvido de forma muito parecida. Mas também não é garantia de que isso vai acontecer, tem que ver caso a caso. 

ARCO – Então dá para dizer que mesmo que a China tenha aberto o caminho, ela já está tratando de fechar? 

Bom, aí voltamos para aquele aquele paradoxo que falamos. A estrada que a China está estendendo para os países em desenvolvimento, a meu ver, é muito mais viável do que a que os americanos e europeus estenderam. Mas isso não é garantia que os países vão se desenvolver como a China. Não temos como saber se isso é sustentável a longo prazo.

Expediente

Reportagem: Bernardo Salcedo, acadêmico de Jornalismo e bolsista

Ilustração: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, estagiária de Jornalismo e bolsista; e Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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