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O caminho das descobertas



A região central do Rio Grande do Sul é uma área chave no cenário paleontológico nacional. Tem sido palco de grandes descobertas, como a que encontrou o Staurikosaurus pricei, o primeiro dinossauro brasileiro e um dos mais antigos dinossauros do mundo. Essas descobertas, de reconhecimento internacional, aconteceram em uma faixa de cerca de 250 quilômetros, principalmente entre Candelária e São Pedro do Sul, abarcando também todos os municípios da Quarta Colônia e Santa Maria.

 

A paleontologia é a ciência que se dedica ao estudo de antigas formas de vida do planeta Terra, tanto animais quanto vegetais. Através dos fósseis, busca reconhecer os organismos existentes nos diversos períodos geológicos e entender os processos responsáveis pelo surgimento de determinadas espécies, e pela extinção de outras. Atualmente, é um campo multidisciplinar com envolvimento direto em áreas como biologia, geografia, arqueologia e geologia. Dada a riqueza de informação contida nos fósseis, seus locais de ocorrência precisam ser preservados. De fato, tal patrimônio se encontra muitas vezes ameaçado por empreendimentos danosos aos sítios e exploração ilegal destes. Isso preocupa sobremaneira os paleontólogos e põe em risco o conhecimento e a compreensão sobre a rica história biológica de nosso planeta.

 

Hoje, quem ajuda a contar parte dessa história é o Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa), localizado em São João do Polêsine e coordenado pelo professor Sérgio Dias da Silva, e o Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia, coordenado pelo professor Átila Stock da Rosa, ambos ligados à UFSM. A seguir, apresentamos uma linha do tempo das principais descobertas realizadas no Rio Grande do Sul. Esta não é, e nem pretende ser totalmente completa, mas sim uma síntese da história paleontológica local.

 

1901

O geógrafo Antero de Almeida descobre os primeiros fósseis animais nas sangas que se espalhavam pelo bairro da Alemoa. Ele foi também o responsável pela descoberta do sítio Chiniquá.

 

1902

O Dr. Jango Fischer, nascido em Santa Maria e diplomata brasileiro no Chile, em uma de suas visitas à cidade natal, foi à Sanga da Alemoa e coletou vários exemplares de fósseis, que mais tarde seriam estudados pelo Dr. Arthus S. Woodward e classificados como Scaphonyx fischeri, hoje conhecido como Hyperodapedon, um dos primeiros répteis fósseis até então descobertos no Brasil.

 

1915 –1917

O médico oftamologista Dr. Guilherme Rau auxiliou o paleontólogo alemão Dr. H. Lotz em suas escavações. Juntos, escavaram aproximadamente 200 peças nesses dois anos. Nesse período, o Dr. Lotz ensinou Atílio Munari, um jovem santa-mariense de 14 anos, a procurar, escavar e preparar com cuidado os achados fósseis. Munari auxiliou mais de 11 geólogos e paleontólogos que vieram a Santa Maria pesquisar, até seu falecimento em 1941.

 

1925

A vinda do geólogo e pesquisador alemão Bruno von Freyberg influencia o jovem Vicentino Prestes de Almeida, um agrimensor da região, a estudar a paleontologia. Vicentino encontrou uma mandíbula de um pseudosuchio no Sítio Paleontológico Chiniquá, em São Pedro do Sul, que foi enviada para a Alemanha e analisada pelo prestigiado paleontólogo Friedrich von Huene. A descoberta influenciou a vinda de Huene ao Rio Grande do Sul. Vicentino teve participação tão ativa na paleontologia da época que Friedrich von Huene nomeou o fóssil de Prestosuchus chiniquensis, descoberto em 1938, em sua homenagem.

 

1927

Guilherme Rau escava o crânio de um Gomphodontonsuchus brasiliensis, um cinodonte que foi estudado por Friedrich von Huene, em Arroio do Só.

 

1928

Friedrich von Huene e seu mais estimado aluno, Rudolf Stahlecker, vêm para Santa Maria depois de vários anos recebendo materiais fósseis da região. A expedição dos alemães durou dez meses e no total foram levados 8.600 quilos de blocos de rocha sólida que continham esqueletos e elementos ósseos isolados. Tudo foi encaixotado e enviado para análise na Alemanha. O museu de Tübingen conta hoje com esqueletos praticamente completos de mais de cinco espécies diferentes graças a essa expedição, como Stahleckeria potens e Traversodon stahleckeri, entre outros.

 

1936

O brasileiro Llewellyn Ivor Price conduz uma expedição que conta com membros da Universidade de Harvard para a região. Descobriu aqui, entre outros, Staurikossaurus pricei, que só foi finalmente analisado e batizado em 1970 pelo paleontólogo americano Edwin Colbert. Staurikossaurus é classificado como um saurísquio basal surgido antes da subdivisão das duas grandes linhagens de Saurischia (Theropoda e Sauropodomorpha), um dos tipos mais antigos de dinossauros já encontrados.

 

1956 –1976

O padre Daniel Cargnin coleta, em cidades como Candelária, General Câmara e Cachoeira do Sul, cerca de 50 crânios de cinodontes e dicinodontes, e um número talvez maior de crânios de rincossauros, dos quais 36 se encontram no museu Vicente Pallotti, em Santa Maria. Ainda na sua lista de descobertas encontra-se o cinodonte Protuberum cabralensis.

 

1999

O paleontólogo Max Cardoso Langer descobre, na Sanga da Alemoa, Saturnalia tupiniquim, um dos mais antigos dinossauros já encontrados, que, como Staurikosaurus pricei, viveu o final do período Triássico, há aproximadamente 230 milhões de anos.

 

2004

Pesquisadores da UFSM e do Museu Nacional da UFRJ anunciam a descoberta de mais um dinossauro em território nacional, Unaysaurus tolentinoi, que viveu há aproximadamente 225 milhões de anos. O fóssil foi descoberto em 1998, próximo do município de São Martinho da Serra, por um aposentado da região (senhor Tolentino, homenageado no batismo da nova espécie) que, ao encontrar o primeiro fragmento do fóssil, entrou em contato com a UFSM.

 

2006

Anunciada a descoberta do Sacisaurus agudoensis, um fóssil de aproximadamente 220 milhões de anos de idade. O primeiro fóssil da espécie foi encontrado em 2000, próximo a Agudo. A escavação acabou por revelar diversos ossos, incluindo 19 fêmures direitos, o que fez os pesquisadores batizarem a espécie como Sacissauro. Inicialmente acreditou-se ser de fato um dinossauro, porém pesquisas posteriores concluíram que era uma forma externa à Dinosauria (família dos dinossauros), mas muito próxima desse grupo.

 

2009

Um crânio bem preservado de um Cinodonte africano do gênero Luangwa é encontrado próximo à cidade de Dona Francisca. Essa espécie é geralmente encontrada apenas na África.

 

2011

Pesquisadores da Ulbra encontram fósseis do dinossauro Pampadromaeus barberenai. A ossada encontrada constituía um esqueleto parcial e desarticulado, porém bem preservado, de um só indivíduo da espécie. O “corredor dos pampas” era bípede e relativamente pequeno, com apenas 50 centímetros de altura e 120 de comprimento.

 

2012

Fósseis de três dinossauros foram encontrados no interior de Agudo por pesquisadores da Unipampa. As ossadas têm idade estimada de 225 milhões de anos e duas delas foram coletadas praticamente completas, algo raríssimo e ainda única ocorrência desse tipo em território brasileiro. Os pesquisadores acreditam que esses fósseis podem pertencer a uma nova espécie. O material hoje se encontra tombado no acervo do Cappa/UFSM.

 

2013

É inaugurado o Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa/UFSM), em São João do Polêsine. O Centro faz parte do quadro de unidades da UFSM e tem como objetivo reunir e prestar apoio aos profissionais que exploram os sítios paleontológicos da região central do Rio Grande do Sul.

 

2014

Pesquisadores da UFSM, Ulbra e Unipampa coletaram um bloco contendo um dinossauro carnívoro em São João do Polêsine. Até hoje foram encontrados poucos fósseis de dinossauros carnívoros no Triássico mundial. Os pesquisadores afirmaram que essa descoberta pode trazer importantes informações sobre a origem e evolução dos dinossauros. O único dinossauro carnívoro de idade Triássica encontrado no Brasil de que se tem notícia foi justamente o Staurikossaurus na década de 30 do século XX na região central do Rio Grande do Sul.

 

Cinodonte

Grupo de animais de formas amniotas de linhagem pré-mamaliana que eventualmente evoluiriam para se tornar os primeiros mamíferos. Supõe-se que eram de sangue quente e com pelos. Receberam esse nome devido à sua dentição heterodonte (incisivos, caninos, pré-molares e molares) com aparência superficialmente similar à dos cães.

 

Pseudosuchia

Grupo de répteis pré-históricos do período Triássico. O nome significa falsos crocodilos, justamente pelo grupo ser superficialmente muito similares a crocodilos modernos.

 

Sanga Alemoa

A Sanga da Alemoa é o mais importante sítio paleontológico do estado do Rio Grande do Sul. Está localizada na área urbana de Santa Maria, no bairro Km 3, às margens da rodovia RS-509. Há mais de um século, grandes pesquisadores passam pelo local e colaboram com a formação da paleontologia brasileira. Além da Sanga da Alemoa, Santa Maria possui outros 19 sítios paleontológicos.

 

Repórter: Bernardo Zamperetti e Gustavo Martinez

Diagramação e Ilustração: Evandro Bertol


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