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Pantanal em chamas: riscos à biodiversidade



Em média, 59 campos de futebol foram desmatados por dia até agosto. Perspectiva é que a região da bacia hidrográfica onde está o bioma perca 64% da sua cobertura natural em 2050

Até 2018, 4,97% do território pantaneiro estava em áreas protegidas. Embora tenha ocorrido aumento significativo nas Unidades de Conservação (UCs) desde 2010, o bioma não alcançou o patamar de 10% de área protegida. Dez anos após a Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas (CDB), evento que propôs a meta, ela ainda não foi cumprida. 

Em 2000, quando existiam 147.160 hectares (ha) em áreas protegidas, o Pantanal recebeu uma boa notícia. O reconhecimento de Reserva da Biosfera Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) deveria garantir ações governamentais para conservar o meio ambiente e impulsionar o desenvolvimento sustentável. Mais adiante, o estudo Evolução das unidades de conservação no Pantanal no período de 1998 a 2018 levantou que havia 747.945 hectares em 33 áreas protegidas por suas características territoriais e ambientais relevantes. 

A preservação das áreas garante que se observem na região espécies já estão extintas em outros biomas. Um levantamento da revista Retratos, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que existem 463 espécies de aves, 263 de peixes, 132 de mamíferos, 85 de répteis e 35 de anfíbios. As espécies encontradas na flora pantaneira chegam a 1.197, sendo 146 endêmicas, ou seja, que ocorrem apenas nessa região. 

De acordo com o documento do Herbário da Embrapa Pantanal, de 2009, a sobrevivência desses seres é possível graças à variedade e à combinação de solos, climas, altitudes, água e habitat. São esses aspectos que levam a região a ser considerada um bioma. Na maior superfície inundável interiorana contínua do mundo, a combinação se estende por 150.355 km², cobrindo 1,76% do território brasileiro. Suas características se apresentam em 35,36% da área do Mato Grosso (MT) e 64,64% do Mato Grosso do Sul (MS).

Nesta quinta, 12 de novembro, é o Dia do Pantanal. A data passou a ser comemorada a partir de 2008 em homenagem ao jornalista e ambientalista Francisco Anselmo de Barros. Como forma de protesto contra usinas de cana na região, Francelmo ateou fogo no próprio corpo, no centro de Campo Grande, após 25 anos de luta pela preservação do bioma.

Confira nesta segunda reportagem da série Pantanal em Chamas, o avanço do desmatamento, as consequências das queimadas para a Serra do Amolar, região montanhosa do Pantanal, e as perspectivas de recuperação da área degradada conforme ambientalistas do Greenpeace, do Instituto do Homem Pantaneiro e da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Desmatamento na maior planície inundável do mundo

O bioma pantaneiro tem predominantemente 9.171.100 hectares de vegetação campestre, bem como outras coberturas naturais, como a área úmida. Com base em dados do IBGE, de 2002 a 2018 o Pantanal foi o bioma que menos perdeu áreas naturais – com características originais – para antropizadas – espaços que tiveram alguma alteração por consequência da atividade humana, como estradas, pastagens e lavouras. Até o ano final da análise, eram 13.209.600 hectares de áreas naturais e 1.746.300 de ha de áreas antrópicas. 

O estudo sobre mudanças de paisagens da Embrapa na Bacia do Alto Paraguai (BAP), situada no Brasil, Bolívia e Paraguai, simulou que até 2022 a área perderá metade da cobertura natural. Cerca de 36 milhões de hectares da BAP estão em solo brasileiro, o qual abrange parte da região pantaneira. A perspectiva é de que até 2050 a região esteja com 36% de sua cobertura natural. Em 2008, ela era de 60%. 

Os efeitos acumulados disso influenciam na fauna, na escassez de chuvas, no movimento da água que desce para o interior do solo, na vazão de rios, entre outras condições, como a atual seca no Rio Paraguai. Apesar disso, o Pantanal é onde ainda mais se tem preservação nativa na Bacia. 

Em 2019, o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil do MapBiomas, apontou que o Pantanal perdeu 16.521 hectares. Foi o bioma que teve a maior média diária de área desmatada por alerta, com 77 hectares. No Brasil, ao todo, 99% dos alertas validados no ano passado não tiveram nenhuma autorização para desmatamento – cadastro feito pelo Sistema Nacional de Controle de Origem do Produtos Florestais (Sinaflor). De janeiro a agosto de 2020, a região perdeu uma área equivalente a 14.336 campos de futebol – uma média de 59 campos devastados por dia.

O Brasil, que já foi protagonista em discussões internacionais sobre biodiversidade, como a criação de áreas protegidas estabelecidas nas metas de conservação de Aichi da última década, não assinou, em setembro deste ano, o Compromisso dos Líderes pela Natureza, que inclui o acordo de reverter a perda da biodiversidade até 2030.

Na prática, o governo brasileiro ignorou as quatro principais preocupações:

  • investir em recuperação “verde” para alcançar uma sociedade sustentável; 
  • desenvolver e implementar um projeto global de biodiversidade pós-2020; 
  • considerar de forma integrada, coerente e com ações eficazes, a inter-relação entre biodiversidade, a degradação ambiental e mudanças climáticas; 
  • acabar com os crimes ambientais; integrar e incluir a biodiversidade em políticas setoriais (como a industrial, alimentar, agricultura, entre outras). 

Ambientalistas condenam omissão governamental

Cristiane Mazzetti, porta-voz do Greenpeace em Desmatamento Zero e mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics, critica a omissão governamental. “É mais uma entre muitas sinalizações de que o meio ambiente não tem espaço na gestão atual. Está em curso um declínio acelerado das espécies devido à ação humana, 1 milhão delas estão em processo de extinção no mundo. Na gestão atual, a criação de novas áreas protegidas, incluindo unidades de conservação e terras indígenas, segue estagnada. Para piorar, muitas delas têm sofrido com a ação do fogo, invasões e desmatamento”, destaca. 

O que ameaça a existência da fauna pantaneira é a alteração do ambiente ou dos fatores que colaborem para a manutenção do meio. O desmatamento atinge diretamente, por reduzir espaços fundamentais para a vida de muitos animais. A degradação influencia nas condições propícias para os incêndios. “No Brasil, mais da metade das áreas desmatadas e degradadas não possuem nenhum tipo de uso, o que favorece o crescimento de vegetação de forma desordenada. E essa vegetação, no período seco, é um excelente combustível para os incêndios florestais”, explica Filippe Lemos Maia Santos, pesquisador do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA-UFRJ) e mestre em Meteorologia. 

De acordo com a coordenadora técnica do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), Letícia Larcher, bióloga e doutora em Ecologia e Conservação, os incêndios “ameaçam a biodiversidade por efeitos indiretos que atrapalham o equilíbrio da cadeia alimentar e o equilíbrio de como as comunidades se relacionam”. Ou seja, há dificuldade em conseguir alimentos, redução do habitat, maior exposição aos predadores, dificuldade para reprodução e alimentos de difícil digestão. Os efeitos diretos são as mortes dos animais, como alerta a pesquisadora. 

A perda da qualidade ambiental pelos incêndios faz com que espécies em risco de extinção encontrem ainda mais dificuldade de sobrevivência, visto que exigem ambientes específicos para isso.

Serra do Amolar em combustão: 75% de área queimada

Com a seca, a baixa do Rio Paraguai dificulta o acesso a algumas áreas do Pantanal onde equipes de combate se mobilizam para diminuir os incêndios. Embora o Pantanal se destaque por características de planícies, há também regiões montanhosas e de alto desnível, como a da Serra do Amolar, onde chega a quase 800 metros acima do nível do mar. Na região, este ano, ocorreram grandes focos de incêndios.

Situada entre Cáceres (MT) e Corumbá (MS), na fronteira do Brasil com a Bolívia, a Serra faz parte do Maciço do Amolar, região que atua como reguladora da umidade local e da conservação das florestas, além de servir de abrigo aos animais no período da cheiaPróximo da Serra do Amolar está o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense, tombado como patrimônio natural da humanidade pela UNESCO, e mais três Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), que formam 80% da preservação – e constroem um grande corredor de biodiversidade do Parque até as áreas protegidas na Bolívia.

Existem ali uma grande comunidade de felinos, como onças, e registros de seis espécies ameaçadas de extinção – anta, ariranha, tamanduá bandeira, tatu canastra, queixada e mutum de penacho -, de acordo com a coordenadora do IHP. De alguma forma, todos os animais que vivem ali estão ameaçados e tiveram seu ambiente modificado e ameaçado pelo fogo, que já queimou 75% da área, correspondente a 280 mil hectares. 

O deslocamento dos brigadistas que atuam no combate é, geralmente, feito a pé, “é extremamente cansativo, penoso e acabamos contando, quando é possível e agora é, com apoio de aeronaves que conseguem transportar as pessoas e colocá-los próximos à linha do fogo”, explica Alexandre Pereira do Ibama PrevFogo MS. 

Atualmente as linhas de combate são compostas por brigadistas do Ibama PrevFogo, ICMBio, corpo de bombeiro militar do MT e MS, reforços do corpo de bombeiro militar do PR, SC e DF, militares da força nacional, exército brasileiro e marinha. Depois do reconhecimento de cada área, escolhe-se a técnica de combate mais eficaz.

Recuperação do meio degradado

A restauração da biodiversidade se baseia na chuva e na recuperação do ciclo hidrológico do Pantanal de forma correta afim de proporcionar ambiente adequado e equilibrado. “Não há uma estimativa de quantos animais morreram nesse fogo ou quais espécies foram mais atingidas, isso está sendo feito um levantamento em conjunto com o ICMBio, Embrapa, UFMT, UFMS e outras intuições que trabalham todas com a mesma metodologia para tentar estimar o tamanho da perda para a biodiversidade. Ainda não sabemos como será essa recuperação, o número de perdas e ainda estamos tentando entender quais são as ações que precisamos fazer para tentar reverter o quadro”, esclarece Letícia. 

Alexandre é positivo quanto à recuperação após as queimadas, “o Pantanal tem o fogo como um agente natural desse ambiente e a questão das inundações é um outro fator estressante, fazendo com que todas as espécies animais e vegetais adquirissem um poder de recuperação bastante grande”.

Por outro lado, no próximo ano o IHP entende que as condições climáticas ainda serão as mesmas, somadas a baixa do Rio Paraguai e grandes quantidades de focos de incêndios. Letícia destaca que as soluções para reduzir os danos seriam através da implementação de brigadas permanentes na região, trabalhando no manejo, prevenção e ações imediatas de combate ao fogo. 

A representante do Greenpeace alerta para o atraso na contratação de brigadistas que iriam atuar no Ibama e ICMBio, mesmo com previsões de seca severa para a região em 2020. “E, após a crise ter se estabelecido no Pantanal, a ajuda do governo federal tardou a chegar e a situação só não ficou ainda pior em decorrência da atuação de moradores locais e da sociedade civil, que atuaram no combate. Além disso, a redução das atividades de fiscalização ambiental também podem ter influenciado na origem dos incêndios, onde uma investigação da Polícia Federal e um levantamento da ONG ICV apontam para o início do fogo em poucas fazendas”, diz Cristiane. 

O pesquisador do LASA, Filippe, confirma, baseado em estudos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que “nas próximas décadas, irá aumentar a frequência de eventos extremos de incêndios florestais decorrente do aumento da temperatura média global devido ao aumento de gases de efeito estufa”. De acordo com o Jornal USP sobre o Relatório IPCC, parte dessa solução estaria em ações protetivas e restaurativas de florestas que poderiam mitigar as emissões de carbono em até 25%, atitude que limitaria até 2030 o aquecimento global em 1,5ºC.

Assim como o IHP, Cristiane indica a necessidade de traçar um plano de proteção para o bioma em que esteja incluso ações preventivas, formação e treinamento dos brigadistas e fiscalização dos crimes ambientais. “No entanto, o que tem se observado por parte do governo é o contrário, omissão e enfraquecimento dos mecanismos de proteção ambiental”, crítica a porta-voz do Greenpeace em Desmatamento Zero.

A UFSM e vários parceiros também farão a sua parte para incentivar a recuperação ambiental com o 1º Fórum Primavera da Articulação Floresta Viva: Informar e Reflorestar, com atividades de 23 de novembro a 3 de dezembro.

Série Especial da Arco
Pantanal em Chamas

Expediente

Repórter: Gabriel Araújo, acadêmico de Jornalismo da UFSM Frederico Westphalen e estagiário

Ilustradora: Renata Costa, acadêmica de Produção Editorial e bolsista

Mídia Social: Nathália Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista

Editor Chefe e supervisor de estágio: Maurício Dias, jornalista


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