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ALUNA DE OURO



 Fotografia horizontal e colorida de uma mulher de pele branca na parte direita da imagem. Ela está de perfil direito, em plano médio longo. Ela está com expressão facial de vibração, a boca está aberta, os braços estão dobrados para cima e o corpo está inclinado para trás. Tem pele branca, rosto angular, olhos escuros e cabelos loiros e lisos presos em um coque na parte superior da cabeça. Ela veste camiseta amarela com detalhes em verde nas mangas e a bandeira do Brasil no lado direito do peito, short azul marinho justo e joelheiras brancas. Ela está em uma quadra de vôlei  na cor salmão. O fundo é dividido, de forma horizontal, em três linhas: na parte superior, a cor roxa; na parte central, a cor azul celeste, e na parte inferior, a cor salmão.
Foto: Tiago Moreira

A audição é um sentido capaz de promover sensações únicas e incomparáveis. Para os que a possuem na sua totalidade, ouvir uma música, conversar pelo telefone e escutar os sons da natureza são coisas comuns que passam na maioria das vezes despercebidas. Imagine viver sem isso. 

No dia 13 de junho, a TXT entrevistou a doutoranda em Medicina Veterinária pela UFSM, Eduarda Santi. Natural de Nova Palma, RS, a estudante foi diagnosticada com deficiência auditiva e, desde a infância, se acostumou a quebrar barreiras com a ajuda das duas paixões de sua vida: o esporte e o estudo.

Inúmeras vezes campeã pelo Santa Maria Soldiers, Eduarda alcançou a sua maior glória esportiva no ano de 2022, quando disputou as Surdolimpíadas Mundiais na modalidade vôlei. O evento ocorreu no mês de maio, em Caxias do Sul. Quanto aos estudos, dedicou uma década de sua vida à UFSM. Dos dez anos, quase nove foram vividos na Medicina Veterinária e o resto na Odontologia, que cursou até o terceiro semestre. 

.TXT: Há quanto tempo você está na UFSM? Como foi o seu início na Instituição?

Eduarda: Estou há 10 anos na UFSM. Eu me formei no ensino médio no final de 2010 e passei por meio do PEIES em Odontologia. Na época, eu escolhi esse curso em decorrência da minha deficiência auditiva e da questão da mulher no mercado de trabalho da Veterinária. Os meus pais queriam que eu fizesse um curso mais tranquilo, porque o meu pai é veterinário, então ele sabe que se trata de um trabalho mais pesado e mais sujo. No fim, eu fiz até o terceiro semestre de Odontologia, aguentei só as cadeiras básicas. No terceiro semestre, passei a ter aulas de “Saúde Coletiva” e tínhamos que atender jovens em uma escola aqui de Santa Maria. Na primeira vez que fui atender uma criança, percebi que não era o que eu queria. Além disso, eu tenho umas amigas que faziam Veterinária e me falaram muito bem do curso, eu só conseguia pensar que eu devia fazer também. Então, resolvi começar umas cadeiras do curso como aluna especial e eu amei. No ano seguinte fiz o vestibular e fui aprovada.

.TXT: Como é a sua relação com a Medicina Veterinária dentro da UFSM?

Eduarda: Dentre todas as áreas da Veterinária, eu sempre pensei em trabalhar com campo. No 3º semestre, acabei conhecendo o Laboratório de Parasitologia e gostei muito, tanto que estou no laboratório até hoje. Eu me formei no final de 2018 e em 2019 comecei o mestrado. Em 2020 veio a pandemia e essa parte do mestrado ficou complicada, porque eu estava no início do experimento, que tinha como objetivo testar a eficácia de um tipo de cogumelos contra larvas e adultos de uma espécie de mosca varejeira. Por causa disso, eu disse que nunca faria doutorado porque queria fazer um ano sabático. Nessa época, voltei a praticar esportes e entrei na Associação de Surdos de Santa Maria. Eu joguei os Jogos Universitários Brasileiros (JUBs), e quando você está na universidade, tem muitas oportunidades nesses eventos. Então, fui conversar com algumas pessoas da UFSM e me falaram para começar o doutorado. Conversei com a professora Gláucia, que eu já admirava, manifestei interesse em fazer o doutorado e ela aceitou me orientar.

.TXT: Como você sente a questão da acessibilidade na UFSM? Ocorreram mudanças nos 10 anos que você está na Instituição?

Eduarda: Falando sobre mim, eu sou surda oralizada, então, não preciso de intérprete. Na Odontologia, por exemplo, achava que a coordenação pudesse avisar os professores. Então, fui para a aula achando que eles já tinham sido avisados sobre a minha deficiência. Eu cheguei a sofrer preconceito, colegas dando risada, e isso foi um dos motivos para eu mudar de curso. Quando eu cheguei na Veterinária, o coordenador disse que eu tinha que avisar os professores e os colegas da minha deficiência, explicar a situação para eles. A questão da acessibilidade em si, no que diz respeito ao pessoal, melhorou muito, mas só me ajudou porque eu já falava, ninguém foi atrás de mim para perguntar se estava tudo bem. No doutorado, por causa da pandemia, o uso de máscara foi complicado, porque como eu faço muita leitura labial, foi horrível para mim. Quanto aos professores, a professora do laboratório que eu trabalho, por exemplo, ficou com medo no início, mas ela foi muito receptiva. O pessoal todo da Veterinária foi muito receptivo.

.TXT: Como começou essa sua relação com o esporte? Quando passou a ser algo mais sério?

Eduarda: Desde criança eu não gostava de brincar de boneca, mas adorava jogar futebol por causa dos meus tios. A minha mãe me influenciava muito, ela gostava que eu pudesse conversar com pessoas diferentes e então, eu jogava em vários times. Joguei handebol, futebol, vôlei, tênis de mesa, tudo que possa imaginar. O momento que eu passei a ver o esporte de forma mais séria foi quando eu comecei a jogar futebol americano no Santa Maria Soldiers. Eu competi durante 5 anos, mas por causa do doutorado, tive que limitar algumas coisas, já que era muita tarefa para mim. 

Fotografia horizontal e colorida em tons de verde e azul, de uma mulher de pele branca que segura uma bola de futebol americano atrás da cabeça. Ela está no centro da imagem, de perfil, em plano geral fechado, e tem pele branca, cabelos lisos e compridos na cor loiro escuro, presos em rabo de cavalo. Veste camisa branca com detalhes em verde escuro, calção escuro, meias pretas longas e chuteiras verdes com detalhes escuros. Está com o braço direito inclinado para trás, e com uma bola avermelhada de futebol americano na mão. Ao fundo, em desfoque, sete mulheres com camisas com camisa azul e calção preto, e dois homens com roupas em cinza e em preto. Estão em um gramado verde claro e, ao fundo, estrutura de metal cinza e alta, um muro de concreto cinza e árvores em tons de verde.
Foto: Arquivo pessoal de Eduarda Santi

.TXT: Em uma partida, você sente dificuldades para se comunicar com companheiras ouvintes?

Eduarda: Toda vez que eu ia treinar em um time de ouvintes, eu tinha que avisar da minha deficiência. Se alguém me chama de costas, eu dificilmente escuto, então tem que vir e fazer o toque para eu virar de frente. São coisas meio complicadas, porque as pessoas precisam se dar conta que precisam estar de frente para mim. No futebol americano, por exemplo, que eu joguei por 5 anos, o treinador não podia gritar ou falar para mim, então a gente se comunicava muito por sinais. Nós treinamos algumas jogadas e ele fazia o uso das mãos, ou só mexia a boca, porque eu faço leitura labial. Outra alternativa era com a ajuda de uma colega que ia falar com ele e passava a mensagem para mim. Mas é uma situação complicada, às vezes, o colega esquece, acontecia algum probleminha e a pessoa vinha pedir desculpas. 

.TXT: Como foi o convite para disputar as Surdolimpíadas?

Eduarda: Uma menina da Veterinária queria jogar vôlei de areia, e eu não jogava há muito tempo. Nós jogamos e ela disse que tinha gostado do meu estilo de jogo. Uma semana depois, tinha a convocação da UFSM para jogar o JUBs, os Jogos Universitários Brasileiros em Brasília, e isso foi meio que um convite, porque tinham 10 meninas e precisavam de mais uma. Então, eu fiquei dois meses treinando e fomos para Brasília, ficamos bem colocadas. Passou um tempo e a treinadora da seleção gaúcha masculina soube, por um amigo do meu treinador, que tinha uma deficiente auditiva que jogava vôlei com ouvintes. Assim, ela disse para eu entrar no time da seleção gaúcha para jogar as Surdolimpíadas Nacionais em São José dos Campos (SP). Na competição, estava o treinador da seleção brasileira e ele me viu. Depois disso, ele me mandou mensagens dizendo que queria me ver na seletiva da seleção. Isso foi em janeiro deste ano e logo depois fui convocada.

.TXT: Como é para você conciliar o esporte com os estudos?

Eduarda: Em função das Surdolimpíadas, eu fiquei 2 semanas longe dos estudos. Quando eu voltei para o laboratório, tinha muita informação, foi bem difícil, porque o doutorado ainda é muito novo para mim. Então, agora eu quero recuperar o ritmo dos estudos para depois voltar a treinar, porque eu penso que se é para fazer algo, tem que ser bem feito. Não quero fazer “meia boca”. Se fosse assim eu jogava vôlei com a cabeça no laboratório e ficava preocupada pensando nas coisas que teria que fazer, a maneira que eu teria que estudar.

.TXT: Qual a sensação de representar o Brasil em uma competição dessa relevância?

Eduarda: É muito incrível saber que você está ali representando o Brasil. Achei uma experiência muito legal, que eu vou levar para a vida. Só que ao mesmo tempo, foi muito exaustivo. Tinha muita pressão, muita informação nova. Mas eu pretendo continuar, tanto que, quando eu fui para lá, me chamaram para o time de handebol, para jogar o mundial na Dinamarca no ano que vem. Já no vôlei, o treinador me disse para treinar de levantadora, porque ele quer me levar para jogar as Surdolimpíadas Mundiais de 2025 no Japão.

 .TXT: Você já pensou em seguir na carreira esportiva de forma profissional?

Eduarda: Eu não sei. Realizei o meu sonho, que era servir o Brasil, e quero continuar porque é uma emoção diferente. É muito legal ver as pessoas te dando apoio, crianças pedindo foto e autógrafo, isso é legal, porque você acaba sendo uma inspiração para elas. Sendo sincera, você tem que investir muito no esporte, é uma coisa cara. Eu consegui um patrocínio para ir para as Surdolimpíadas para pagar o funcional, nutricionista, comprar tênis, roupa, foi muito caro. No fim, o esporte precisa de muito investimento para dar um retorno, a Veterinária eu sei que vai me dar um retorno futuramente. 

.TXT: Quais são as suas maiores inspirações?

Eduarda: As pessoas que eu mais me inspiro na vida são os meus pais. Minha mãe, porque, se não fosse por ela, eu não estaria aqui falando. Deram o diagnóstico para a minha mãe dizendo que eu não ia falar, que era para fazer libras, mas a minha mãe botou na cabeça que eu ia falar sim e fiquei fazendo fono durante 15 anos. O meu pai também, porque ele sempre foi muito trabalhador, pensando no melhor a se fazer por nós, pensando sempre na frente.

.TXT: Quanto ao seu futuro, você já tem planos?

Eduarda: Eu sempre pensei em ter uma empresa própria e em prestar concurso, mas também já pensei em trabalhar com o meu pai na lavoura dele. Mas eu pensava isso antes de fazer o doutorado, quando entrei aqui, comecei a gostar de ensinar e dar aulas. Então, quem sabe eu não sigo como professora? Eu tenho um certo receio por causa da minha deficiência, mas por que não? Eu falo de concurso e de empresa própria, mas no fundo sinto que eu quero ser professora.

Reportagem: Antonio Oliveira e Kauã Mello

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