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Pisar mais leve sobre a Terra: os jovens que estão tirando a carne dos pratos



Atualmente, com o agravamento das mudanças climáticas e a degradação da natureza, a adoção de dietas vegetarianas, principalmente entre os jovens, tem sido uma escolha significativa para a sustentabilidade ambiental, sendo uma alternativa frequentemente incentivada que pode ajudar a reduzir os danos ambientais. Mas o que envolve essa escolha?

O vegetarianismo é caracterizado pela exclusão da carne da alimentação, mas possui diferentes vertentes. Veja as características de cada uma:

  •  Ovolactovegetarianismo permite o consumo de ovos, leite e derivados; 
  •  Ovovegetarianismo exclui o leite, mas mantém os ovos; 
  • Vegetarianismo estrito exclui todos os produtos de origem animal da alimentação. 
  • Veganismo vai além da alimentação e propõe a exclusão de produtos de origem animal também em outros aspectos do consumo, como roupas e cosméticos. 

Apesar das diferenças entre essas práticas, todas têm em comum a eliminação do consumo de carne, que é um dos pontos centrais nos debates ambientais atuais e que envolve diferentes dimensões. Além dos impactos ambientais da pecuária, o setor possui forte relevância econômica e cultural no país,  especialmente aqui na região Sul, onde o churrasco gaúcho ocupa um lugar simbólico na identidade regional. Portanto, é preciso entender esse contexto e pensar de que forma é possível habitar o planeta pisando de forma mais leve sobre a terra, como diz o filósofo Ailton Krenak.

Pecuária e impactos ambientais

A pecuária está entre as atividades que mais contribuem para a emissão de gases de efeito estufa, principalmente o metano produzido durante o processo digestivo dos bovinos. De acordo com o estudo “Jovens & Mudança: guia sobre mudança climática e estilos de vida”, publicado em 2018 pela UNESCO e ONU Meio Ambiente, a agricultura representa cerca de 12% das emissões globais de gases de efeito estufa, isso porque o metano emitido pelos animais ruminantes possui elevado potencial de retenção de calor na atmosfera, contribuindo para o agravamento do aquecimento global. O documento também destaca que hábitos de consumo e alimentação possuem relação direta com os impactos ambientais e com o agravamento das mudanças climáticas. Somado a isso,  a atividade também está relacionada ao uso intensivo de recursos naturais. 

A expansão da pecuária também aparece entre as principais causas do desmatamento na Amazônia. Dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES) mostram que milhares de quilômetros quadrados da floresta já foram convertidos em áreas de pastagem, o que reduz a capacidade da  natureza de absorver  carbono e liberando ainda mais poluentes na atmosfera.

Outro fator frequentemente apontado por especialistas é o alto consumo de água relacionado à produção de carne. Enquanto a produção de 1 kg de carne bovina pode consumir cerca de 15 mil litros de água, alimentos vegetais como cenoura e batata exigem volumes significativamente menores, cerca de 322 litros por quilo produzido.

A discussão sobre redução do consumo de carne também aparece em estudos sobre hábitos individuais. Dados da Sociedade Vegetariana Brasileira indicam que apenas um dia sem carne pode conservar 24 metros quadrados de terra, poupar oito quilos de grãos, economizar 60 litros de água doce e evitar a emissão de 11 quilos de gás carbônico.

 Impactos sociais e econômicos da produção de carne no Brasil

Ao mesmo tempo em que enfrenta críticas pelos impactos ambientais, a pecuária possui forte peso econômico no Brasil. O país está entre os maiores produtores e exportadores de carne bovina do mundo, movimentando bilhões de reais e gerando empregos em diferentes setores da cadeia produtiva, como frigoríficos, transporte, agricultura e comércio.

No Rio Grande do Sul, a atividade também possui relevância histórica e econômica. Em diversas cidades, a pecuária faz parte da formação social da região e está diretamente ligada ao desenvolvimento rural.

Por isso, o crescimento do vegetarianismo levanta debates que vão além da alimentação. Mudanças nos hábitos de consumo também podem impactar setores econômicos importantes, principalmente em regiões onde a produção de carne possui forte presença.

Por outro lado, especialistas apontam que o crescimento do mercado de produtos vegetais pode abrir novas oportunidades econômicas. O aumento da demanda mundial por produtos considerados sustentáveis tem incentivado empresas e produtores a investirem em alternativas vegetais e na diversificação da produção alimentícia.

Além das questões ambientais e econômicas, a questão social envolvida na produção de carne está altamente ligada a práticas desumanas, como o trabalho escravo. Apesar da JBS empregar muitas pessoas e ser uma das maiores empresas do setor, o trabalho escravo continua sendo um problema grave dentro da cadeia produtiva de carne.  De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil é um dos países com maiores índices de trabalho escravo nas fazendas de produção de carne, como exemplificado pelo caso da fazenda Curuá, em Altamira, propriedade de Antônio José Junqueira Vilela Filho e sua família, onde foram reveladas práticas de exploração de trabalhadores,  a revelação foi feita por investigação da Repórter Brasil em parceria com o jornal britânico The Guardian. Documentos do inquérito indicam que a JBS, uma das maiores empresas do setor, comprou gado da fazenda, evidenciando como grandes corporações podem estar conectadas a violações de direitos humanos. 

Além disso, de acordo com os dados obtidos de um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a produção de carne paradoxalmente contribui para a insegurança alimentar de muitas pessoas, já que metade de toda a proteína vegetal gerada globalmente é utilizada como ração animal. No Brasil, essa situação é ainda mais crítica, com 79% da proteína sendo convertida em ração e apenas 16% destinada ao consumo humano. Ao manter esse sistema que prioriza o consumo de carne em vez do uso direto das proteínas vegetais, perpetua um ciclo de desigualdade e desumanização.

Impactos da dieta vegetariana

A transição para dietas com menos carne e mais vegetais pode reduzir as emissões em até 61%, segundo um estudo da revista científica Nature Food. Além de emitir menos gases de efeito estufa, a produção de vegetais também consome menos água: enquanto são necessários cerca de 15 mil litros de água para produzir 1 kg de carne bovina, apenas 322 litros são suficientes para 1 kg de vegetais como cenoura ou batata, o que torna a adoção de uma dieta vegetariana uma escolha ambientalmente sustentável.

Ao analisar o contexto econômico brasileiro, percebe-se que as exportações de carne têm grande influência. No entanto, o aumento da demanda mundial por produtos vegetais abre novas oportunidades, especialmente em mercados que valorizam a sustentabilidade. Nesse sentido, investir na diversificação das exportações, ampliando a oferta de produtos além do setor da carne, seria uma alternativa estratégica para reduzir a dependência de um único setor e fortalecer a economia do país.

Um estudo publicado em 2026 na revista “Current Developments in Nutrition” apontou que a adoção de uma dieta vegana com baixo teor de gordura reduziu em 55% as emissões de gases de efeito estufa relacionadas à alimentação em apenas 12 semanas. A pesquisa também identificou redução de 44% na demanda energética ligada à produção de alimentos.

Segundo os pesquisadores, os resultados ocorreram principalmente pela eliminação da carne e dos laticínios, considerados alguns dos componentes alimentares com maior impacto ambiental. Hana Kahleova, médica e diretora de pesquisa clínica do Physicians Committee for Responsible Medicine, afirmou no estudo publicado que “este não é um modelo teórico ou uma projeção. São dados reais de ensaios clínicos que mostram que mudar o que comemos pode reduzir de forma rápida e significativa o impacto ambiental”.

Os dados da Sociedade Vegetariana Brasileira são impressionantes e revelam o potencial transformador de pequenas mudanças em nossos hábitos. Ao considerarmos que apenas um dia sem carne pode conservar 24 metros quadrados de terra, poupar oito quilos de grãos, economizar 60 litros de água doce e evitar a emissão de 11 quilos de gás carbônico, fica claro que as ações individuais têm um impacto coletivo significativo. Se cada pessoa adotasse essa prática uma vez por semana, estaríamos falando de uma redução massiva no uso de recursos naturais e na emissão de poluentes, contribuindo para um planeta mais saudável.  

 

Confira mais informações no infográfico abaixo:

O peso da tradição e os caminhos da mudança 

No Sul do país, o consumo de carne também está relacionado à cultura e à convivência social. O churrasco gaúcho, tradicionalmente associado a encontros familiares, comemorações e rodas de conversa, é considerado um símbolo da identidade regional.

Nesse contexto, mudanças alimentares podem impactar não apenas a rotina, mas também as relações sociais e os espaços de convivência. Para muitos jovens vegetarianos, reduzir ou deixar de consumir carne significa adaptar hábitos construídos desde a infância em uma cultura fortemente marcada pelo churrasco e pelo consumo de carne.

“Eu comecei a pensar mais sobre isso depois das discussões sobre mudanças climáticas, mas é difícil porque o churrasco sempre esteve presente na minha vida”, relata o estudante de jornalismo da UFSM, Lorenzo Coletto.

Segundo o Relatório da Força-Tarefa de Marraquexe sobre Estilos de Vida Sustentáveis, “um estilo de vida sustentável significa repensar nossos modos de vida, a forma como compramos e como organizamos nossa vida quotidiana”, além de transformar hábitos relacionados à alimentação, consumo e convivência social.

Em meio ao avanço das discussões sobre sustentabilidade, o crescimento do vegetarianismo entre jovens brasileiros evidencia um debate que vai além da alimentação. Questões ambientais, econômicas, culturais e sociais passam a fazer parte das reflexões sobre hábitos de consumo, modos de vida e os desafios de construir práticas mais sustentáveis sem ignorar as particularidades culturais de cada região.

Para saber mais, acesse as fontes consultadas para essa reportagem:

https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000266237

https://www.ecodebate.com.br/2026/05/04/dieta-a-base-de-plantas-reduz-o-impacto-climatico-em-mais-da-metade/ 

https://veja.abril.com.br/agenda-verde/alimentacao-verde-salva-vidas-reduz-emissoes-carne-laticinios/ 

https://reporterbrasil.org.br/2017/06/jbs-comprou-de-fazendas-flagradas-com-trabalho-escravo-e-desmatamento-ilegal/

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