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Raízes no entulho: justiça climática, racismo ambiental e a lírica de Jotapê



A ideia de uma flor brotar no lixo carrega uma contradição fundante: a vida que insiste em romper o que a sociedade descartou. Lançada em 2023, a faixa Jardim das Flores, de Jotapê, parte dessa tensão para traçar uma narrativa autobiográfica em que elementos naturais, sementes, raízes, espinhos e nascentes não operam como meros adornos poéticos, mas como metáforas das condições materiais e territoriais que moldam a juventude periférica. Ao afirmar que viu “nascer cada flor do meu jardim” em meio aos espinhos, o artista celebra a própria trajetória sem apagar as cicatrizes de sua origem, recusando a ilusão de que o passado deve ser esquecido para que o sucesso aconteça.

Contudo, a potência da obra exige uma leitura para além da exaltação individual. A armadilha do discurso meritocrático costuma transformar trajetórias vitoriosas em justificativa para a inércia social: se um indivíduo venceu, presume-se que bastaria esforço para os demais. Trata-se de uma falácia. A oportunidade de florescer não depende apenas de talento; é preciso um solo fértil.  Em termos sociopolíticos e ambientais, esse solo é profundamente desigual. A desigualdade ambiental não ocorre no vazio; como apontam Acselrad, Mello e Bezerra (2009), a exposição aos riscos e à precariedade é distribuída de forma assimétrica. O lixo e a escassez de infraestrutura ecológica têm endereço e cor.

Nesse horizonte, a crítica toca diretamente no racismo ambiental (HERCULANO, 2008). Territórios periféricos historicamente concentram a ausência de áreas verdes, o saneamento precário e a maior vulnerabilidade aos eventos climáticos extremos (MILANEZ; FONSECA, 2011). Dizer que “até no lixão nascem flores” expõe a resiliência dos sujeitos, mas também denuncia a perversidade de uma ordem urbana que naturaliza a existência de locais tratados como descartáveis. Meio ambiente e justiça climática não dizem respeito apenas a biomas distantes, mas à dignidade da rua, à segurança habitacional e ao direito básico ao bem-viver.

É nessa interface que Jardim das Flores consolida seu valor educomunicativo. Ao tomar o rap como espaço de autoexpressão e denúncia, Jotapê exerce o direito à comunicação, rompendo com as narrativas hegemônicas que retratam a periferia exclusivamente pela via da carência ou da violência. A música opera como um ecossistema dialógico (SOARES, 2011; FREIRE, 1996), funcionando como disparadora pedagógica: parte-se da sensibilidade estética e da vivência territorial para se alcançar o debate conceitual sobre justiça climática.

A vitória de Jotapê é legítima e necessária como ato de resistência. No entanto, uma sociedade pautada pela justiça socioambiental não pode exigir o heroísmo de indivíduos excepcionais para justificar o abandono da maioria. 

A reflexão final que a obra impõe não é   celebrar a flor que sobreviveu aos espinhos, mas questionar por que o solo periférico continua sendo submetido ao lixo e à negligência estrutural.

Por Welitom Vargas | Bolsista PET Educom Clima

Fontes:

ACSELRAD, Henri; MELLO, Cecília Campello do A.; BEZERRA, Gustavo das Neves. O que é justiça ambiental. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

HERCULANO, Selene. O clamor por justiça ambiental e o combate ao racismo ambiental. Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente, v. 3, n. 1, 2008.

JOTAPÊ. Jardim das Flores. Produção musical independente / Plataformas de streaming, 2023.

MILANEZ, Bruno; FONSECA, Igor Ferraz. Justiça climática e eventos climáticos extremos: uma análise da percepção social no Brasil. Terceiro Incluído, Goiânia, v. 1, n. 2, p. 80-100, 2011.

SOARES, Ismar de Oliveira. Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação. São Paulo: Paulinas, 2011.

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