Promover o envelhecimento saudável foi o objetivo que guiou o projeto Feliz(c)idade ao longo dos dois anos de execução do PROEXT-PG UFSM Além do Arco. Coordenado pelos professores Gustavo Duarte e Melissa Braz, a iniciativa reuniu idosos, estudantes e docentes de diferentes áreas em ações voltadas à saúde e ao bem-estar.
O projeto promoveu uma atuação interdisciplinar que integrou Educação Física, Terapia Ocupacional, Fisioterapia e Nutrição em atividades de ginástica, fortalecimento muscular, equilíbrio, dança, estimulação cognitiva, educação alimentar e práticas integrativas.
Sob coordenação de Gustavo Duarte, os grupos Corpo Mais e Dança Mais reuniram dezenas de participantes em atividades semanais voltadas à promoção da saúde e à convivência. Já as ações coordenadas por Melissa Braz levaram atividades a idosos residentes na Vila Itagiba, instituição de longa permanência para pessoas idosas, e ao grupo Renascer, formado por mulheres que passaram pelo tratamento do câncer de mama.

A iniciativa também manteve parcerias com grupos da comunidade, como o Mexe Coração. Ao longo do projeto, dezenas de idosos participaram das atividades desenvolvidas dentro e fora da Universidade, enquanto docentes e estudantes construíram ações integradas de ensino, pesquisa e extensão voltadas ao envelhecimento.
Com o encerramento do ciclo de dois anos do PROEXT-PG, o professor Gustavo Duarte, do Centro de Educação Física e Desportos (CEFD), faz um balanço dos resultados alcançados pelo projeto, dos aprendizados construídos ao lado dos participantes e do que a experiência revelou sobre envelhecimento, convivência e combate à solidão.
Além do Arco — Depois desse período de atuação, o que vocês aprenderam sobre as principais necessidades das pessoas idosas de Santa Maria?
Gustavo Duarte— Muitas coisas. Ainda há muita coisa para fazer, desde a acessibilidade dentro da Universidade e da cidade. Não há calçadas e adaptações suficientes para a população idosa. A gente está tentando buscar o selo de Cidade Amiga do Idoso, da Organização Mundial da Saúde. Rio Grande e Pelotas já têm, por exemplo. A ideia é construir, junto à prefeitura e outros parceiros, uma comissão para discutir o que Santa Maria precisa avançar nessa área.
O que a cidade pode fazer? Uma praça para idosos, um centro de referência, um centro-dia. O centro-dia é uma unidade pública destinada ao atendimento especializado de pessoas idosas durante o dia. É uma alternativa para quem precisa de acompanhamento, mas não necessita de institucionalização. Hoje nós não temos esse serviço em Santa Maria.
Também faltam locais públicos acessíveis, centros de convivência e mais profissionais preparados para trabalhar com o envelhecimento. Muitos idosos estão sozinhos, precisam de cuidadores e apoio. Eles vêm aos projetos, mas o nosso funciona apenas alguns dias da semana. E nos outros dias? Quem cuida do idoso? Então isso precisa ser pensado como política pública.
Além do Arco — E para além dessas questões estruturais, o que mais chamou a atenção de vocês durante o projeto?
Gustavo Duarte— O que mais nos chamou atenção foi a questão da saúde mental. A maioria dos idosos participa de três ou quatro grupos, mas ainda assim enfrenta muita solidão e depressão. Eles chegam antes das atividades e vão embora depois porque querem conversar.
A gente está tentando ampliar atividades como sessões de cinema e rodas de conversa. Não só para fazer exercício. Vamos sentar, conversar e falar da vida. O idoso precisa conversar, precisa de abraço além da ginástica e da dança. Precisa de escuta sensível. Muitos estão sozinhos em casa. São viúvos, casais longevos, mulheres que vivem sozinhas. Muitas vezes a família não tem tempo de acompanhar, no máximo nos fins de semana.
Então, realmente, a solidão e a depressão aparecem muito. Foi um aprendizado importante para nós. A gente trabalhou toda a questão da saúde, mas percebeu que é preciso olhar também para a dimensão psicossocial, para os encontros, para a convivência e para as redes de apoio. Eles precisam dessa rede, desse suporte, que é o que a extensão faz há muito tempo e que, depois da pandemia, se tornou ainda mais necessário.

Além do Arco — Houve algum resultado que surpreendeu vocês ao longo do projeto?
Gustavo Duarte— Os homens continuaram e ficaram. A gente tinha só dois homens no projeto, agora a gente já tem acho que cinco ou seis. As próprias mulheres trazem os amigos viúvos, além dos companheiros. Outra coisa é que, além do nosso grupo, os idosos estão se encontrando fora. Domingo vão tomar chimarrão na Medianeira ou no Parque Itaimbé. Já foi um desdobramento do nosso projeto.
Além do Arco — Existe alguma história que represente bem o que vocês construíram nesses dois anos?
Gustavo Duarte— Tem a dona Fausta. Ela tem 88 anos e não falta às quartas-feiras. Ela pega um ônibus ou dois lá da Tancredo Neves, Santa Marta, daquela região, para chegar. Ela faz ginástica, ela faz dança, mora sozinha, é autônoma, tá em outros grupos também. Ela faz questão de dizer que já começou lá nos anos 1990 com o professor Juca [José Francisco Silva Dias, docente aposentado da UFSM que fundou o NIEaTI (Núcleo Integrado de Estudos e Apoio à Terceira Idade)]. Ela nunca reclama. A gente esquece que ela tem 88 anos.
Também tem um grupo de professoras aposentadas que estão na ginástica e na dança. Elas têm uma relação a partir do grupo. Vão no cinema, vão no teatro, fazem o figurino da dança. Agora duas delas vão a Joinville conosco para assistir ao Festival Internacional de Dança. É uma oportunidade que pode abrir a cabeça, apresentar outro mundo pra elas.
Além do Arco — Você atua diretamente com atividades de dança. O que a dança proporciona para esse público além do exercício físico?

Gustavo Duarte— Toda atividade física é importante. Mas o que a dança proporciona, só ela proporciona. Ao mesmo tempo trabalha ritmo, coordenação, afetividade, musicalidade e novas conexões no cérebro. Porque é muita informação junto. Não é nem dupla tarefa, é tripla tarefa. São várias coisas ao mesmo tempo que uma simples coreografia trabalha no corpo e no cérebro: a coreografia tem que encaixar na música, interpretar um papel, ainda tem que segurar um objeto, né? Porque elas dançam com lenço, com sombrinha, com leque espanhol, com chapéu… É a percepção do espaço, do tempo, do ritmo.
E as aulas não param às quartas-feiras. Como a gente tem um grupo do WhatsApp, a gente filma a coreografia e posta lá. Eu também coloco coisas do Festival de Dança Joinville, de balé, de Flamenco. É muito mais do que dançar. É o antes da dança e o depois. A dança não acaba só no corpo, tem um estudo teórico do grupo de dança. A gente está estudando os feminismos agora. Estamos fazendo a coreografia da história das mulheres, começamos com Gal, vai ter Elis Regina, Rita Lee… E eu não decido nada sozinho, elas estão implicadas no processo junto.
Além do Arco — E qual foi o impacto do projeto para os estudantes envolvidos?
Gustavo Duarte— Eu tenho duas ou três mestrandas que nunca tinham trabalhado com idosos. Muitas delas estão colocando questões de gênero agora que não estavam presentes nos trabalhos sobre envelhecimento. O projeto delas de mestrado mudou e se qualificou a partir desse trabalho de campo, do que elas viram no Corpo Mais, no Dança Mais e nas outras ações do Feliz(c)idade.
Os mestrandos que passaram pelos projetos nesses dois anos ficaram mais apaixonados pelo envelhecimento. Muitos mudaram o foco das pesquisas a partir das questões que encontraram nos grupos.
Além do Arco — E pessoalmente, como essa experiência transformou você?
Gustavo Duarte — É aquilo que não cabe no Lattes, que não tem como pontuar, né? Me transformou tanto como ser humano quanto como profissional. Fazer as coisas com mais calma, com paciência, com mais emoção, com mais afetividade, com mais significado. Como professor, dentro da sala de aula, me ajudou a planejar melhor minhas aulas, e como pesquisador também, porque há múltiplas velhices, não é só um envelhecimento.
Além do Arco — O projeto está chegando ao fim. O que vem pela frente?
Gustavo Duarte — Eu acho que é o evento Feliz(c)idade. Era uma demanda que todos queriam. A gente veio do Acampavida, que começou com o professor Juca e o professor Marco [Aurelio Acosta, referência em Gerontologia). A gente fez duas edições do Feliz(c)idade e a terceira vai ficar para novembro ou dezembro. Agora já tem os grupos parceiros, entrou no calendário da UFSM. Cada vez mais professores querem dar oficinas. Então vamos ocupar uma lacuna muito grande que existia, retomando esse encontro com outra roupagem, outra cara.
Reportagem: Luciane Treulieb, jornalista
Fotografias: Projeto Feli(z)cidade