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‘Não adianta o conhecimento ficar no artigo científico, no capítulo de livro. Ele tem que chegar no produtor e no técnico’

Gustavo Brunetto comenta ações e resultados de projeto da UFSM na Serra Gaúcha



Desde 2025, um grupo de pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo (PPGCS) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) se desloca até a Serra Gaúcha para estudar os solos de vinhedos e pomares de pessegueiros que foram atingidos pelas enchentes de 2024. O projeto, no entanto, não é a única motivação da presença do Grupo de Estudos de Predição de Adubação e Potencial de Contaminação de Elementos em Solos (Gepaces). O Gepaces já atua há cerca de 20 anos com extensão na região. 

 

Nomeado ‘Diagnóstico da aptidão agrícola das terras e fertilidade do solo em áreas agrícolas atingidas por desastres climáticos’, o projeto é vinculado ao Programa de Extensão da Educação Superior na Pós-Graduação (PROEXT-PG). Com a proximidade do encerramento do ciclo de dois anos dos projetos, o professor e coordenador Gustavo Brunetto comenta as ações e resultados obtidos.

Além do Arco: Quais foram as ações do projeto realizadas até o momento?

Gustavo Brunetto: A primeira etapa foi justamente diagnosticar as propriedades atingidas. Nós selecionamos propriedades que trabalham com videira e pessegueiro em alguns municípios da Serra. Nós coletamos amostras de solo nessas áreas, que foram selecionadas com a interação com o setor privado. Houve a participação de algumas cooperativas que produzem fruta e vinho na Serra, a Emater e as secretarias da agricultura também participaram. Então, foram escolhidas aquelas propriedades que mais foram atingidas, que tiveram muita perda de solo, perda de água, perda de nutriente e plantas. Inclusive algumas famílias até tiveram danos maiores. No segundo momento, depois da seleção, nós fomos ao campo e desenvolvemos uma metodologia de amostragem de solo para essas áreas que foram muito afetadas, porque normalmente a amostragem de solo a gente coleta em um cenário que não foi danificado por causa do excesso de chuva. Ali o solo foi movimentado. Foram metros de solo acumulados em alguns locais e em outros a perda de solo foi muito grande. Então, nós, primeiro, desenvolvemos uma metodologia para termos confiabilidade nos resultados e depois nós coletamos essas amostras de solo. Elas foram levadas para o laboratório e nós analisamos os elementos químicos. E, aí, nós conseguimos obter os resultados.

 

Além do Arco: Pode citar os principais resultados?

Gustavo Brunetto: Esses resultados foram organizados e submetidos à análise estatística e nós chegamos à conclusão de quais elementos foram mais perdidos [no solo], por exemplo, o fósforo e a matéria orgânica. Em vários momentos, esses resultados retornaram para o setor produtivo. Era um acordo que nós tínhamos. Então, por exemplo, em várias palestras, esses resultados foram apresentados para a Emater, para os associados, os produtores e os técnicos vinculados à cooperativa em toda a Serra Gaúcha, e aos estudantes. No ano passado, nós fomos convidados pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul para participar de um evento regional onde demonstramos que nós, da UFSM, fomos a primeira instituição pública a fazer um trabalho nessa área.

A primeira instituição que deu o start depois de todo aquele acontecido foi a UFSM. Por quê? Porque nós já estávamos há 20 anos ali, trabalhando na Serra. 

 

Nós tínhamos expertise do que fazer, porque nós estamos num programa conceito 7, então o nosso curso é de excelência, o melhor programa de pós-graduação da região Sul. Então, automaticamente, sabendo o que tem que fazer, nós fomos convidados e nós fizemos.

Vinhedos na Serra Gaúcha.

Além do Arco: O que veio depois do diagnóstico e da análise dos solos degradados?

Gustavo Brunetto: Numa segunda etapa, e por isso que fomos adquirindo outros recursos [de um edital da FAPERGS], para impulsionar esse trabalho, nós coletamos os solos dessas áreas com diferentes níveis de degradação. Esse solo veio para Santa Maria e agora nós estamos fazendo cultivos em casas de vegetação para verificar, por exemplo, se as estratégias que acreditamos que podem ser utilizadas para recuperar o solo funcionam. Por exemplo, a aplicação de resíduos orgânicos, ou seja, materiais derivados de animais, que têm carbono. Carbono no solo forma matéria orgânica. Estamos verificando se esses materiais podem ajudar a aumentar o teor de matéria orgânica no solo, mas também se o uso de plantas de cobertura é uma estratégia para aumentar o teor de carbono. 

Nós estamos criando um cenário em condição controlada, com solos em diferentes níveis de degradação, testando o que nós podemos fazer, com estratégias agronomicamente já aceitas e conhecidas, para ajudar a recuperar esse solo. Isso é um screen inicial, um estudo inicial que a gente sempre faz em casa de vegetação, porque o solo foge de um padrão normal. 

Estes resultados [de análises] são feitos em parceria com o Programa de Pós-graduação em Agrobiologia e com o Programa de Pós-graduação em Química, que participam da proposta. A ideia é levarmos esse resultado para os técnicos e produtores, que é um dos objetivos dentro dessa ideia da extensão. E se nós captarmos mais recursos, a outra ação que vamos fazer é instalar campo, ensaios, áreas demonstrativas com produtores nas áreas que tiveram a perda de solo, para verificar se realmente aquilo que aparece como melhores estratégias para recuperar o solo em ambiente controlado aqui na UFSM, em casa de vegetação, se elas podem ser reproduzidas no campo.

 

Além do Arco: Qual é a importância de entender o nível de carbono no solo?

Gustavo Brunetto: Nós aproveitamos o monitoramento das áreas degradadas e ampliamos, estamos monitorando outras áreas que tiveram índices menores de degradação de perda de solo. Estamos avaliando o estoque de carbono, ou seja, a concentração de carbono que tem no solo, a quantidade acumulada de carbono e tentando explicar quais são as práticas que já são feitas pelo produtor que mais promovem o acúmulo. O carbono é uma possibilidade de agregar o solo para se estruturar melhor. E isso ajuda na infiltração de água. No período que chover mais, se tu tem um solo que tem a capacidade de infiltrar mais água, menos água vai ser escoada, menos nutriente vai ser perdido e menos solo vai ser perdido.

Nós estamos fazendo, talvez, o maior diagnóstico na Serra Gaúcha já feito até hoje. 

Ele é feito há mais de um ano, isso é importante destacar. Há mais de um ano nós estamos verificando se, por exemplo, o uso de planta de cobertura aumenta o teor de carbono em uma área que nunca teve planta de cobertura para proteger o solo entre vinhedos ou frutíferas. Se a planta de cobertura mostrar que tem essa potencialidade, nós vamos poder ter garantia de dizer: ‘Olha, se o produtor utilizar plantas de cobertura durante vários anos, ele vai ter uma porta de carbono no solo e automaticamente você vai ter um solo que tem condição de infiltrar mais água e perder menos’. Por outro lado, se o produtor nunca utilizar plantas de cobertura, ele vai ter menos carbono e se acontecerem chuvas intensas, maiores serão as perdas.

 

Além do Arco: Qual é a importância disso para o produtor?

Gustavo Brunetto: Hoje, certamente, o nosso grupo de pesquisa é um dos que tem contribuído muito para gerar conhecimento nessas áreas de agricultura familiar que dependem da fruticultura. Nós estamos falando de uma das regiões que mais produz frutas no Brasil e que mais produz hortaliças no Rio Grande do Sul. Então nós estamos falando de produção de alimentos. É alimento no prato, não é alimento que às vezes é destinado ao mercado externo, não, isso aqui é circulação de dinheiro interno. Então, ajudando essas propriedades, nós estamos ajudando toda a população, seja regional, estadual, também municipal e nacional, porque estamos falando de alimentos que são consumidos diariamente, no café da manhã, almoço e janta. E destaco que sempre foi um trabalho em colaboração, com as cooperativas, associação de produtores, empresa de extensão privada e pública. A gente sempre divulga, porque não adianta gerar o conhecimento se você não faz essa divulgação. Então a gente tem essa preocupação, levando a marca da Universidade para fora dos muros, para a sociedade entender que é importante ter pesquisa. E ela tem uma aplicabilidade, soluciona o problema deles, da sociedade, bota dinheiro no bolso dos produtores, que isso aí também é importante.

Professor Gustavo Brunetto, coordenador do projeto.

Além do Arco: De onde vem a preocupação de vocês para que o conhecimento produzido pela pesquisa chegue aos produtores e demais públicos que podem se beneficiar dele? 

Gustavo Brunetto: Essa preocupação surgiu por causa da minha história, porque eu sou filho de pequeno produtor. Eu sempre trabalhei com fruticultura, agricultura. E eu observava que, quando meu pai trabalhava, nós tínhamos deficiência ou necessidade de mais conhecimento técnico. Mas aí tem algumas coisas que são fundamentais.

Primeiro é ter conhecimento técnico. Quem gera o conhecimento é o pesquisador. Por isso que hoje eu sou o pesquisador. Segundo, não adianta o conhecimento ficar no artigo científico, no capítulo de livro. Ele tem que chegar no produtor e no técnico. 

Por isso que nós temos a preocupação de fazer extensão. Por isso que nós também aprovamos esse projeto, porque a gente tem histórico de fazer extensão. Nós não começamos a fazer extensão por causa do projeto por causa do edital. Já são mais de 20 anos fazendo isso. Geramos o resultado e levamos para o produtor por diferentes canais: dia de campo, palestra, workshop, nivelamento técnico dos técnicos. E eu vou te dizer que as pessoas que participam de todas essas ações recebem muito bem tudo o que a gente fala. Por quê? Primeiro, porque elas sentem que a universidade, os professores e os alunos estão engajados e preocupados em solucionar problemas reais, que são do dia a dia, que geram dificuldade econômica para o produtor. Segundo, eles verificam que aquilo que nós estamos propondo melhora o solo dele, produz mais e ele ganha dinheiro. Porque também não adianta melhorar e ele não ganhar dinheiro, aí a gente não convence ele. E a preocupação, além de tudo isso, é formar pessoas de qualidade. Temos uma preocupação muito grande de formar bons alunos de iniciação científica, excelentes mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos. E para a pessoa também estar bem formada ela precisa conhecer a realidade. Então esse projeto também é uma oportunidade do aluno estar em contato com a realidade e entender que aquilo que ele está estudando é importante. Isso motiva o aluno. Ele não pode ficar só dentro da universidade, ele tem que ter oportunidades de frequentar outros ambientes. Conversar com o produtor, conversar com o técnico, voltar para dentro da universidade, repensar se aquilo que ele está fazendo como pesquisa é adequado, se precisa algum ajuste. Isso aí é fundamental para a formação do bom profissional.

 

Além do Arco: Durante toda a execução do projeto foi possível perceber a preocupação de vocês com a comunicação científica e com a divulgação científica. Qual é a importância dessas ações em conjunto com a pesquisa e a extensão?

Gustavo Brunetto: Todos os conhecimentos e os resultados que nós geramos tentamos publicar em boas revistas nacionais e internacionais. Por quê? Porque estamos em um programa de pós-graduação e é necessário mostrar pra comunidade científica que estamos publicando. Além disso, nós sempre publicamos os resultados em livros e capítulos de livros. 

Somado a isso, nós temos publicado informes e comunicados técnicos, que são materiais com uma linguagem mais simples, para o técnico e produtor. Temos várias cartilhas da amostragem de solo, amostragem de tecido, tudo nesse contexto para avaliar se o solo foi mais ou menos degradado, o que que precisa ser feito. E também, o nosso grupo Gepaces tá online, né? Nós estamos agora esperando para lançar um site, que vai ser também um local para alimentar com material técnico gerado pelo nosso grupo e os parceiros. É uma quantidade enorme, por quê? Como o nosso grupo tem um respeito muito grande fora da Universidade Federal de Santa Maria, frequentemente somos contatados para fornecer esses capítulos de livros, livros, resumos, ir nos eventos. Então, nós vamos colocar todos esses materiais de 20 anos de pesquisa, que é uma quantidade enorme, dentro do site. E gratuitamente para o produtor e o técnico poderem acessar. E para fechar isso, é um outro movimento que nós fizemos sempre uma vez por ano, eu também ministro uma disciplina no curso de EAD do Técnico em Fruticultura, no Politécnico. São pessoas que já trabalham e que buscam o EAD em fruticultura para se especializar no tema adubação e nutrição de frutíferas. Às vezes, em um semestre, você tem 60 alunos que já estão no campo, eles recebem esse conhecimento e já estão utilizando. Também ministro aulas aqui no Programa de Pós-graduação em Ciência do Solo e no Programa de Vitivinicultura e Enologia, que a gente compartilha essas informações. Então, verifica que nós temos canais que, às vezes, são materiais impressos e ou via e-book, material digital. Às vezes, são contatos face com face, que a gente conversa com os interessados. Também utilizamos outros canais de mídias, por exemplo, o Instagram do nosso do grupo tem mais de 5 mil  seguidores, é muito ativo. E além disso, os canais clássicos, muita entrevista em rádio e televisão, isso é frequente. Então a gente tenta ter essa amplitude de estratégias de divulgação.

 

Além do Arco: Você comentou um pouco sobre a sua relação com a pesquisa e com a preocupação de converter o conhecimento produzido para os produtores. Qual é a tua percepção pessoal como professor, como pesquisador, como filho de pequenos agricultores, com os resultados alcançados no projeto e, consequentemente, a diferença que vocês conseguem fazer na vida desses produtores?

Gustavo Brunetto: Primeiro: os resultados obtidos são de qualidade, porque a gente tem um rigor metodológico no campo e no laboratório muito grandes. Então todos os resultados são confiáveis, seguindo metodologias. Isso é importante. Além disso, os resultados estão chegando ao usuário. Isso também é fundamental. Chegar pelas nossas ações, mas também pelas ações dos parceiros, cooperativas, que têm nos ajudado muito a mobilizar os produtores e mesmo os colegas da extensão, do privado, do público, que mobilizam, chamam. Então às vezes você tem um evento que tem 60, 100, 150 pessoas mobilizadas, e a gente vai lá e divulga as informações. E somado a tudo isso é muito gratificante escutar os relatos dos produtores. Eles sentem que alguém está preocupado com ele. E no nosso caso aqui, nós estamos preocupados, os pesquisadores e os alunos.

O produtor agradece o fato de os resultados melhorarem e fazerem com que ele permaneça na sua propriedade. 

Se você não tem o mínimo de apoio científico, o camarada às vezes começa a se desanimar, começa a diminuir a sua lucratividade e ele sai da atividade agrícola, o que não é o nosso desejo. Então, os relatos são muito positivos, seja lá na casa do produtor, seja nos eventos que nós temos feito.

 

Além do Arco: Por último, professor, queria saber se tem algo que não te perguntei mas que acha importante acrescentar?

Gustavo Brunetto: Conseguimos fazer o projeto em virtude da colaboração público-privada. Eu sou um defensor árduo disso, que a Universidade tem que conversar com o setor da extensão, com o setor da inovação, com o setor público fora outras instituições públicas, mas também com o setor privado. Então esse projeto deu certo porque tivemos o apoio de várias instituições e dentro de cada instituição pública e privada. Nós temos bons parceiros que também se esforçaram e destaco também o engajamento dos alunos. Porque se não fosse o engajamento dos alunos, não teria como fazer e termos sucesso. Alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado vestiram a camisa e fizeram com maestria aquilo que a gente tinha proposto no projeto. Por isso que eles também estão contentes com os resultados e com os feedbacks.

Expediente:

Entrevista: Samara Wobeto, jornalista volunt´ária

Edição: Luciane Treulieb, jornalista

Imagens: Marcos Oliveira

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