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Afago no hospital

Projeto leva animal de apoio social ao encontro de crianças câncer que estão internadas no Hospital Universitário de Santa Maria



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Pepê, a terapeuta de quatro patas.

 Quem vê os sorrisos das crianças que esperam a visita semanal da Pepê nem imagina que ela é uma terapeuta pouco convencional. A cadelinha, que exerce função de cão de apoio social no Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), anima os corredores do Centro de Atendimento à Criança e Adolescente com Câncer (CtCriaC), acompanhada da psicóloga Fabiane Bortoluzzi Angelo Munhoz, sua tutora.

A inspiração para o projeto Afago no Hospital veio de uma iniciativa de Fabiane, que realizava consultas no seu consultório particular com a presença de Pepê. Devido aos benefícios da presença animal que pode ajudar no tratamento dos pacientes internados –, e com o apoio dos médicos do Husm, as atividades foram ampliadas. A implantação da ideia no Hospital contou com a ajuda do programa Cuidado e Atenção à Criança e ao Adolescente em Tratamento Oncológico (Caacto), do curso de Terapia Ocupacional da UFSM.

Criado e coordenado pela professora do Departamento de Terapia Ocupacional Amara Holanda, o Caacto articula ações de extensão, ensino e pesquisa na promoção da atenção integral à saúde das crianças e adolescentes em tratamento no serviço hematológico e oncológico, e de seus cuidadores. O programa realiza atividades que quebram o cotidiano da internação hospitalar, como sessões de filmes no Cine Pipoca,
visitas guiadas ao Hospital e intervenções musicais.

Além de marcar presença em algumas das ações do Caacto, Pepê realiza visitas semanais aos pacientes do CTCriaC. “O Afago no Hospital tem uma importância fundamental e excelente aceitação por parte das crianças, adolescentes e profissionais da saúde do serviço de hematologia e oncologia do Husm”, comenta Amara.

Por trás da Afago no Hospital

Antes de o projeto ser aplicado, foi preciso muito trabalho. Fabiane, juntamente com a terapeuta ocupacional do Husm Luisiana Onófrio e a residente Natyele Silva, reuniram-se para criar fluxogramas, em conjunto com os médicos do CTCriaC e a Comissão de Controle de Infecção (CCIH). Luisiana explica que o fluxograma é um protocolo que deve ser seguido pelo tutor para que qualquer cão tenha
acesso ao Hospital.

Com a aprovação dos protocolos pelos médicos e pela CCIH, o processo de habilitação da Pepê começou. Após passar por uma avaliação comportamental e seguir acompanhamento médico, a cadelinha aprendeu comandos de obediência e a se habituar com barulhos e toques. “Ter a orientação de um profissional especializado no treinamento de cães é fundamental para que o animal associe positivamente o contato humano”, pontua Fabiane.

No entanto, não é somente o animal que deve ser preparado: a tutora precisa seguir um comportamento específico e prestar atenção nos sinais manifestados pelo cachorro: “Pode ter dias que ele não estará disposto, e temos que respeitar isso. Esse é um dos pilares da Intervenção Assistida com animais: o respeito ao bem-estar animal”, salienta a psicóloga.

Para a elaboração dos fluxogramas, o projeto também teve a ajuda da psicóloga Silvana Fedeli Prado, coordenadora da ONG Patas Therapeutas, de São Paulo e referência no Brasil por trabalhar desde 2004 com cachorros em ambiente hospitalar. Entre os cuidados elencados, estão a limpeza das patas da Pepê com antisséptico antes de entrar e sair do CTCriaC, banho no dia anterior ou no dia da visita, escovação do pelo, vacinas e exames atualizados, e cautela com perfumes e essências para não causar indisposição nos pacientes. Ademais, é essencial que todos os envolvidos na visita lavem as mãos antes e depois do contato com o cão.

Além dos cuidados básicos, existem precauções diferentes para as crianças com a imunidade baixa, como o uso de equipamentos de proteção individual. “No dia que a Pepê vem, eles já esperam de máscara e luva. Com a intervenção da cadelinha, o uso dessas peças fica muito mais leve e humanizado”, comenta Natiely.

O projeto conta ainda com a ajuda das acadêmicas da Terapia Ocupacional Alessandra Freitas, Morgana Machado e Sabrina Franchi. Alessandra comenta que a melhor parte de participar das atividades é poder ver o sorriso de cada criança quando a Pepê adentra o CTCriac: “Faz com que elas esqueçam da dor e da doença, se divirtam, interajam e, de certa forma, aliviem a pressão do contexto hospitalar e do desconhecido gerado pela doença que rompeu sua rotina”.

Bom pra cachorro (e pra humano também)

Um dos benefícios oferecidos pela afagoterapia é a rapidez e a facilidade que o cão tem de auxiliar em tarefas que as crianças podem não se sentir tão motivadas a fazer: “A Pepê estimula a criança a sair do leito, proporcionando melhoras psicológicas, emocionais e sociais”, explica a psicóloga Fabiane.

O amparo não é somente para as crianças. Natiely conta que a presença da cadelinha auxilia na independência das crianças em relação aos pais, os quais, normalmente, são porto seguro durante a experiência de internação. Ademais, ela ajuda a estreitar relações entre as famílias e os pacientes. “O ambiente hospitalar é tenso e doloroso. Então, quanto mais a gente conseguir propiciar para essas pessoas momentos prazerosos, provavelmente melhor vai ser para o tratamento”, comenta a tutora.

Luisiana complementa, contando que a feição dos profissionais do Hospital também muda com a visita da mascote: “Parece que eles ficam mais leves e felizes. Isso é muito nítido, todo mundo percebe”. Até mesmo as pessoas que não têm ligação com o CTCriaC, como funcionários e pacientes de outras unidades, são beneficiadas pelo contato com a cadelinha. “Em um momento de angústia, aguardando a consulta ou o resultado de exames, receber o afago da Pepê por alguns segundos pode ser a única alegria que a pessoa vai ter no dia”, destaca Natiely.

Satisfeita com os benefícios propiciados pelo projeto Afago no Hospital, Fabiane conta que a intenção do grupo é, futuramente, expandir as ações com a ampliação das equipes canina e humana, o atendimento a outros pacientes e, até mesmo, a criação de um grupo de estudos ou um núcleo de pesquisa sobre o assunto.

Reportagem: Martina Irigoyen

Fotografias: Rafael Happke

Lettering e Diagramação: Deidre Holanda

Locução: Marcelo de Franceschi

 

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