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Crise no mercado de trabalho



O Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) promoveu, no dia 25 de abril, a aula inaugural Crise e o Novo (e Precário) Mundo do Trabalho: o Brasil no século 21, proferida por Giovanni Alves, professor dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unesp e da Unicamp. A atividade integrou as comemorações dos dez anos do PPGCS e trouxe reflexões em torno das condições e relações  de trabalho frente à crise econômica mundial.

 

Sendo um dos primeiros cursos de pós-graduação na área das Ciências Sociais no interior do Rio Grande do Sul, ao longo de uma década o PPGCS contabilizou 115 defesas de dissertações de Mestrado. Atualmente, tramita na Capes a proposta de implementação do curso de Doutorado em Ciências Sociais da UFSM.

 

O palestrante convidado é coordenador da Rede de Estudos do Trabalho e autor de vários livros sobre trabalho e sociabilidade, entre eles O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório.

 

Analisar a conjuntura do mercado de trabalho atual exige mais do que dados e estatísticas. Por isso, estudiosos têm se dedicado a pensar a estrutura produtiva do próprio mercado de trabalho e questionar as suas lógicas. Confira a entrevista que a nossa equipe fez com o professor  Giovanni Alves logo após a aula inaugural:

 

ARCO: Alguns pesquisadores destacam que estamos vivendo uma terceira grande crise mundial. O que isso significa, na prática, no âmbito do trabalho?

 

Giovanni Alves: Não é a primeira vez que essa ofensiva neoliberal acontece. A principal característica é a reação do sistema diante desta terceira longa depressão do capitalismo mundial, pois não se trata meramente de uma crise. Uma depressão não quer dizer que o sistema não possa crescer: pode crescer, mas em taxas pequenas. Entretanto, uma economia que não cresce de forma sustentável, não consegue resolver, por exemplo, o problema do desemprego. A nova ofensiva neoliberal faz também com que se tenha a redução do custo do trabalho, o que é, logicamente, bom para o capitalista. Há uma superexploração da força do trabalho e, evidentemente, isso impacta na própria dinâmica social: a massa salarial é reduzida e isso diminui o consumo das massas populares, o que gera também um impacto nas indústrias que produzem para o mercado interno.  É um círculo vicioso: se não há crescimento, não há emprego. Se não há emprego, não há consumo. Se não há consumo, não se criam incentivos para a produção.  O que o governo está fazendo então? Jogando nas costas dos trabalhadores– o ônus da crise através da Reforma Trabalhista e da Reforma da Previdência, por exemplo. Portanto, o aumento da taxa de exploração é resultado desta crise estrutural.

 

ARCO: Quais as implicações disso no âmbito acadêmico, na lógica de produção das universidades públicas brasileiras?

 

Giovanni Alves: Temos um aspecto triplo. Primeiro, com a questão do desmonte da universidade pública e a terceirização dos setores. O segundo ponto é, internamente, com a dificuldade da própria universidade de valorizar a residência estudantil. Isso causa problemas na distribuição das bolsas de iniciação científica, das bolsas-formação, na questão das residências e assistência estudantil, por exemplo. Tratam-se de direitos dos indivíduos que compõem a comunidade acadêmica que vão sendo cortados. E o terceiro ponto é a necessidade de os estudantes buscarem uma formação crítica capaz de dar uma resposta à altura do que está acontecendo. É necessário que essa reação seja consciente, que cada um invista mais em estudar e ter uma perspectiva crítica para  evitar uma outra ofensiva neoliberal no Brasil.

 

ARCO: Atualmente, a qualificação profissional, nem sempre, é sinônimo de emprego certo ou realização no mercado de trabalho. A tecnologia e a automação também são uma constante.  Se pode dizer que o valor do trabalho tomou outras dimensões?

 

Giovanni Alves: O problema não é exatamente a tecnologia, mas sim como ela é utilizada. Evidentemente, o capital a utiliza para baratear o preço da força de trabalho. Então, tem-se hoje uma desvalorização da força do trabalho mais qualificada, que é desvalorizada por conta da lógica do sistema de aumentar a taxa de exploração. Trata-se de uma necessidade do capitalismo, não é que as pessoas sejam más. Isso tem a ver com a lógica da acumulação.

 

ARCO: Na sua fala na palestra, o senhor identificou a conjuntura política como “historicamente inédita” e os brasileiros como “privilegiados” para a criação de movimentos sociais. Por quê?

 

Giovanni Alves: É inédita porque nunca o capitalismo esteve tão nu. Somos privilegiados porque aqui no Brasil essa realidade está mais exposta. Falamos de um país que está entre os mais desiguais do mundo e onde se explora há muito tempo. Temos presente essa contradição: desde o trabalho escravo, até aquilo que de mais tecnológico existe. Ao mesmo tempo em que existe empresas como a Uber – modernas e tecnológicas – tem-se 40 milhões de pobres e miseráveis que passam fome. É possível solucionar isso dentro desse sistema?  É uma grande questão, já que outros países desenvolvidos também estão indo nessa direção: a desigualdade tem crescido de forma alarmante em economias como a dos Estados Unidos, França, Reino Unido e China.

 

ARCO: Em um ano de eleições, quais os desafios que a classe trabalhadora deve enfrentar para lidar com as estratégias de manipulação midiática?

 

Trata-se de uma guerrilha midiática. A luta ideológica se dá também no campo da informação. Se cada um de nós, grupos e coletivos não criamos canais de informação e formação independente, nós não iremos vencer. Aquilo que Gramsci já falava sobre aparelhos privados de hegemonia cultural, hoje é uma necessidade. Temos muitas possibilidades para fazer isso nas redes sociais e espaços alternativos para produção de conteúdos. Não sei se realmente teremos eleições neste ano, não temos democracia efetiva no país. Temos que ter cuidado para votar em candidatos que tentem retomar a luta por um Brasil socialmente melhor. O fundamental do “fazer político” é organizar a luta, estar nas ruas. Só o que pode mudar esse cenário é a indignação e o manifesto da população.

 

 

Texto: Tainara Liesenfeld

Foto: Rafael Happke

 


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