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“Uma página da memória da arte brasileira que precisa ser resgatada”



 

Criado no ano de 1940, o Grupo de Bagé é um retrato da história política e cultural do Rio Grande do Sul da época. Seus artistas, ligados ao Taller de Gráfica Popular do México e ao Partido Comunista, defendiam a popularização da arte através da abordagem de temas sociais e regionais, num estilo figurativo realista com traços expressionistas.

 

Nesta sexta-feira (04), a UFSM recebe a exibição do documentário Grupo de Bagé, que conta a história do movimento. A iniciativa é do Laboratório Artes Visuais e I/mediações (Lavim), coordenado pelo professor Lutiere Dalla Valle, do Departamento de Artes Visuais da UFSM. A apresentação será às 18h, no Planetário da Universidade, com entrada gratuita. Após, haverá um debate com o diretor Zeca Brito.

 

O longa-metragem é uma recuperação biográfica e histórica do Grupo de Bagé, com a contextualização artística, cultural e política. A produção mostra como os artistas plásticos Glauco Rodrigues, Glênio Bianchetti, Danúbio Gonçalves, Julio Meirelles e Clóvis Chagas construíram uma identidade estética própria, entrelaçando suas características artísticas com os ideias políticos do Grupo.

 

Para o professor Lutiere, o documentário “traz significativas contribuições à formação cultural, não restringindo-se apenas às questões da arte, mas ampliando o campo de formação de público para as artes”. Além disso, o docente destaca que a exibição na Universidade dá visibilidade à cultura regional e a torna acessível a toda a comunidade. A escolha do Planetário se dá pelas características do espaço que favorecem a imersão, assim como a qualidade técnica do local e a acessibilidade.

 

Natural de Bagé, o diretor Zeca Brito conta que a sua relação com as artes vem desde cedo. A paixão pelo cinema começou ainda na adolescência, quando ganhou sua primeira câmera, e se concretizou com a formação em Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e graduação em Realização Audiovisual na Unisinos. Desenvolveu videoclipes e curta-metragens, conquistando prêmios em mostras e festivais. Seu primeiro longa-metragem foi O Guri, lançado em 2001. Em 2014, lançou Glauco do Brasil, seu primeiro documentário, e de lá pra cá foram sete longas e dez curtas.

 

Confira abaixo a entrevista que a Revista Arco fez com o diretor Zeca Brito, na qual ele contou mais detalhes sobre o processo de produção do documentário Grupo de Bagé:

 

ARCO: Como surgiu a inspiração para a produção do documentário?

 

ZECA BRITO: Grupo de Bagé é um desdobramento de pesquisa de meu filme Glauco do Brasil, um filme me levou ao outro. Tentou-se criar, anos atrás, um memorial em Bagé em homenagem ao movimento, que até hoje não aconteceu. É uma página da memória da arte brasileira que precisa ser resgatada, um movimento importantíssimo, tão importante quanto o Concretismo ou o Neoconcretismo, mas muito pouco legitimado pelas instituições de Rio e São Paulo, por ter ocorrido aqui no sul. Porém, graças ao revisionismo histórico, hoje estes artistas estão encontrando seu devido lugar de importância nas artes e museus do Brasil.

 

ARCO: Por que você escolheu tratar sobre o tema?

 

ZECA BRITO: Eu abandonei a gravura para fazer cinema, e a gravura era algo  realmente importante na minha vida. Fazer esse filme foi uma forma de retornar para a gravura, agora com uma câmera, é uma maneira de agradecer aos artistas que vieram antes, que abriram os caminhos para a arte que fazemos hoje nestes territórios sulistas. A gravura só passou a fazer parte da realidade de Bagé graças ao Grupo, e não só isso, eles abriram caminho para muitos artistas, foram os primeiros que romperam com um modelo de desenvolvimento econômico e social, romperam com a sociedade ruralista conservadora, romperam com os costumes tradicionais. De alguma maneira, fazer um filme sobre eles é uma forma de agradecer, agradecer por hoje ser artista, por terem nos dado essa possibilidade em nossos horizontes, fazer arte, ser artista e com isso querer mudar o mundo. O tema revela o profundo engajamento social, mostra que para eles a função da arte era transformar a sociedade, construir diálogos, estabelecer a paz.

Danúbio Gonçalves, um dos artistas entrevistados no documentário

ARCO: Qual a importância de ser feita essa exibição na UFSM?

 

ZECA BRITO: Carlos Scliar, mentor do Grupo de Bagé, nasceu em Santa Maria. O que me leva a concluir que o  Grupo de Bagé poderia se chamar Grupo de Bagé e Santa Maria, mas Scliar escolheu Bagé justamente pelo isolamento. Acreditava que a realidade rural, ainda intacta, era um solo fértil para que novas ideias fossem plantadas. Nasce uma arte politicamente engajada, de denúncia social, que alerta a sociedade para as mazelas da engrenagem de trabalho e inaugura um lugar de fala ao trabalhador. Ver o filme nascer na terra de Carlos Scliar é uma tremenda alegria, é voltar às origens.

 

ARCO: Você possui alguma relação pessoal com Santa Maria e com a Universidade?

 

ZECA BRITO: Tenho um carinho pela UFSM, em especial pelo Curso de Artes Visuais. Acho que há um trabalho muito sério sendo feito, tanto na formação de novos como de professores de artes. Vejo que o curso busca resgatar valores históricos importantes sem perder os vínculos com o universo da produção contemporânea. Tive a felicidade de vir até Santa Maria em 2016 para exibir Glauco do Brasil e foi muito bonito perceber o interesse dos estudantes de artes e seu envolvimento com as atividades que foram propostas em torno do filme. Espero que possa contribuir aos atuais estudantes da instituição. Acredito que o filme tenha muito a dizer sobre gravura, sobre os artistas e sobre como se comportam as instituições que constituem o campo artístico no Brasil.

 

 

Repórter: Mariana Machado

Fotografias: Divulgação


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