Os grandes compositores de música sinfônica europeus do passado sempre gozaram de muito prestígio entre os apreciadores. Numa época em que notícias se espalhavam apenas por escrito ou pelo “boca a ouvido”, suas famas alcançavam países longínquos, como o Brasil, por meio do comércio de partituras, jornais e revistas, o que contribuía para a difusão de suas obras. Naquele tempo, ouvir tais composições era um privilégio para poucos, fato que reforçava a aura de admiração que ainda hoje envolve certos artistas. A comunidade de músicos e entusiastas aguardava a próxima obra sinfônica com ansiedade, e sua estreia tornava-se um evento imperdível, comentado por muito tempo em seus mínimos detalhes.
Hoje a música sinfônica está mais viva e atuante do que nunca e ocupa um lugar central na apreciação artística dos espectadores. Não naqueles moldes de “música absoluta”, mas aliada a outra: a arte da cena. O cinema e os videogames utilizam elementos musicais para que uma história seja contada com um suporte musical de mesma qualidade que o drama em desenvolvimento. Existe uma sincronia entre visão e audição, levando o apreciador a uma viagem emocional que nem a música, nem a imagem, conseguiriam alcançar sozinhas. A bem da verdade, essa parceria entre artes já era conhecida há milênios, mas foi no século XIX que alcançou a sistematização que hoje vemos nas telas. Os elementos musicais agora são “motivos condutores” (leitmotivs) que conferem assinatura a estados de espírito, climas emocionais, tensões psicológicas, objetos ou personagens — tudo para que você não se dê conta de estar imerso na narrativa. Essa experiência de imersão alcança com o cinema e os videogames uma quantidade de pessoas nunca antes possível, rompendo barreiras geográficas e geracionais. É a mágica do cinema e dos videogames se espalhando no espaço e no tempo.
Imagine-se agora como compositor(a). Após o trabalho árduo de entender as necessidades das cenas que um diretor explicou, escrever notas em uma pauta para cada um dos mais de 50 instrumentos, gravar e sincronizar tudo com as cenas, o filme fez sucesso e sua música contribuiu para isso. O que fazer com esse material musical de qualidade? Originalmente ele só poderia ser apreciado ao assistir à obra cinematográfica. Sabendo do valor de suas criações, esses compositores usam sua criatividade para adaptar o material para o formato sinfônico, permitindo a execução por orquestras em salas de concerto. Eles reescrevem as obras como sinfonias, suítes ou autorizam arranjos orquestrais. É o que ouviremos hoje: a música de cena que amamos, mas que, nesta noite, brilha por sua qualidade intrínseca.
A noite se inicia como num cinema, com as fanfarras de abertura de dois estúdios conhecidos, a Universal e a 20th Century Fox. Apesar da brevidade destas peças, elas são icônicas como anunciadoras dos bons momentos que estão por vir e foram pensadas para sentirmos um misto de expectativa e entusiasmo. Como um compositor consegue tudo isso em segundos após suas décadas de estudo? Um grande mestre sabe escolher o necessário e o suficiente. Menos é mais, como se diz, e é esse desafio nestas miniaturas sinfônicas. Após as fanfarras, teremos um vídeo parodiando a abertura da MGM com seu leão, no qual tomamos a liberdade de incluir um elemento local para nossa alegria.
John Williams tinha 45 anos quando colaborou com o jovem George Lucas na história “maluca” de rebeldes nas estrelas. O tema principal do filme Star Wars tornou-se seu trabalho mais célebre, e temos a sorte de que o próprio compositor o tenha estruturado para ser apreciado em concertos. Inspirador, motivador, impulsionador e energético são alguns adjetivos que podemos usar ao ouvir essa obra.
Steven Spielberg é um dos diretores com quem John Williams mais se relacionou. A Marcha dos Caçadores da Arca Perdida, num dos filmes da série Indiana Jones resgata a sensação das matinês de sábado clássicas: aventura e ação com suspense a cada trecho. É uma receita de sucesso que só essa dupla sabe executar.
Das obras cinematográficas de John Williams, Tubarão se destaca pela linguagem contemporânea. A orquestra é explorada pelos recursos de efeitos sonoros, os instrumentos fazem sons que não são comuns e a música agora cria climas de terror, suspense, alarme e pânico. A introdução, em seus poucos segundos, já assusta. É marcada pelo que chamo de “tema da barbatana”. O mar, aparentemente calmo, é representado na percussão. De repente uma barbatana rasga brevemente a superfície e depois desaparece. Você teve a impressão de ter visto algo, mas se despreocupa. Novamente acontece, e agora tem certeza de ter visto algo. Em seguida, a barbatana fica por mais tempo e, assim, o tubarão anuncia sua presença, causando medo. O resto da música também será descritiva. Depois de um minuto e meio você ouve a melodia alegre nas flautas, clarinetas e glockenspiel que representa os banhistas se divertindo, brincando com suas bolas coloridas transparentes ao sol, rindo. Ela é muito curta e tem um acompanhamento sinistro, pois há muita gente na água e ainda outros vão entrando sem saber que ele está lá. O que vem em seguida não nos deixa quietos na cadeira.
De Volta Para o Futuro foi uma trilogia de filmes dirigidos por Robert Zemeckis para os quais Alan Silvestri compôs. O próprio compositor escreveu esta Suíte com parte deste material. Começando com o tema principal, é seguido pelo clima de “velho oeste” e os sons do trem do terceiro filme. Em seguida o tema do DeLorean, o carro icônico do filme e o retorno do tema principal da aventura.
O Senhor dos Anéis marcou uma mudança no padrão cinematográfico e musical. De todos os filmes desta noite é o que faz uso mais extenso da ideia de “motivo condutor”. Da inocência da vida no Condado (Shire) às batalhas épicas contra os Uruk-hai, há uma vasta amplitude emocional. E tudo isso se utilizando do material original do primeiro filme: A Sociedade do Anel.
Os Estúdios Ghibli elevaram a animação ao status de obra de arte, estabelecendo outra era de ouro, que outrora pertenceu à Disney. Com suas temáticas humanitárias e existenciais de profunda sensibilidade e grande consideração, ocupa hoje um lugar especial no imaginário do espectador, num contraste que traz alívio frente à mitologia fantástica a que estamos acostumados. Ouviremos um medley, que no jargão musical quer dizer que o arranjador pode ter colocado os elementos em uma ordem especial formando uma nova narrativa. Foram selecionadas quatro partes do filme Princesa Mononoke: A lenda de Ashitaka, O Deus Demônio, Mononoke Hime e Ashitaka & San. A música se distancia do padrão tradicional ocidental. Características melódicas e estruturais diferentes formam passagens ternas com texturas sonoramente menos densas, criando um contraste com o resto do repertório. É o ponto de articulação ideal em nosso concerto, oferecendo instantes de contemplação antes da segunda metade.
Os filmes 007 marcam gerações e suas músicas têm se tornado clássicas, saindo das telas para as playlists dos aficionados. Do estilo jazzístico, passando pelo rock e pop, cada uma marcou o som de sua época. O arranjo, 007: Através dos Anos, começa, como não poderia deixar de ser, com o tema clássico de James Bond, passando por Goldfinger, Nobody Does It Better, Skyfall e terminando com a entusiástica Live and Let Die.
E mantendo o clima detetivesco, seguimos com A Pantera Cor-de-Rosa de Henry Mancini. Parte da orquestra se comporta como um grupo de jazz com brilhos sonoros, melodias “swingadas” dando vitalidade a um dos temas mais conhecidos neste estilo. É um arranjo de qualidade que confere à obra do compositor a criatividade que merece.
Encaminhando para o final, teremos o tema de Os Vingadores que também foi composto por Alan Silvestri, o mesmo do De Volta Para o Futuro. Temos um arranjador que buscou ser mais fiel, buscando os mínimos detalhes usados no filme, alcançando um efeito grandioso e evocador da aventura que teremos.
A Marcha Imperial, que aparece pela primeira vez em O Império Contra-Ataca, adicionou mais uma obra cativante e de expressividade dramática ao universo de Star Wars. Como não há Star Wars sem Darth Vader é claro que sua música só poderia ser uma marcha que impõe um sentido de ordem rigorosa e seu caráter belicoso. Demonstra a habilidade do compositor em captar a essência do personagem.
Concluiremos nossa noite procurando lembrar todo o vocabulário náutico típico do Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. O mar salgado, caravelas a todo pano, embarcações enormes com canhões, Rum e o misticismo do mar estarão presentes nessas sonoridades, pois fazem parte de toda a narrativa. Este outro medley navega por seis partes: Envolto Pela Névoa, O Chamado do Medalhão, Para a Caverna Pirata, O Pérola Negra, Uma Última Tentativa e Ele É Um Pirata. De tema de amor, passando por melodias hipnóticas a grandes guinadas musicais para elementos mais ritmicamente envolventes, aqui tem de tudo. Diversão garantida para encerrarmos a noite.
E o espetáculo será mais que musical. Temos preparado surpresas para que você possa viajar na imaginação. A arte da cena se juntará à execução da orquestra para uma experiência memorável.
Fiquei sabendo que John Williams está trabalhando com Steven Spielberg num novo filme de ficção científica. Como será a música?
Esperamos que esta noite traga o necessário e o suficiente para mover profundamente seu estado de alma através da memória sonora.
Ahoy! Até um concerto futuro e que a força continue conosco.
CAE
REPERTÓRIO
1. Jerry Goldsmith Fanfarra da Universal
Alfred Newman Fanfarra da 20th Century Fox
Abertura da MGM
2. John Williams Suíte Star Wars para Orquestra: Tema Principal
3. John Williams Indiana Jones: Marcha dos Caçadores da Arca Perdida
4. John Williams Suíte Tubarão: Tema do Tubarão
5. Alan Silvestri Suíte De Volta Para o Futuro
6. Howard Shore Suíte Sinfônica do Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel
7. Joe Hisashi. Arr.: Joel Kim. Medley Princesa Mononoke
8. Monty Norman, John Barry, Marvin Hamlisch, Adele & Paul Epworth, Paul & Linda McCartney, Arr.: Stephen Bulla 007: Através dos Anos
9. Henry Mancini. Arr.: Robert Longfield A Pantera Cor-de-Rosa: Tema
10. Alan Silvestri. Arr.: Jean-Baptiste Peaucelle Tema de Os Vingadores
11. John Williams Star Wars: O Império Contra-Ataca – Marcha Imperial
12. Klaus Badelt e Hans Zimmer. Arr.: Ted Ricketts Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra
OS GRANDES CLÁSSICOS DO CINEMA
2º CONCERTO DA TEMPORADA 2026 DA OSSM
Data: 28/04/2026 (terça-feira)
Horário: 20h
Local: Centro de Convenções da UFSM
Ingressos Gratuitos: Unimed Santa Maria (Rua José Bonifácio, 2355 e Rua Gaspar Martins, 1482) e Portaria dos Fundos do Centro de Convenções da UFSM
Opcional: entregar na recepção do evento 1kg de alimento não perecível para o Banco de Alimentos
Para mais informações: Plano Comunicação e Eventos | Maristela Tomazetti (55) 992609669
