Sintomas e adaptações na gestação
Compreender as modificações naturais que ocorrem no seu corpo permite diferenciar desconfortos comuns da gestação de possíveis complicações. Esta conscientização faz com que você participe ativamente do seu cuidado, buscando avaliação da equipe de saúde diante de qualquer sinal de alerta, o que ajuda a reduzir riscos e a garantir um uma gestação mais segura e saudável.
Tabela de sintomas mais comuns por trimestre:
1º Trimestre: Náuseas e vômitos; Tonturas e fraquezas; Vontade frequente de urinar; Sonolência e cansaço; Adaptações hormonais; Constipação.
2º Trimestre: Inchaço nas pernas (início); Dores lombares e pélvicas; Melhora das náuseas; Lombalgia (dor nas costas); Constipação.
3º Trimestre: Azia e refluxo; Falta de ar (Dispneia); Inchaço acentuado (edema); Vontade frequente de urinar; Constipação; Lombalgia.
A tabela acima apresenta os sintomas mais comuns da gestação, que são causados pelas mudanças naturais do seu corpo. Esses sintomas podem ser desconfortáveis, mas geralmente não são perigosos. No entanto, é importante que você saiba reconhecer os sinais de alerta, que indicam que algo pode estar errado e que você deve procurar a equipe de saúde imediatamente.
1. Adaptações gastrointestinais
Náusea e vômito
- O que causa: é um sintoma muito comum decorrente das alterações hormonais próprias do início da gestação, que afetam o funcionamento do seu estômago.
- Momento da gestação: acontece predominantemente no 1º trimestre, atingindo seu pico por volta da 9ª semana e apresentando melhora espontânea entre 16 e 20 semanas.
- Conduta/tratamento: o manejo inicial não utiliza remédios, focando em uma dieta fracionada (cerca de seis refeições leves ao dia) para evitar o jejum prolongado, preferindo alimentos secos ou gelados e evitando frituras, gorduras e odores fortes. Em alguns casos, a equipe pode receitar medicamentos antieméticos (contra vômitos) totalmente seguros para o bebê.
- Impactos clínicos e sinais de alerta: caso os sintomas evoluam para a hiperêmese gravídica (vômitos contínuos e muito intensos que impedem qualquer alimentação), o quadro gera grave desidratação, distúrbios do metabolismo e perda de mais de 5% do peso corporal. Essa complicação restringe a chegada de nutrientes ao feto e pode causar a restrição de crescimento fetal (crescimento insuficiente do bebê), exigindo hidratação intravenosa (na veia) e internação hospitalar.
Pirose (Azia) e Constipação (Intestino Preso)
- O que causa: o hormônio progesterona, fundamental para manter a gravidez, causa o relaxamento de parte da musculatura (lisa) do corpo, diminuindo o peristaltismo (os movimentos do intestino) e atrasando o esvaziamento do estômago. Isso favorece o refluxo do ácido gástrico e a retenção de fezes.
- Momento da gestação: pode ocorrer em todo o período, mas a azia agrava-se geralmente no 3º trimestre devido ao aumento físico do útero, que comprime o estômago e o intestino.
- Conduta/tratamento: recomenda-se não deitar logo após comer, elevar a cabeceira da cama para dormir, evitar líquidos durante as refeições principais e não consumir café, chás pretos, doces e frituras. Para o intestino, é importante aumentar muito o consumo de água (6 a 8 copos ao dia) e de fibras, como mamão, ameixas e cereais integrais. Se necessário, a equipe pode prescrever antiácidos (para a azia) ou supositórios de glicerina (para a constipação).
- Impactos clínicos e sinais de alerta: a azia severa (que não melhora) ou a epigastralgia (dor aguda na ‘boca do estômago’ ou do lado direito das costelas) nunca deve ser ignorada, pois é um sinal de alerta importante para a pré-eclâmpsia (aumento perigoso da pressão arterial) ou síndrome HELLP (comprometimento grave do fígado na gestação), exigindo encaminhamento à urgência obstétrica.
2. Alterações cardiovasculares e respiratórias
Fraquezas, tonturas e desmaios (lipotímia)
- O que causa: resultam da vasodilatação (alargamento dos vasos sanguíneos) promovida pelo hormônio progesterona e pela dificuldade do retorno do sangue para o coração, o que diminui o fluxo de oxigênio temporário para o cérebro. Além disso, deitar de barriga para cima causa a hipotensão supina (pressão baixa provocada pelo peso do útero ‘pressionando’ a veia cava inferior, um grande vaso no abdome).
- Momento da gestação: muito comum no 1º trimestre pelas adaptações hormonais iniciais e no 3º trimestre pelo peso uterino.
- Conduta/tratamento: a pessoa gestante não deve fazer mudanças bruscas de posição ao levantar e precisa evitar ambientes fechados ou muito quentes. A principal orientação é repousar deitada em decúbito lateral esquerdo (sobre o lado esquerdo do corpo). Essa posição libera o fluxo sanguíneo da veia cava, melhora imediatamente a pressão sanguínea e aumenta a oxigenação que vai pela placenta até o feto.
- Impactos clínicos e sinais de alerta: desmaios constantes logo no início da gestação, associados a dor pélvica e sangramento, podem ser sinal de gravidez ectópica (quando o embrião se implanta fora do útero, geralmente nas trompas), com risco de rompimento e choque hipovolêmico (perda importante de sangue), sendo uma emergência médica absoluta. Na gestação avançada, tonturas associadas à dor de cabeça e visão turva apontam para crises de hipertensão, o que necessita de investigação clínica.
Edema periférico (inchaço nas pernas)
- O que causa: é a retenção de líquidos decorrente da ação dos hormônios da gravidez, aliada à compressão das veias pélvicas pelo útero. Essa compressão dificulta que o sangue das pernas suba de volta ao coração, gerando estase venosa (acúmulo de sangue).
- Momento da gestação: típico e fisiológico a partir do final do 2º trimestre e por todo o 3º trimestre, acentuando-se no fim do dia.
- Conduta/tratamento: elevar as pernas acima da linha do coração diversas vezes ao dia, fazer exercícios rotatórios com o tornozelo, evitar usar roupas ou calçados apertados e manter uma dieta com quantidade normal de sal, mas bebendo muita água. Meias elásticas de média compressão podem ser prescritas para ajudar.
- Impactos clínicos e sinais de alerta: se o inchaço for generalizado (atingindo o rosto e as mãos) ou já estiver muito forte ao acordar de manhã, há alta suspeita de pré-eclâmpsia, necessitando de medição imediata da pressão arterial e exame de urina. Se o inchaço for restrito a apenas uma das pernas, acompanhado de dor forte, vermelhidão e calor, é um sinal de alerta máximo para trombose venosa profunda (formação de coágulo na veia). Em ambos os casos, é necessário procurar atendimento médico.
- Dispneia (falta de ar)
- O que causa: é a dificuldade para respirar causada, fisicamente, pela elevação do músculo diafragma (empurrado pelo crescimento do útero) e, quimicamente, pela hiperventilação que o corpo da pessoa gestante faz para aumentar os níveis de oxigênio que serão transferidos pela placenta ao bebê.
- Momento da gestação: acontece frequentemente por volta da 30ª semana (3º trimestre).
- Conduta/tratamento: adotar postura ereta ao sentar-se ou ficar em pé, usar travesseiros extras para elevar a cabeça e os ombros ao dormir e repousar deitada do lado esquerdo.
- Impactos clínicos e sinais de alerta: a falta de ar repentina ou que não melhora com o repouso é um forte sinal de alerta. Se acompanhada de chiado no peito, tosse com catarro, febre ou pressão no peito, a equipe médica deve descartar patologias pulmonares como crise de asma brônquica, pneumonia bacteriana ou infecção por covid-19. Tais quadros causam hipóxia severa (falta de oxigênio) no bebê e necessitam de tratamento medicamentoso urgente ou internação em UTI para suporte respiratório.
3. Saúde pélvica e modificações musculoesqueléticas
Queixas Urinárias (aumento da frequência da vontade de urinar; acordar várias vezes à noite para urinar)
- O que causa: corresponde ao aumento da frequência da vontade de urinar (polaciúria), inclusive acordando várias vezes à noite (nictúria). Ocorre porque o crescimento do útero pressiona anatomicamente a bexiga, diminuindo o volume de urina que ela consegue armazenar.
- Momento da gestação: mais incômodo no 1º trimestre e retorna com grande intensidade no 3º trimestre, quando a cabeça do bebê “encaixa” na pelve (bacia).
- Conduta/tratamento: compreender a situação como uma adaptação normal e jamais restringir ou diminuir o consumo de água por causa disso.
- Impactos clínicos e sinais de alerta: apenas urinar muitas vezes é normal, porém, se a pessoa gestante sentir disúria (ardência ou dor intensa ao urinar), urina com sangue (hematúria), com mau cheiro ou dor na região lombar (costas) associada à febre, trata-se de um quadro agudo de infecção do trato urinário (ITU). As bactérias na bexiga (cistite) podem subir para os rins e causar a pielonefrite (uma infecção generalizada). A infecção urinária é uma das principais causadoras do trabalho de parto prematuro e de sepse (infecção no sangue), sendo essencial que o enfermeiro ou médico realize o exame de urocultura e trate rapidamente com os antibióticos adequados.
Lombalgia (dor lombar e na região pélvica)
- O que causa: é a dor nas costas e na pelve (bacia) originada pelo peso do bebê, que desloca o centro de gravidade do corpo para frente (causando hiperlordose). É agravada pela embebição gravídica, fenômeno onde os hormônios relaxam os ligamentos e articulações da pelve para permitir a futura passagem do bebê no parto.
- Momento da gestação: a partir do 2º trimestre, acentuando-se até o final da gravidez.
- Conduta/tratamento: uso de sapatos confortáveis (sem salto alto), reeducação postural, aplicação de calor local e massagens de relaxamento. Práticas como alongamento e acupuntura também são alternativas para o alívio dessa dor. Se a dor for limitante, o médico pode indicar analgésicos adequados.
- Impactos clínicos e sinais de alerta: se a dor nas costas vier na forma de um “enrijecimento” do abdome que vai e volta com ritmo (cólicas regulares), isso deixa de ser apenas uma dor postural e passa a ser o principal sinal de trabalho de parto prematuro. Se ocorrer antes de 37 semanas e causar dilatação no colo do útero (avaliado por toque vaginal ou ultrassom), a pessoa gestante precisará ser internada imediatamente em uma maternidade especializada.