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Conecta Gestante – Exames laboratoriais

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Exames laboratoriais e de imagem

exames
Figura 7: Representação de exames laboratoriais e de imagem da pessoa gestante. Fonte: Gerada por IA (Gemini, 2026).

O acompanhamento pré-natal é uma oportunidade essencial para cuidar da saúde e garantir um ambiente ideal dentro do útero para o desenvolvimento do bebê. Para que esse cuidado funcione, a equipe de saúde utiliza o rastreio laboratorial (exames de rotina), que funciona como um “mapa” do seu corpo.

Essas avaliações permitem entender detalhadamente seu metabolismo, imunidade e possíveis infecções, possibilitando a detecção e a intervenção precoce diante de qualquer alteração, reduzindo assim os riscos de complicações obstétricas e garantindo um desfecho favorável e seguro para a sua gravidez.

Tabela de exames por trimestre:

1º Trimestre: Hemograma completo; Tipagem sanguínea e Fator Rh; Glicemia de jejum; Urina tipo I (EQU) e Urocultura; Testagem de HIV e Sífilis; Hepatite B (HBsAg) e Hepatite C; Toxoplasmose (IgM e IgG); Eletroforese de hemoglobina.

2º Trimestre: Teste de Tolerância à Glicose (TOTG); Coombs indireto (se Rh negativo).

3º Trimestre: Hemograma (repetição); Urina tipo I (EQU) e Urocultura; Testagem de HIV e Sífilis; Hepatite B (HBsAg); Pesquisa de Estreptococo B (EGB).

Hemograma completo

  • O que é e Finalidade: Exame de sangue que avalia as células do corpo, com foco na hemoglobina (proteína que transporta oxigênio) e no hematócrito (porcentagem de glóbulos vermelhos), para diagnosticar a anemia por falta de ferro (anemia ferropriva).
  • Momento da Gestação: Solicitado na primeira consulta (1º trimestre) e repetido por volta da 28ª semana (3º trimestre).
  • Impactos: A anemia não tratada aumenta o risco para o desenvolvimento de síndromes hipertensivas (como a pré-eclâmpsia) e hemorragia pós-parto. Para o feto, está associada ao aumento do risco de prematuridade, baixo peso ao nascer e mortalidade perinatal.
  • Tratamento: Uso de suplementos de ferro elementar (Sulfato Ferroso) e orientações na alimentação. Em casos de anemia grave ou não responsiva ao tratamento, a pessoa gestante deverá encaminhada para acompanhamento no pré-natal de alto risco.

Eletroforese de hemoglobina

  • O que é e Finalidade: Exame que analisa o formato das células do sangue para identificar doenças genéticas, como a doença falciforme (doença que altera o formato dos glóbulos vermelhos, dificultando a circulação).
  • Momento da Gestação: Deve ser realizado logo na primeira consulta de pré-natal.
  • Impactos: agrava-se pelo estado de hipercoagulação fisiológica, aumentando o risco de crises vaso-oclusivas (crises álgicas severas de dor), infecções e piora de anemia na pessoa gestante. Para o feto, a dificuldade de circulação na placenta pode causar restrição de crescimento fetal (crescimento intrauterino inadequado) e prematuridade.
  • Tratamento: As pessoas gestantes diagnosticadas com a doença falciforme são encaminhadas para o pré-natal de alto risco e acompanhamento com hematologista. O tratamento inclui suplementação de ácido fólico em doses maiores (4 a 5 mg/dia) e, dependendo da gravidade, pode haver a necessidade de transfusões sanguíneas e controle rigoroso da vitalidade fetal.

Tipagem sanguínea e Fator Rh

  • O que é e Finalidade: Exame que determina o grupo sanguíneo (sistema ABO) e a presença ou ausência do antígeno Rh (positivo ou negativo). Sua finalidade biológica é detectar o risco de aloimunização (situação em que o sistema de defesa da pessoa gestante reconhece o sangue do feto como um “corpo estranho” e produz anticorpos contra ele).
  • Momento da Gestação: Solicitado rotineiramente na primeira consulta (1º trimestre).
  • Impactos: Se a pessoa gestante com fator Rh negativo for sensibilizada pelo sangue de um feto Rh positivo, os anticorpos da pessoa gestante atravessam a placenta e destroem os glóbulos vermelhos fetais. Isso causa a doença hemolítica perinatal, levando à severa anemia fetal, hipóxia (falta de oxigênio), hiperbilirrubinemia (icterícia grave neonatal) e hidropisia fetal (acúmulo anormal de fluidos no feto), podendo ser fatal.
  • Conduta: A identificação de uma pessoa gestante Rh negativo exige a realização de um teste complementar chamado Coombs indireto para verificar se houve processo de sensibilização.

Coombs indireto

  • O que é e Finalidade: É exame que pesquisa a presença de anticorpos no sangue da pessoa gestante, confirmando se o corpo desenvolveu defesas contra o sangue fetal.
  • Momento da Gestação: Realizado na primeira consulta para pessoas gestantes Rh negativo. Caso o resultado seja negativo, o exame deve ser repetido mensalmente a partir da 24ª semana de gestação.
  • Impactos: O resultado positivo indica que os anticorpos da pessoa gestante podem atacar as hemácias fetais, causando a doença hemolítica perinatal (com risco de anemia grave, hidropisia fetal e óbito fetal).
  • Tratamento: Se o exame for negativo, a conduta é a profilaxia: administra-se a imunoglobulina anti-D (uma proteção injetável) entre 28 e 34 semanas, e logo após o parto se o recém-nascido for Rh positivo. Se o exame for positivo, a pessoa gestante é encaminhada ao pré-natal de alto risco, onde o feto será rigorosamente monitorado por métodos como a dopplervelocimetria (ultrassom que mede o fluxo de sangue) e, se identificada anemia grave, pode ser necessária a transfusão de sangue intrauterina.

Glicemia de jejum

  • O que é e Finalidade: Medição da concentração de glicose (açúcar) circulante no sangue após um período de jejum. O objetivo é diagnosticar a hiperglicemia (excesso de açúcar no sangue) de forma precoce, diferenciando diabetes que já existia antes da gestação do início de um diabetes gestacional.
  • Momento da Gestação: Deve ser realizada preferencialmente logo na primeira consulta de pré-natal (idealmente antes da 24ª semana).
  • Impactos: A hiperglicemia (glicose elevada) da pessoa gestante leva à hiperglicemia fetal, o que induz o feto a produzir muita insulina. Na pessoa que está gestando, eleva o risco de pré-eclâmpsia e de futura progressão para diabetes tipo 2. No feto, causa a macrossomia (crescimento exagerado do bebê, geralmente acima de 4 kg), além de hipoglicemia neonatal, sofrimento respiratório e risco de óbito fetal.
  • Tratamento: O tratamento inicial foca na adequação nutricional rigorosa e na prática de atividade física. Se essas medidas não forem suficientes para manter a glicose controlada, ou houver sinais de macrossomia fetal, indica-se o uso de insulina (ou hipoglicemiantes orais específicos) e o encaminhamento obrigatório ao pré-natal de alto risco.

Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG – 75g)

  • O que é e Finalidade: Exame que avalia a capacidade do organismo de lidar com uma sobrecarga de açúcar. A pessoa gestante ingere um líquido com 75g de glicose e o sangue é medido em jejum, 1 hora e 2 horas após a ingestão. Sua finalidade é o diagnóstico de Diabetes Mellitus Gestacional (DMG), caracterizado pelo aumento da resistência à insulina.
  • Momento da Gestação: Para pessoas gestantes que tiveram glicemia de jejum normal no início do pré-natal, o TOTG deve ser realizado entre a 24ª e a 28ª semana de gestação.
  • Impactos: Distúrbios hipertensivos na pessoa gestante e distúrbios metabólicos, tocotraumatismos (traumas no parto, como distócia de ombro) e macrossomia no desenvolvimento fetal.
  • Tratamento: Uma vez diagnosticado o DMG (por qualquer um dos valores alterados), a conduta exige monitoramento diário da glicemia capilar (“teste da ponta de dedo”). O tratamento segue a mesma linha: controle nutricional e exercícios, ou uso de insulina e acompanhamento especializado se o controle adequado não for atingido rapidamente.

Urina tipo I (EQU)

  • O que é e Finalidade: Avalia o estado geral da urina para buscar sinais de leucocitúria (inflamação/infecção), hematúria (perda de sangue) ou de proteinúria (proteínas).
  • Momento da Gestação: Solicitado como rotina no 1º trimestre e repetido no 3º trimestre.
  • Impactos: A presença de proteinúria associada à hipertensão arterial (pressão alta) é o indicativo clássico da pré-eclâmpsia, uma condição grave que pode levar à eclâmpsia (convulsões). Já as infecções urinárias detectadas podem evoluir para pielonefrite (infecção urinária alta), associando-se a restrição de crescimento do feto, ruptura prematura das membranas (bolsa) e parto prematuro.
  • Tratamento: Se for detectada proteinúria, a pessoa gestante é investigada para pré-eclâmpsia e referenciada ao alto risco ou à emergência obstétrica. Diante de leucocitúria, solicita-se a urocultura para isolamento de bactérias, ou, na falta desta, inicia-se tratamento empírico para proteger a gestação.

Urocultura com Antibiograma

  • O que é e Finalidade: Cultiva e identifica as bactérias em multiplicação ativa nas vias urinárias. O antibiograma testa quais antibióticos são eficazes contra a bactéria isolada. Seu foco é diagnosticar a infecção urinária assintomática (infecção sem sintomas) e cistites.
  • Momento da Gestação: Deve ser oferecido como rotina no primeiro e no terceiro trimestre, juntamente com o EQU.
  • Impactos: Se a bacteriúria assintomática não for tratada, até 35% dos casos evoluem para pielonefrite (infecção dos rins), aumentando os riscos de sepse na pessoa gestante (infecção generalizada), trabalho de parto prematuro e morte perinatal.
  • Tratamento: O tratamento imediato é guiado pelo antibiograma, utilizando antibióticos seguros para a gravidez. Após o término do tratamento, realiza-se um novo exame de urina para controle de cura, e, em caso de infecções de repetição, institui-se antibioticoprofilaxia (dose de manutenção) contínua até o parto.

Toxoplasmose (IgM e IgG)

  • O que é e Finalidade: Verifica se a pessoa gestante teve contato com o parasita da toxoplasmose. A imunoglobulina IgG indica que o corpo possui “memória” de infecção antiga (imunidade remota). A imunoglobulina IgM indica que o corpo está combatendo a doença ativamente.
  • Momento da Gestação: A triagem ocorre na 1ª consulta. Caso o resultado demonstre que a pessoa é suscetível (não tem anticorpos), as sorologias devem ser repetidas todos os meses, ou a cada dois ou três meses.
  • Impactos: A infecção primária na gravidez promove a transmissão placentária da toxoplasmose congênita. O parasita destrói o tecido nervoso e ocular em formação, resultando em sequelas severas e incuráveis, como cegueira (retinocoroidite), microcefalia, hidrocefalia, calcificações cerebrais, retardo mental severo e morte fetal.
  • Tratamento: Pessoas gestantes suscetíveis recebem rigorosa orientação nutricional/higiênica (evitar carnes cruas, higienizar vegetais). Se detectada infecção aguda (IgM positivo), prescreve-se intervenção medicamentosa imediatamente ou esquema tríplice caso a infecção fetal seja confirmada após investigação especializada no alto risco.

HIV (Teste rápido ou sorologia)

  • O que é e Finalidade: Identifica a presença de anticorpos ou antígenos do vírus HIV, que ataca os linfócitos de defesa do corpo. O objetivo central deste exame é realizar o diagnóstico precoce a fim de bloquear a transmissão vertical (passagem do vírus da pessoa gestante para o feto pela placenta, parto ou amamentação).
  • Momento da Gestação: Obrigatório na 1ª consulta do pré-natal, repetido no início do 3º trimestre, e realizado novamente no momento da admissão para o parto.
  • Impactos: Sem tratamento, a taxa de transmissão para o bebê atinge de 15% a 45%, transformando a criança em portadora crônica e deixando a pessoa gestante susceptível à graves infecções por conta do colapso do sistema imunológico.
  • Tratamento: Diante de um resultado reagente, a pessoa gestante inicia prontamente a Terapia Antirretroviral (TARV) combinada para suprimir a carga viral e é encaminhada para cuidado compartilhado em serviço especializado (SAE). Orienta-se a não amamentação após o parto, substituindo por fórmula láctea, e o recém-nascido recebe medicação profilática imediatamente.

Sífilis (VDRL e Teste Rápido)

  • O que é e Finalidade: Detecta a bactéria da sífilis. O teste rápido indica se você já teve contato, e o VDRL mostra se a doença está ativa no momento, permitindo monitorar a atividade da doença e a cura.
  • Momento da Gestação: Realizado na 1ª consulta, com repetição no início do 3º trimestre (28ª semana) e fundamentalmente no momento da internação para o parto.
  • Impactos: Quando não tratada, gera a Sífilis Congênita, resultando em teratogenia (anomalias e malformações estruturais no feto), abortamento, restrição de crescimento, prematuridade, hidropisia e uma elevadíssima taxa de óbito fetal intrauterino.
  • Tratamento: Exige intervenção imediata. Com apenas um teste reagente, inicia-se o tratamento da pessoa gestante e de seu(s) parceiro(s). O monitoramento do sucesso terapêutico faz-se acompanhando a queda dos títulos no VDRL de forma mensal até o fim da gravidez.

Hepatites B e C

  • O que é e Finalidade: São testes que detectam proteínas da superfície do vírus da Hepatite B (HBsAg) e anticorpos contra o vírus da Hepatite C (anti-HCV). Ambos avaliam a presença de infecções crônicas ou ativas que afetam de modo incisivo o fígado humano, buscando impedir o contágio vertical durante a gestação e principalmente no momento do nascimento.
  • Momento da Gestação: Coletados preferencialmente logo no início do pré-natal (1ª consulta). O HBsAg deve ser obrigatoriamente repetido no 3º trimestre.
  • Impactos: Se a pessoa gestante estiver infectada e o recém-nascido não for protegido ao nascer, os vírus podem causar infecção crônica na criança em até 90% das vezes, que ao longo da vida evoluirá para graves danos do fígado (cirrose, hepatocarcinoma). Na pessoa gestante, a infecção eleva as chances de diabetes gestacional, pressão alta e hemorragias uterinas severas.
  • Tratamento: Pacientes com Hepatite B com alta carga viral recebem terapia antiviral a partir do 3º trimestre. E o recém-nascido recebe a vacina e imunoglobulina especial até 12 horas após o nascimento. Para a Hepatite C, não existem medicamentos permitidos na gravidez, focando-se no acompanhamento com infectologista, restrição completa de procedimentos de risco no parto para não cruzar fluídos e testagem da criança. As pessoas não infectadas pela Hepatite B devem completar o calendário de vacinação no próprio posto de saúde.

Pesquisa de Estreptococo do Grupo B (EGB)

  • O que é e Finalidade: Coleta direta, usando um “swab” flexível (cotonete) na região vaginal e anorretal (ânus), a fim de identificar se a pessoa gestante está colonizada (carrega a bactéria) pelo Streptococcus agalactiae. Essa bactéria vive naturalmente na flora intestinal e vaginal sem causar sintomas na pessoa que está gestando.
  • Momento da Gestação: Coletado na fase final da gravidez, estritamente entre a 36ª e a 38ª semana de gestação.
  • Impactos: Durante o rompimento da bolsa amniótica ou na passagem pelo canal do parto vaginal, a bactéria pode atingir o recém-nascido, que ainda não tem o sistema imunológico maduro. Isso desencadeia a doença estreptocócica neonatal, uma infecção generalizada letal que evolui para sepse neonatal (infecção no sangue), pneumonia aguda e meningite nas primeiras horas de vida.
  • Tratamento: O tratamento não ocorre durante o pré-natal e sim exclusivamente no momento do parto. Pessoas gestantes com resultado positivo para o EGB (ou que tiveram urocultura positiva para EGB na gestação) devem obrigatoriamente receber antibioticoprofilaxia venosa intraparto durante todo o trabalho de parto na maternidade.

Exame Citopatológico do Colo Uterino

  • O que é e Finalidade: É o exame padrão-ouro para o rastreamento (triagem preventiva) do câncer do colo do útero. O profissional utiliza uma espátula e uma escova apropriada para coletar uma amostra de células da parte externa do colo uterino, chamada de ectocérvice, e do canal interno, a endocérvice. A finalidade deste exame é identificar precocemente a presença de células com formato e funcionamento anormais e diagnosticar lesões precursoras que podem evoluir para o câncer, frequentemente induzidas pelo Papilomavírus Humano (HPV). É importante compreender que, devido à ação dos hormônios da gravidez, o colo do útero fica mais com maior fluxo sanguíneo sensível, o que pode causar um leve sangramento durante ou após a coleta. No entanto, a coleta é totalmente segura e não causa abortamento, trabalho de parto prematuro ou outras complicações obstétricas.
  • Momento da Gestação: O exame pode e deve ser realizado em qualquer idade gestacional (1º, 2º ou 3º trimestre), não havendo restrições de período. Ele segue a mesma recomendação de rotina para pessoas adultas não grávidas. O pré-natal é uma excelente oportunidade para colocar esse rastreamento em dia, não sendo conveniente adiar a coleta para o puerpério (fase pós-parto).
  • Impactos Clínicos: As pessoas gestantes possuem o mesmo risco que as pessoas não grávidas de desenvolverem câncer do colo do útero ou suas lesões precursoras. Felizmente, o risco biológico de que uma lesão precursora progrida e se transforme em um carcinoma invasor (câncer que atinge os tecidos mais profundos) durante os meses de gestação é muito baixo. Contudo, se não diagnosticadas, lesões oncológicas podem obstruir o canal de parto e causar hemorragias perigosas. É fundamental também saber que intervenções cirúrgicas para a retirada de lesões no colo do útero não são indicadas durante a gravidez.
  • Conduta/Tratamento: A conduta é focada na segurança da pessoa gestante do bebê. Se o resultado do exame for normal ou indicar apenas processos inflamatórios, a pessoa gestante segue a rotina habitual do pré-natal. Se o resultado apontar lesões intraepiteliais de alto grau (alterações celulares severas), ela será encaminhada para a colposcopia (exame que utiliza um aparelho com lentes de aumento para inspecionar o colo do útero). O objetivo principal da colposcopia na gravidez é exclusivamente afastar a presença de um câncer invasor, evitando biópsias agressivas que poderiam gerar sangramentos intensos.

A Lei nº 14.598/2023 assegurou à pessoa gestante o direito à realização de pelo menos duas ultrassonografias obstétrica. A utilização racional e no tempo oportuno desses exames possibilita a detecção e a intervenção precoce diante de qualquer alteração estrutural ou de crescimento, reduzindo os riscos de complicações e garantindo um desfecho favorável e seguro para a sua gravidez.

Ultrassonografia Obstétrica Inicial

  • O que é e Finalidade: É um exame de imagem realizado preferencialmente por via transvaginal que tem a finalidade de confirmar a viabilidade da gestação (presença de batimentos cardíacos fetais) e determinar com alta precisão a idade gestacional.
  • Momento da Gestação: Deve ser realizada precocemente no 1º trimestre (até 12 semanas de gestação).
  • Impactos Clínicos: A datação imprecisa da gravidez tem impactos severos, podendo levar à prematuridade iatrogênica (quando o parto é induzido ou realizado por cirurgia antes do feto estar pronto, acreditando-se que a gestação estava mais avançada) ou ao aumento de induções desnecessárias por suspeita de gravidez prolongada (pós-datismo). Além disso, a não identificação precoce de uma gravidez múltipla (gêmeos) atrasa o início de cuidados específicos para evitar complicações maiores.
  • Conduta/Tratamento: A idade gestacional passa a ser calculada oficialmente pela primeira ultrassonografia realizada, não devendo ser recalculada em exames posteriores. Caso sejam detectadas gestações múltiplas, a paciente é encaminhada para acompanhamento em centros de maior complexidade, adaptando a frequência das consultas.

Ultrassonografia Morfológica de 1º Trimestre

  • O que é e Finalidade: Exame de imagem avançado que mede a Translucência Nucal – TN (acúmulo de líquido fisiológico na região posterior do pescoço do feto) e avalia o fluxo sanguíneo da pessoa gestante através da dopplervelocimetria (tecnologia que analisa a resistência dos vasos sanguíneos) das artérias uterinas. A finalidade é realizar o rastreio de risco para anomalias no número de cromossomos (alterações genéticas) e avaliar o risco de a pessoa gestante desenvolver pré-eclâmpsia (hipertensão arterial grave associada à gestação).
  • Momento da Gestação: Estritamente entre 11 semanas e 13 semanas e 6 dias de gestação.
  • Impactos Clínicos: O diagnóstico tardio de anomalias cromossômicas impede o adequado preparo psicológico e o aconselhamento genético familiar. Já a falha em prever o risco de pré-eclâmpsia pode resultar na não utilização de medidas preventivas, resultando em restrição de crescimento fetal, descolamento prematuro da placenta e grave risco de mortalidade da pessoa que está gestando.
  • Conduta/Tratamento: Se a TN for aumentada, a pessoa gestante é encaminhada ao pré-natal de Alto Risco ou Medicina Fetal para aconselhamento genético e investigação complementar profunda. Em caso de Doppler alterado nas artérias uterinas (sugerindo risco de pré-eclâmpsia), o médico ou enfermeiro da Atenção Primária prescreverá medidas profiláticas, como o uso diário de ácido acetilsalicílico (AAS) e suplementação de cálcio.

Ultrassonografia Morfológica do 2º Trimestre

  • O que é e Finalidade: É uma avaliação estrutural detalhada de toda a anatomia fetal. A finalidade da realização neste período específico baseia-se no fato de que os órgãos fetais já estão completamente formados e apresentam tamanho adequado para uma visualização detalhada, permitindo o rastreamento de malformações do sistema nervoso central, face, coração, trato gastrointestinal, rins e ossos.
  • Momento da Gestação: Deve ser realizada no 2º trimestre, entre 18 e 22 semanas de gestação (algumas diretrizes ampliam ou restringem levemente, citando 18 a 20 semanas para foco em crescimento).
  • Impactos Clínicos: A ausência desta avaliação pode resultar no nascimento inesperado de fetos com anomalias congênitas maiores (malformações graves).
  • Conduta/Tratamento: Diante de evidência ecográfica de malformações congênitas ou achados suspeitos, a pessoa gestante é prontamente encaminhada, via sistema de regulação, para o Pré-Natal de Alto Risco em Medicina Fetal. A equipe multidisciplinar traçará um plano de cuidados, garantindo que o parto ocorra em hospital terciário preparado para intervenção cirúrgica imediata no recém-nascido, se necessário.

Ecocardiograma fetal (se indicação clínica)

  • O que é e Finalidade: É um exame ultrassonográfico altamente especializado voltado exclusivamente para o estudo do coração do feto. O objetivo é diagnosticar precocemente cardiopatias congênitas estruturais ou arritmias. Indicado para fetos com translucência nucal aumentada, pessoas gestantes com diabetes pré-existente ou que desenvolveram diabetes gestacional, uso de medicações cardiotóxicas, gestações gemelares que dividem a mesma placenta ou histórico familiar de cardiopatia.
  • Momento da Gestação: O período ideal para sua realização é entre 26 a 30 semanas de gestação.
  • Impactos Clínicos: As cardiopatias congênitas estão entre as malformações mais comuns e letais. O não diagnóstico pode levar a uma descompensação cardíaca fetal ainda no útero (como insuficiência cardíaca e hidropisia fetal, que é o acúmulo de fluidos no corpo do bebê) ou morte do recém-nascido nas primeiras horas de vida por fechamento do canal arterial (vaso sanguíneo essencial que deve se adaptar após o nascimento).
  • Conduta/Tratamento: O achado de qualquer anormalidade exige encaminhamento imediato para o Pré-Natal de Alto Risco – Cardiopatia Congênita, garantindo que a gestação seja monitorada por pediatras especialistas e que o parto ocorra em centro com cirurgia cardíaca infantil disponível.

Ultrassonografia Obstétrica do 3º Trimestre (se indicação clínica)

  • O que é e Finalidade: Avaliação ultrassonográfica tardia focada em determinar as medidas do feto (circunferência abdominal, tamanho do fêmur e do crânio) para o cálculo do peso estimado, além de medir o Índice de Líquido Amniótico (ILA). Em gestações de risco habitual, as evidências científicas não demonstram benefício na realização de ultrassons de rotina após a 24ª semana. Sua finalidade aplica-se quando há suspeita clínica de que o crescimento fetal não está ocorrendo conforme o esperado.
  • Momento da Gestação: No 3º trimestre, apenas quando indicada por achados clínicos anormais (por exemplo, quando a medida da altura uterina está abaixo ou acima da faixa normal para o período gestacional).
  • Impactos Clínicos: A detecção permite diagnosticar a Restrição de Crescimento Fetal (quando a placenta falha em nutrir o bebê adequadamente, com grave risco de asfixia intrauterina e óbito fetal) ou a Macrossomia (crescimento excessivo, muitas vezes ligado ao diabetes, que aumenta os riscos de tocotraumatismo, ou seja, lesões no bebê durante o parto, como a distócia de ombros).
  • Conduta/Tratamento: Se confirmado diagnóstico de restrição de crescimento, oligoidrâmnio (pouco líquido) ou polidrâmnio (excesso de líquido), a pessoa gestante sai da classificação de “risco habitual” e é encaminhada ao Pré-Natal de Alto Risco. Lá, ela passará por exames avançados de vitalidade, como o estudo do fluxo de sangue pelo cordão umbilical e cérebro do bebê, a fim de programar o melhor momento para o nascimento e evitar o óbito intrauterino.
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