Com a pandemia de covid-19, a implementação de teleconsultas se acelerou no Brasil. Se em 2020 a média era de cerca de 200 mil atendimentos, em 2025 esse número passou para 3,1 milhões de teleconsultas, de acordo com um levantamento feito pela Serasa Experian e pela Saúde Digital Brasil (SDB).
Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), os atendimentos online foram implementados no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM). Das 334 teleconsultas feitas em 2025, 258 foram do setor de Psicologia, o que representa 77% dos atendimentos. Para o professor Gustavo Nogara Dotto, coordenador do Programa Integrado de Telessaúde, o número não se dá por acaso: quando enfrentam tratamentos complexos, como transplantes de medula óssea ou doenças oncológicas, os pacientes encaram também a sobrecarga emocional. “Cuidar da saúde mental faz parte do tratamento, não é algo extra. Quando a gente consegue oferecer esse suporte psicológico de forma remota, via telessaúde, o paciente não precisa escolher entre ir a uma consulta presencial e cuidar da mente. Ele tem acesso aos dois”, afirma.
Para Raquel Melchíades da Silva, psicóloga hospitalar no HUSM, o número expressivo de teleconsultas psicológicas pode estar relacionado a alguns fatores, como o aumento da ansiedade, da insegurança e do medo, além das mudanças na rotina que vêm com tratamentos de saúde complexos. Segundo a psicóloga, o formato da teleconsulta também facilita o acesso ao atendimento. “Muitas pessoas conseguem participar das consultas sem precisar se deslocar até o hospital, o que é especialmente importante para pacientes em tratamento prolongado, com limitações físicas ou que moram em outros municípios”, explica. Além disso, Raquel aponta que a conscientização sobre a importância da saúde mental como parte do cuidado integral em saúde aumentou nos últimos anos, o que pode explicar a maior procura por sessões de terapia.
A oferta de teleconsultas como complementares a tratamentos como os oncológicos são estratégicas, de acordo com Gustavo: “Há evidências consistentes na literatura de que pacientes com acompanhamento psicológico têm melhor adesão ao tratamento, se recuperam melhor e apresentam menos intercorrências. É uma estratégia que potencializa o resultado clínico como um todo”, argumenta.
Na prática, os benefícios também são percebidos pelos próprios pacientes. Ana Maria do Nascimento da Luz é de Santa Maria e foi atendida pelo Telessaúde em 2025, principalmente para tratar um quadro de ansiedade e depressão. Segundo ela, o acompanhamento trouxe mudanças importantes no seu bem-estar. “Eu tive uma melhora muito grande em tudo. Como eu disse para a psicóloga, eu tô bem, tô normal, aquela ansiedade foi embora, melhorou muito”, conta
O impacto da Telessaúde
Em consultas semanais, de 50 minutos, Raquel conecta o computador do Programa Telessaúde e atende perfis variados de pacientes, em diferentes faixas etárias e em diferentes condições de saúde. A maioria, no entanto, têm algo em comum: estão em acompanhamento médico contínuo e teriam dificuldades de fazer o acompanhamento psicológico presencial, seja por dificuldades de deslocamento e de mobilidade, seja por questões de saúde que dificultam que o paciente saia de casa. Exemplos são aqueles de cidades menores do interior do estado, que antes enfrentavam longas viagens para consultar especialistas e hoje conseguem esse atendimento em casa, em consultas de acompanhamento ou de rotina. “Isso representa menos custo, menos cansaço e mais agilidade no cuidado com a saúde”, afirma o coordenador, Gustavo Dotto.
Para a psicóloga, a telessaúde não compromete a qualidade da relação terapêutica: “Mesmo no atendimento online é possível construir vínculos terapêuticos sólidos, pois a escuta, a empatia e o acolhimento permanecem, do mesmo modo que ocorre num atendimento presencial”, explica Raquel.
Reportagem: Samara Wobeto, jornalista voluntária
Edição: Luciane Treulieb, jornalista
Design: Evandro Bertol, designer