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Coisa estranha – Educar e Cuidar



A seguinte contribuição faz parte da iniciativa Educar e Cuidar [clique e saiba mais]
e é de inteira responsabilidade do autor do texto. Contribua você também!

Valdo Barcelos – Prof. e escritor-UFSM

Existe um filme produzido nos Estados Unidos da América, na década de 60 do século passado, intitulado Caça de um clandestino. Ele conta a história de um pássaro que surge em Nova York e espalha pela cidade um estranho vírus contaminando toda a população. 

Coisa estranha: as pessoas passam, então, a agir de forma muito esquisita. Diminuem a agressividade; param de odiarem-se umas às outras – como ainda não havia as redes sociais elas destilavam seu ódio pelo velho e em extinção telefone fixo; ficam carinhosas, solidárias e amorosas; deixam de fumar; ficam extremamente gentis no trânsito; os casamentos duram mais tempo, pois, as pessoas brigam menos no cotidiano; nos ambientes de trabalho são educadas, não falam aos gritos com os “subalternos”; param de disputar pequenos – e podres – poderes; passam a cuidar mais de suas vidas e menos da dos outros(as). Enfim, todos(as) ficam terrivelmente pacíficos e absurdamente, insuportavelmente amorosos. Tudo muito estranho.

Coisa estranha: as autoridades governamentais ficam apopléticas. Nunca haviam enfrentado um “inimigo” tão poderoso. Um “inimigo” tão estranho. Percebem que se não detiverem o vírus imediatamente sua sociedade acabará indo à ruína. Será um caos. Diminuirão os acidentes de trânsito; cairá a venda de bebidas alcoólicas; os hospitais começarão a fechar; a arrecadação de impostos diminuirá drasticamente; a venda de armas despencará; a venda de remédios contra depressão diminuirá; o desemprego será enorme. Enfim, um caos econômico e social. Moral da história: a sociedade acaba funcionando em função dos horrores que ela própria produz. Por outro lado, percebe-se que o mundo não é um mero objeto para o qual olhamos. 

Coisa estranha: o mundo é, fundamentalmente, o resultado de como o vemos e, principalmente, de como somos, do que fazemos e não do que dizemos que fazemos. Em função disto, o mundo não pode apenas estar todo “errado”, mas, sim, o que pode estar “errado” é o modo como olhamos para ele, o modo como realmente vivemos. Uma das conclusões possíveis desta breve, e improvável teoria, é que não há como mudar o mundo sem a mudança na maneira como nos acostumamos a vê-lo e a vivê-lo. Penso que muitos de nós ainda não se deram conta disto. 

Coisa estranha: um mundo onde precisa acontecer uma catástrofe, como a pandemia do coronavírus, que estamos vivendo, para: os pais perceberem que não sabem como ficar junto dos filhos em casa; os filhos se darem conta da importância dos pais, dos avós; os jovens percebam a necessidade de olhar para os idosos.

Coisa estranha: um mundo em que as “pessoas de bem”, como gostam de dizer alguns, precisam de uma catástrofe para perceber que existem – fora dos muros de seus condomínios fechados – moradores de rua; pessoas em prisões; pessoas morando em condições miseráveis; pessoas morrendo de sarampo; de dengue; de tuberculose; de chicungunha; crianças morrendo de desnutrição e de diarreia.

Sobre a dificuldade dos pais de cuidarem e ficarem com seus filhos em casa, queria dar mais uma palavrinha. Parece que estamos nos transformando na única espécie animal incapaz de cuidar das próprias crias. Precisamos de um batalhão de profissionais – psicólogos, psiquiatras, pedagogos, etc. – para nos ensinar a (re)aprender a fazer o que qualquer animal nasce sabendo: cuidar, proteger e amar seus filhotes.

Coisa estranha: estar escrevendo sobre algo tão banal. 

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