A ocorrência de um novo El Niño nos próximos meses reacende discussões sobre os impactos da emergência climática na agricultura brasileira, especialmente nas regiões Sul do país. Nesse contexto, o curso de Agronomia do Campus da Universidade Federal de Santa Maria em Frederico Westphalen (UFSM/FW) desenvolve ações de ensino, pesquisa e orientação voltadas à adaptação das culturas agrícolas, à conservação dos recursos naturais e ao fortalecimento de práticas sustentáveis no campo.
Segundo dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), a probabilidade de ocorrência do fenômeno aumenta ao longo de 2026. Em abril, o Oceano Pacífico já apresentou sinais concretos do El Niño.
O que é o El Niño?
O fenômeno climático é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico. Para que ele seja oficialmente identificado, é preciso que a temperatura da superfície do mar permaneça acima da média por várias semanas, provocando alterações na circulação atmosférica. No Brasil, os efeitos variam conforme a região, enquanto o Sul costuma registrar aumento no volume de chuvas, outras regiões podem enfrentar períodos de estiagem. No Rio Grande do Sul, os impactos estão frequentemente associados ao excesso de umidade e dificuldades na produção agrícola.
A professora do curso de Agronomia da UFSM/FW, Gizelli Moiano de Paula, explica que compreender esses fenômenos climáticos faz parte da formação dos estudantes e também da atuação da universidade junto à comunidade regional. “Preparamos os estudantes sobre esses conceitos, sobre o que o El Niño nos traz e os impactos que ele provoca no Rio Grande do Sul. Também orientamos sobre a importância de buscar previsões e prognósticos em fontes confiáveis”, afirma.
Impactos na agricultura
A agricultura está entre os setores mais afetados pelos eventos climáticos extremos. O excesso de chuvas pode comprometer o desenvolvimento das culturas, dificultar o plantio e favorecer o surgimento de doenças nas plantas devido à alta umidade. Além disso, áreas sem manejo adequado podem sofrer processos de erosão e degradação do solo, causando prejuízos ambientais e econômicos.
Conforme a docente, situações semelhantes já foram observadas no estado. “Quando o El Niño vem com bastante intensidade, ele promove degradação do solo, especialmente em áreas sem cobertura adequada. Foi o que aconteceu em grande parte do Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024, quando a água levou parte importante da camada superficial do solo”, destaca. Os impactos também atingem outras áreas da produção agropecuária, como a pecuária leiteira e a produção de carne, além de culturas hortícolas e frutíferas, que podem apresentar redução na produtividade.

Manejo e práticas sustentáveis
Diante desse cenário, práticas de manejo e conservação do solo tornam-se fundamentais para minimizar os impactos causados pelas mudanças climáticas. Entre as estratégias recomendadas estão a rotação de culturas, o acompanhamento do zoneamento agrícola, o cuidado com a época de semeadura e a manutenção da cobertura do solo.
De acordo com Gizelli, a adoção dessas práticas contribui não apenas para preservar a produtividade, mas também para fortalecer a sustentabilidade no campo. “Quando o solo fica descoberto, há perda de nutrientes, de umidade e de partículas importantes. Por isso, práticas de manejo e conservação são essenciais “, explica. A professora ainda destaca o sistema de plantio direto como uma alternativa importante para reduzir impactos ambientais. A prática auxilia na conservação do solo e contribui para a diminuição da emissão de gases de efeito estufa.
Emergência climática e adaptação
Para a docente, os fenômenos climáticos extremos, provocados pela ação humana no meio ambiente, estão diretamente relacionados ao atual contexto de emergência climática, que é marcado pelo aumento das temperaturas globais. A professora ressalta que “hoje nós já estamos em um processo de alerta, que é o que chamamos de emergência climática. Precisamos mudar algumas práticas, inclusive na agricultura, porque esses fenômenos tendem a ocorrer com mais frequência e intensidade”.
Nesse contexto, a universidade desempenha papel importante na produção de conhecimento e no desenvolvimento de soluções voltadas à adaptação climática. Além de formação profissional, o curso de Agronomia da UFSM/FW desenvolve pesquisas e ações que incentivam o uso sustentável dos recursos naturais e o fortalecimento da agricultura regional.
“O curso de Agronomia da UFSM/FW preza por um futuro sustentável no campo. As diferentes disciplinas e pesquisas são desenvolvidas pensando em produzir com sustentabilidade e em fortalecer práticas que contribuam para o clima e para o planeta”, conclui a professora.
Texto: Sabrina Santana Lins, Bosista da Assessoria de Comunicação da UFSM/FW
Revisão: Cristina Guerini, Produtora Cultural