Nos aproximamos do Dia Mundial da Reciclagem, celebrado em 17 de maio. Uma data estabelecida pela Unesco para sensibilizar a sociedade sobre a importância da gestão adequada de resíduos e da Economia Circular. Na semana que marca essa importante efeméride, os alunos do Campus da UFSM em Frederico Westphalen (UFSM/FW)conheceram na prática o funcionamento de um projeto de logística reversa.
Estudantes dos cursos de Agronomia e de Engenharia Ambiental realizaram uma saída de campo para acompanhar o trabalho da empresa de Gestão Integrada de Resíduos e Águas Residuais – GIRAR, em Frederico Westphalen. Idealizada em setembro de 2025 pelo também aluno do curso da área ambiental, Lindomar André Zimmermann, a iniciativa trabalha com a coleta de vidros e a transformação do material, agregando valor à cadeia produtiva e mitigando os danos ambientais.

Ciclo infinito
Ao apresentar o projeto, Zimmermann falou sobre a capacidade de reciclagem praticamente infinita do vidro, devido ao seu alto poder de fusão. Segundo demonstrou, resíduos reciclados e triturados (conhecidos no setor como cacos ou cullet) são versáteis e podem ser transformados em diversos materiais funcionais e decorativos, reduzindo a necessidade de matéria-prima virgem e o impacto ambiental.
O empreendedor apresentou exemplos concretos de aplicação do material reciclado, para além da fabricação de novos potes e garrafas:
- Concreto e argamassa: vidro moído pode substituir areia na produção de alvenaria, vigas, lajes e calçadas.
- Asfalto: pode ser utilizado na mistura asfáltica para pavimentação de estradas e como tinta refletiva para sinalização de estradas, como em faixas de pedestres e lombadas, por exemplo.
- Decoração e arte: pode ser usado em jardins, vasos de plantas, para criar obras de arte, vasos e mosaicos.
Além dos exemplos apresentados, a areia do vidro reciclado serve para combater a erosão costeira, pois ela é segura e não corta, e o vidro triturado é mais eficaz que a sílica na filtragem de água de piscinas, pois não acumula bactérias. Ainda serve como isolamento térmico e acústico e pode ser reutilizado na fabricação de porcelanatos e cerâmicas.

Dificuldades
Durante a visita, os alunos ainda puderam conhecer de perto as dificuldades do mercado empreendedor após a saída da universidade. Conforme o empresário, os processos burocráticos foram o primeiro desafio enfrentado. Depois, a falta de apoio dos municípios na entrega dos resíduos e a ausência da coleta seletiva.
Outro problema, indica o sócio da GIRAR, está associado ao descarte inadequado do vidro pela população. Há bitucas de cigarro dentro de garrafas, potes com gordura e material orgânico misturado aos recicláveis.

Visão de futuro
A ideia de empreender surgiu durante a graduação, quando Zimmermann percebeu as dificuldades de acessar o mercado de trabalho formal na região e o potencial da Economia Circular do vidro. Sonhador, ele detém uma visão empreendedora que pretende gerar emprego e renda na região.
Segundo pesquisa de mercado do empreendedor, a estimativa é que os 31 municípios integrantes do Consórcio Intermunicipal de Gestão de Resíduos Sólidos, da região do Noroeste gaúcho, recebam 500 toneladas por ano somente de vidros descartados e hoje destinados a terceiros. O material, após triturado, valoriza cerca de cem vezes. Enquanto a embalagem descartada é vendida por cerca de 18 centavos o quilo, o valor do quilo processado chega a R$ 21, explicou. Se tivesse acesso à metade desses materiais descartados, estima que sua empresa poderia gerar, pelo menos, mais dez empregos diretos.
Sua proposta de sustentabilidade vai além das fronteiras. Detentor de uma ideia inovadora, o empresário pretende criar uma ferramenta de “crédito de vidro”, similar aos projetos de Crédito de Carbono. O conceito, explica, é fazer com que o descarte de vidros oriundo de grandes geradores permita compensações ambientais.

Importância de atividades fora da sala de aula
Para os alunos, comenta o professor Fernando Panno, que organizou a visita ao local, esta é uma oportunidade para eles conhecerem os problemas e as soluções na prática. “Criar esses momentos de experiência, é ver como o mercado se comporta, quais são os desafios e as alternativas que os empreendedores têm para se manter no mercado”, explica. Além disso, pontua o docente do Departamento de Ciências Agronômicas e Ambientais, “o objetivo é tirar os estudantes da teoria e colocar em confronto com a prática, para que tirem proveito desses momentos para suas decisões futuras”.

Realidade local, plano global
A reciclagem é um dos pilares centrais para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU. Trata-se de um mecanismo que atua na conversão direta de resíduos em matéria-prima, viabilizando a economia circular e preservando a integridade dos ecossistemas. O reaproveitamento dos resíduos é fundamental para o cumprimento dos objetivos 11 e 12 da Agenda, mas impacta de maneira positiva em diferentes outras metas estabelecidas.
Nesse sentido, o professor Panno explica que Zimmermann tem um papel de suma importância. “Talvez nem ele saiba o quanto, mas se olharmos os objetivos 11 e 12 da Agenda, o primeiro é tornar as cidades mais limpas”, aponta. “Esse o grande desafio que ele tem. É por isso que ele busca tanto parcerias quanto aberturas, porque sabe que tem condições de eliminar, principalmente, o vidro das ruas, para que tenha um destino mais adequado e gere novos produtos e novos valores, que é o princípio da economia circular”, complementa.
Além disso, o descarte, a coleta e o destino de resíduos de forma adequada se enquadram na principal estratégia do Governo Federal para transitar do modelo linear extrair-produzir-descartar para um sistema circular, dentro do Plano Nacional de Economia Circular. O instrumento, que é focado em regeneração, redução de resíduos e máxima circulação de materiais, “acompanha a tendência global de repensar o crescimento econômico com foco na sustentabilidade”, explica o site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços . “O documento, que entrou em vigor em 2025, apresenta 18 macro-objetivos e 71 ações para implementar a circularidade na economia brasileira nos próximos 10 anos”, informa.