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Protagonistas da resistência: a luta das mulheres Kaingang contra a violência no Território do Guarita e pela juventude indígena

Mobilização reuniu a comunidade para debater o combate ao machismo, a prevenção ao feminicídio e o resgate da saúde mental e da ancestralidade entre os jovens indígenas.



Discussões durante a 5ª Mobilização das Mulheres Indígenas Kaingang

Sob o tema “Entre memória e movimento, construindo redes de cuidado para as juventudes indígenas”, a 5ª Mobilização das Mulheres Indígenas Kaingang do Território do Guarita reuniu mulheres, jovens e a comunidade para reafirmar a resistência dos povos originários no Sul do Brasil. O encontro marcou um momento de denúncia, acolhimento e reconstrução de caminhos frente a desafios urgentes: o combate ao feminicídio, o enfrentamento ao machismo nas aldeias e a urgência de resgatar os sonhos e a identidade da juventude indígena.

O evento ocorreu nos dias 26 e 27 de agosto de 2026 e contou com a participação de indígenas do território de Apucaraninha, no Paraná. Ao longo do primeiro dia, as discussões foram realizadas no Centro Cultural de Tenente Portela, organizadas no formato de mesas, com a presença de indígenas e equipes que dão suporte à comunidade da aldeia. No segundo dia, as escolas realizaram os Jogos Escolares Indígenas por meio de competições esportivas, contando com modalidades como arco e flecha e bodoque.

A Universidade Federal de Santa Maria Campus Frederico Westphalen (UFSM/FW) esteve presente por meio da equipe de docentes que ministra aulas no curso de Licenciatura Intercultural Indígena. A graduação leva o ensino superior gratuito e de qualidade para os povos indígenas em cinco aldeias da região do Médio Alto Uruguai, no Rio Grande do Sul, entre elas a Terra Indígena Guarita, que é a maior reserva do estado com mais de 23 mil hectares. A área abrange os municípios de Tenente Portela, Redentora e Erval Seco e tem população aproximada de 7 mil pessoas.

Luta pelo fim da violência nos territórios

O encontro colocou no centro dos debates a proteção das mulheres indígenas contra todas as formas de violência e a prevenção do feminicídio. Sob a bandeira de transformar o “luto em luta”, o Grupo de Trabalho (GT) Guarita reafirmou sua força na prevenção da violência dentro do território. As participantes destacaram que a violência de gênero não é parte da cultura ancestral. “Nenhum tipo de violência faz parte da cultura indígena”, afirmaram os integrantes da terceira mesa do dia.

Os participantes assinalaram a necessidade de combater o machismo estrutural que se infiltrou nas aldeias como reflexo do processo de colonização. As mulheres Kaingang ressaltaram que a defesa do território ancestral é indissociável da defesa do corpo das mulheres indígenas, exigindo a criação de redes internas e externas de proteção e acolhimento.

Participantes durante o encontro no Centro Cultural de Tenente Portela

Juventude, cultura adormecida e saúde mental

Segundo dados do Relatório Violência Contra Povos Indígenas no Brasil – 2025, lançado pelo Conselho Indigenista Missionário – Cimi em agosto deste ano, houve aumento nos conflitos relativos a direitos territoriais, assassinatos, suicídios e da mortalidade na infância. O documento apontou 215 suicídios entre os indígenas em um único ano. Por isso, um dos momentos mais profundos do encontro abordou a crise de saúde mental que afeta os jovens indígenas, que tem resultado no aumento de casos de depressão nas comunidades.

Em sua contribuição para o debate, Milena Jynhpó, do TI do Guarita e estudante do curso de Direito, ressaltou que a ausência de esperança entre os jovens está associada a séculos de apagamento, perseguição e violência contra os povos indígenas do Brasil. “A juventude indígena está sem perspectivas. Não tem sonhos e quer voltar a sonhar. Há mais de 500 anos os indígenas precisam se adaptar ao modelo de vida dos brancos, à realidade imposta pelos colonizadores”, afirmou.

Embora o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) realize esforços de atendimento coletivo, as lideranças cobraram a presença de mais psicólogos e a formação de médicos indígenas. De acordo com Milena, a resposta para essa crise passa por um atendimento em saúde mental sensível à cosmovisão originária. “Necessitamos de atendimento à saúde mental especializado e adaptado ao modo de vida do nosso povo”, disse.

“A terra está em nós”

Na opinião de Gilda kuitá, historiadora e membro da Terra Indígena de Apucaraninha, o adoecimento mental da juventude indígena está associado ao apagamento e a discriminação e possui quatro fatores. “O primeiro é a perca da espiritualidade, o segundo é perca da cultura, que está adormecida entre os jovens, seguido da perca da identidade indígena e do preconceito com o idioma do povo”.

Conforme explica a indígena, que recebeu o dom da espiritualidade, são os professores que devem resgatar a cultura e a espiritualidade perdidas para repassar aos jovens. Como ouvinte do encontro, ela fez um convite à reflexão para a juventude indígena, afirmando que eles devem “perceber que a espiritualidade está em tudo, nas relações sociais, na alimentação, no modo de vida, em tudo o que os cerca”.

Ao comentar sobre a cosmovisão Kaingang do mundo, Gilda pontuou “que a espiritualidade do seu povo se conecta com as plantas, com a terra, com a água e com as pedras” e que a espiritualidade é o principal tratamento para resgatar os jovens do adoecimento mental. Na visão dos Kaingang, eles surgiram da terra, saindo de dentro da montanha sagrada no começo de tudo, por isso, afirma a indígena, “a terra está em nós”.

Educação, retomadas e presença nos espaços de poder

A educação emergiu no evento como a principal ferramenta para transformar a realidade e retirar os jovens da marginalidade. Iniciativas como a Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP) foram celebradas por abrir portas no ensino superior, gerando igualdade e oportunidades especialmente para as mães indígenas.

A jovem Vanessa Fe Há enfatizou que o povo Kaingang precisa ocupar todos os espaços da sociedade civil, inclusive a comunicação. Com apenas 63 jornalistas indígenas formados no Brasil, o evento alertou para a urgência de disputar a narrativa pública e romper com a invisibilidade que afeta os povos da Região Sul. A luta pelas retomadas territoriais foi reafirmada como caminho indispensável de soberania e preservação da vida.

Caderneta da Mulher Kaingang

Ao comentar a importância do evento, Roselaine Emília Amaral, intérprete de Kaingang no hospital de Tenente Portela, pontuou que “o maior desafio que as mulheres indígenas enfrentam é o preconceito”. Como caminho para transformar esse cenário, a liderança defende o fortalecimento dos mais novos: “Os jovens precisam se sentir parte da comunidade e saber que não estão sozinhos. A ancestralidade nos trouxe até aqui; se não fosse pela luta dos que vieram antes, não estaríamos mais aqui.”

A tarde do primeiro dia foi também marcada pelo lançamento prévio da Caderneta da Mulher Kaingang, um documento que vai atravessar todas as fases da vida das mulheres para explicar sobre os direitos, violência e saúde. O documento ainda está em construção e o piloto do material foi entregue para que a comunidade possa trazer outras contribuições.

Ao final do encontro, o Território do Guarita deixou um recado claro: o espaço indígena é o lugar do coletivo e do acolhimento e as mulheres indígenas são a força e a resistência contra todas as formas de violência. A juventude Kaingang só voltará a sonhar quando a cultura tradicional e o direito de existirem em sua plenitude forem devidamente respeitados.

Texto e fotos: Cristina Guerini
Divisão de Divulgação Institucional da UFSM/FW

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