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Cultura indígena viva na universidade

UFSM oferece cursos de línguas Guarani e Kaingang para a comunidade acadêmica e externa para valorizar a tradição dos povos originários



“Aprender uma língua indígena com os detentores dessa língua é uma oportunidade ímpar”. É dessa forma que Juan Rafael de Abreu da Silva, egresso do Curso de Letras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), descreve sua experiência em conhecer mais sobre um dos idiomas que deram origem e inspiraram muitos termos do português falado no Brasil. 

 

Assim como ele, em 2022, cerca de 114 alunos participaram dos cursos promovidos pela Subdivisão de Ações Afirmativas Sociais, Étnico-Raciais e Indígenas da Coordenadoria de Ações Educacionais da UFSM (CAEd) – PROGRAD. Os cursos foram criados com o propósito de cultivar a identidade dos povos originários no espaço acadêmico. As atividades foram realizadas semanalmente de forma online.

 

O curso básico de Língua Guarani foi aberto à comunidade interna e externa da UFSM e reuniu 84 participantes. Já o curso básico de Língua Kaingang foi aberto apenas a integrantes da etnia, sejam eles da Universidade ou não, e teve 30 alunos inscritos. De acordo com a CAEd, atualmente estão regularmente matriculados na UFSM 74 estudantes indígenas da etnia Kaingang; três estudantes indígenas Guarani Mbyá e um aluno Guarani Kaiowá. No total, são 106 estudantes indígenas na Instituição. Outras etnias presentes são: Xacriabá, Terena, Tupiniquim, Xipaya, Tukano, Tikuna, Parecis, Baniwa, Pitaguary, Coroaia e Wanano.

Descrição da imagem: ilustração horizontal e colorida de uma tela de Google Meet com nove participantes. Na parte superior esquerda, em tamanho grande, tela de um homem indígena, com pele escura, olhos grandes e na cor marrom, sobrancelhas pretas, cabelo liso e preto, grafismos de linhas nas bochechas. Ele veste camiseta verde claro e usa um cocar com suporte vermelho e penas nas cores branca, amarela e verde. As mãos estão levantadas e há dois balões de fala, um de cada lado, com as palavras 'Kaingang' e 'Guarani'. Os demais participantes estão com o microfone desligado. Tem uma mulher indígena, dois homens indígenas, duas mulheres brancas, um homem branco, uma mulher negra e um homem negro. O fundo da tela é cinza.

Emily Massariol, acadêmica de Terapia Ocupacional na UFSM, participou das aulas de língua Guarani. Para ela, o conhecimento adquirido no curso qualifica ainda mais sua formação e pode refletir em atendimentos mais humanizados às pessoas indígenas no futuro: “É necessário que nós, profissionais da saúde, tenhamos conhecimento sobre como é o cotidiano e a cultura dessa comunidade”, afirma Emily.

Para além da língua

Os cursos são divididos em módulos e, mais do que ensinar um idioma, buscam estimular o resgate cultural das etnias. Inicialmente, os encontros abordam características básicas da cultura, como palavras e expressões cotidianas. Depois, parte-se para aspectos como audição e pronúncia, criação de frases e conversação. Temas como o meio ambiente, crenças e tradições também fazem parte das discussões em aula.

 

Joceli Sales, indígena formado em História pela UFSM, é o professor responsável pelas aulas do curso de etnia Kaingang. Ele, que também leciona para crianças e adolescentes na Escola Estadual de Ensino Fundamental Indígena Augusto Ópẽ da Silva, explica que no curso o maior desafio é ensinar para pessoas que têm o primeiro contato com a língua. “É diferente, pois estou acostumado com crianças que já vêm falando de casa, então cuidamos mais da escrita da língua”, comenta. 

 

A antropóloga e docente do Departamento de Ciências Sociais da UFSM, Maria Catarina Chitolina, ressalta que oportunidades como essa são enriquecedoras para quem aprende. “Cada língua, como elemento dinâmico, traz consigo séculos de história, aprendizados e trajetórias que se intercruzam”, afirma. Ela lembra que, normalmente, as línguas indígenas são repassadas entre os povos pela oralidade. Por isso, proporcionar o aprendizado por meio de outros métodos didáticos é também uma forma de fortalecer as práticas linguísticas das comunidades ao longo do tempo. 

 

Kesia Valderes Jacinto é Kaingang e encontrou nas aulas uma oportunidade de aprofundar seus conhecimentos na língua de origem. “Decidi fazer o curso porque nunca tive um professor da língua Kaingang no decorrer da minha trajetória escolar. Aprendi a ler e a escrever em casa, com o apoio da minha avó”, conta. Kesia faz parte da comunidade externa à UFSM e atualmente reside na Terra Indígena Nonoai, em Planalto, no norte do Rio Grande do Sul.

Preservação de saberes

Adilson Policena, indígena da etnia Kaingang e ex-professor do curso, defende que a Universidade deve ser um ambiente plural, mas que, por vezes, apenas valores de determinados grupos prevalecem. Segundo ele, iniciativas voltadas ao reconhecimento de saberes nativos ajudam a transformar essa realidade: “Junto com a sociedade de hoje, a gente tem capacidade para fazer essa mudança. E a Universidade é um espaço onde a gente pode fazer a diferença”, pontua.

 

Para Jonata Benites, professor indígena que ministra as aulas de Guarani, o curso possibilita refletir sobre as particularidades de cada etnia, comumente tratadas como iguais pelo senso comum. “Cada um tem sua cultura, sabedoria, forma de vivência e isso é importante”.

 

As línguas indígenas desempenham papel fundamental não apenas como forma de comunicação, mas também como ferramenta de transmissão de conhecimentos nas mais diversas áreas. Apesar de todo esse valor, as línguas indígenas estão em constante ameaça de extinção. Segundo o Atlas das Línguas em Perigo da Unesco, são 190 idiomas em risco no Brasil. O mapa reúne línguas em perigo no mundo e o Brasil é o segundo país com mais idiomas que podem desaparecer, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. O levantamento motivou a Organização das Nações Unidas (ONU) a declarar a década de 2022-2032 como a Década Internacional das Línguas Indígenas

 

Os educadores reconhecem que dificilmente os estudantes indígenas têm a oportunidade de usar o idioma nativo em sala de aula nos seus cursos formais. Por isso, atividades extracurriculares voltadas ao ensino e à manutenção das línguas incentivam a busca pelo conhecimento acadêmico, sem que se perca o contato com as culturas de origem. 

 

A CAEd informa que há previsão de oferta de novas turmas para os cursos de línguas indígenas em 2023. A divulgação de inscrições deve ser publicada no site.

Expediente:

Reportagem: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

Design gráfico: Evandro Bertol, designer;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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