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UFSM ensina a história afro-brasileira de forma lúdica por meio de maquetes

Projeto desenvolvido pelo Departamento de História da universidade incentiva futuros professores a buscarem novos métodos de educação



Novembro é conhecido como o Mês da Consciência Negra. A data mais importante deste período é o dia 20, que marca a morte de Zumbi dos Palmares, um dos principais ícones nacionais de resistência ao racismo. No entanto, uma luta que já perdura por cinco séculos não pode ser resumida a um mês, tampouco a um mero dia. O principal espaço para discutir este tema com o intuito de formar cidadãos conscientes do passado e, principalmente, dispostos a mudar o futuro, é a sala de aula.

O Laboratório de Arqueologia, Sociedades e Culturas das Américas (LASCA), ligado ao Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria, produz maquetes com intuito pedagógico desde 2006. Após a atualização nas diretrizes e bases da educação nacional, que determinou a obrigatoriedade da história e cultura afro-brasileira e indígena nos currículos da rede básica, o LASCA começou a criar maquetes para ensino da história afro-brasileira em 2010.

André Luis Ramos Soares é o coordenador do laboratório e também do projeto “Construindo Maquetes: Um suporte lúdico para o ensino de história”. Seis de suas maquetes, que retratam a história africana e afro-brasileira, foram tema de artigo em uma revista de história da Universidade Federal de Pelotas. “Minha proposta é trabalhar a pedagogia de forma lúdica. Quero não apenas que as pessoas vejam o conteúdo, mas que se envolvam com ele”, comenta.

O principal objetivo das maquetes é incentivar os futuros professores de história a investirem em abordagens lúdicas de ensino. O projeto deixa de lado o giz e o quadro verde para “dar vida” aos temas abordados nos livros teóricos. Cada maquete proporciona a visualização concreta das representações dos acontecimentos históricos, tipologias arquitetônicas, acidentes geográficos, fenômenos climáticos e ambientais, entre outros.

História de longa duração

Fernand Braudel, historiador francês e um dos principais representantes da “Escola dos Annales”, movimento historiográfico do século 20 que incorporava métodos das Ciências Sociais à História, desenvolveu uma série de noções temporais que se tornaram basilares nos estudos do campo. O francês dividiu os eventos históricos em acontecimentos de tempo curto, tempo cíclico e longa duração. É neste último aspecto que as maquetes se encaixam. 

Cada miniatura apresenta eventos que duraram mais de um século e que repercutem na formação social do país até os dias atuais. “A casa grande e a senzala remetem a uma estrutura de poder que durou mais de 300 anos e deixou marcas até hoje. O quarto de empregada e o elevador de serviço, por exemplo, é a metamorfose da senzala nos dias atuais”, compara o professor André Soares. 

Os períodos retratados em cada maquete são os seguintes:

Grande Zimbábue: O Reino de Zimbábwe (c.1220-1450) estava localizado no atual Zimbábue, sua formação antecede o século 11 e teve seu apogeu entre os séculos 13 e 15. A maquete apresenta um reino com características similares a outros reinos contemporâneos.

Navio Negreiro: A base para a criação da maquete vem do poema homônimo de Castro Alves. Além da obra literária, foi utilizada pesquisa arqueológica e documental sobre o período de tráfico humano pelo Atlântico que ocorreu do século 16 até meados do século 19.

Casa Grande e Senzala: O livro de Gilberto Freyre publicado em 1933 mostra como a arquitetura do espaço colonial expressa organização social e política vigente no Brasil antes do processo de urbanização e industrialização. A arquitetura da época era pensada para reforçar a segregação e a opressão.

Quilombo dos Palmares: Se não o maior, o quilombo mais famoso da História Afro-Brasileira.  Era espaço de resistência à escravidão que, além da população negra, abrigava todo o tipo de excluídos – como índios, e brancos à margem do regime escravista.

Charqueada de São João: A indústria do charque foi o grande motor da economia agropecuária no Rio Grande do Sul. No entanto, esses espaços também ficaram conhecidos como “purgatório dos negros”, por conta das condições degradantes de trabalho, mesmo para o contexto de escravidão. A maquete retrata a Charqueada de São João, em Pelotas, onde Soares fez escavações no sítio arqueológico.

O Cortiço: Baseado no livro de Aluísio de Azevedo, retrata a marginalização da população negra no pós-abolição, a qual continuou a sofrer com a invisibilidade e exclusão social decorrentes do racismo estrutural e que se estendem até os dias atuais.

Processo de criação

Cada maquete leva de seis meses até um ano para ficar pronta. A maior parte desse tempo é investido em pesquisas bibliográficas, que servem como a planta de cada maquete. Cada detalhe presente nas representações possui a sua própria história. Algumas maquetes, como a do navio negreiro e casa grande e senzala, foram construídas com o suporte de alunos do curso de Arquitetura, a fim de conferir a máxima precisão teórica e técnica aos projetos. 

 “A maquete do navio negreiro, por exemplo, contém uma série de informações históricas. É uma nau típica portuguesa. A vela traseira em formato de triângulo é chamada de vela redonda porque ela gira em torno do eixo. A vela quadrada já é diferenciada. A pesquisa serve para colocar detalhes nas maquetes que sejam fidedignas ao que deveria ser uma embarcação desse tipo.  Cada uma dessas maquetes é muito detalhada, porque estamos usando elas em uma proposta de ensino de história”, detalha o professor André Luis Ramos Soares.

As maquetes mais baratas custam cerca de R$ 100, enquanto as mais caras podem custar de R$ 200 até R$ 400. O nível de detalhes e elementos utilizados torna o valor final considerável. “Por conta da ausência de recursos públicos, eu mesmo compro os materiais. Não sei o quanto já gastei”, relata Soares.

O outro lado da história

O professor destaca que o principal papel da escola é proporcionar conhecimento de caráter técnico e científico, pois os alunos já trazem sua bagagem de valores humanos por meio do convívio da sua família. O que os professores podem fazer para promover uma educação que não combata apenas o racismo, mas também misoginia, homofobia e demais formas de opressão é apresentar o outro lado. “O papel da escola é levantar as questões para serem discutidas. A gente não pode convencer as pessoas, mas a gente pode tentar mostrar pra elas que existem outras abordagens,  Outros pontos de vista, outros vieses. Meu papel é colocar o dedo na ferida, tirar as pessoas da sua zona de conforto”, considera o professor.

Soares relata que o ensino decolonial – que busca contar a história por perspectivas diferentes da eurocêntrica, branca e católica – tem ganhado cada vez mais adeptos entre as novas gerações de professores. “Professores da minha faixa etária e mais velhos não conseguiram fugir do modelo tradicional. Atualmente, cada vez mais professores têm procurado fazer especialização e mestrado na área de estudos decoloniais, tentando contar uma versão diferente da história”.

No artigo já citado, é contada a experiência da apresentação das maquetes no Colégio Estadual Elpídio Ferreira Paes, em Porto Alegre. O colégio tem em torno de 850 alunos e  atende aos bairros periféricos da zona sul da capital, que sofrem com altos índices de criminalidade. Desde 2005, as áreas de História, Sociologia e Filosofia passaram a ter uma condução afrocentrada. Por causa desse trabalho, a escola foi escolhida para receber as maquetes. 

O professor detalha a experiência de apresentar o seu trabalho em um colégio com boa parte do seu corpo discente composta por estudantes negros. “A questão do protagonismo negro, do se ver, é essencial. Por isso que muitos professores levaram seus alunos para assistir ao filme do Pantera Negra, por trazer esse protagonismo. Meu trabalho é proporcionar essa visibilidade por meio das maquetes”.

O professor já tem planos de criar uma nova maquete. Esta irá retratar impérios africanos que construíam pirâmides antes mesmo do império egipcio, 5 mil anos antes de Cristo.

O professor deixa o convite para que as escolas  de Santa Maria o chamem a levar esta e outras maquetes para os alunos. Sua condição, no entanto, é que esse pedido não seja feito apenas no mês de novembro: “ É um absurdo abordar a história afro-brasileira apenas no dia 20 de novembro, esse é um processo que deve ser trabalhado todos os dias pelos professores”.

Expediente

Reportagem: Bernardo Salcedo, acadêmico de Jornalismo e bolsista

Ilustração:  Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e voluntário

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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