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Elas escolheram não se eximir



Eu nunca imaginei receber o diagnóstico de câncer. Ainda mais morando em uma cidade de interior, onde mal temos um posto de saúde. A cidade grande é uma das únicas opções para mim, já que onde eu vivo os hospitais não oferecem tratamentos desse tipo. E agora? Bom, eu consigo marcar as consultas, fazer os exames e, se não fosse pelo fato de eu ter que voltar muitas vezes ao hospital, tudo poderia ser um pouco mais fácil. Mas tudo bem, eu realmente vou enfrentar essa. E não vou sozinha. Só resta uma questão: durante o meu tratamento, onde vou ficar? Não tenho dinheiro para pagar uma pousada, nem tenho como vir e voltar para minha cidade toda hora. Como é que eu vou fazer? Ouvi falar de casas que dão pouso para quem precisa, mas será que vai ter lugar? Se não tiver, não vou ter como ficar, nem como me tratar. E agora?

Essa é a realidade de muita gente que vem ao Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) para fazer tratamento contra o câncer e outras doenças. Vir de outra cidade, fazer tratamento, estar longe de casa e de quase toda a família. Tudo isso abala quem se encontra em uma situação delicada como essa. Mas ser acolhido em uma casa que, além de abrigo e alimentação, dá amigos, atenção e apoio psicológico pode ser uma alternativa para não se abater e encarar a doença de uma forma bem mais positiva.

A vontade de ajudar

A sensibilidade de dona Leonilda Oliveira em perceber que a cidade contava com poucas casas de apoio a pessoas em tratamento oncológico foi o marco inicial de um projeto que estava por nascer. Era dia 28 do mês de março de 2013. Interessadas em ajudar e com disponibilidade financeira para fundar uma ONG, ela e outras 14 pessoas iniciaram um projeto voluntário e abraçaram a causa. A partir da necessidade de um lugar como este em Santa Maria e do comprometimento de todos os voluntários, esforços foram unidos para criar a Casa Maria.

Após um ano de funcionamento, a Casa recebe cada vez mais pacientes e também pessoas para ajudar no trabalho. Ela já conta com 15 funcionários remunerados e recebe apoio de empresas como a DPI Soluções em Impressão e o Programa Mesa Brasil Sesc, além de uma ajuda do Lions Clube Santa Maria Camobi.

A Casa se mantém através dos doadores e de doações tanto de pessoas físicas quanto jurídicas, que contribuem não só com comida, objetos, medicamentos, dietas específicas e vestuário, mas também com doações em dinheiro. Há ainda uma parceria com o supermercado Nacional, que apoia a Casa Maria e promove o sábado solidário, no qual acontece a arrecadação de alimentos da população.

Além de oferecer acolhimento, acompanhamento psicológico, alimentação, medicamentos e conforto aos pacientes, a Casa se preocupa com ações preventivas ao câncer. Com intuito de esclarecer sobre a doença, são promovidas palestras em escolas e empresas.

Atualmente, a ONG funciona com o trabalho de 16 pessoas assalariadas. Conta ainda com 23 leitos para o atendimento de cerca de 250 pessoas por mês. Trata-se da única casa de Santa Maria que recebe pacientes adultos pós-transplante de medula óssea. Para estes, disponibiliza dois quartos com banheiro exclusivo.

A estrutura funciona com o empenho de uma assistente social, uma psicóloga, uma pessoa responsável pela limpeza, outra pelo Centro de Processamento de Dados, um administrador, um coordenador, três arrecadadores de doações e oito pessoas no telemarketing. A Casa ainda conta colaboração de voluntários.

Ajuda ao próximo 

Assim como Leonilda, outras pessoas têm interesse em ajudar o próximo. É o caso de Dunia Ramos, ex-enfermeira e professora aposentada que resolveu doar a sua casa para acolher os pacientes de fora de Santa Maria que se tratavam no HUSM. Assim nasceu o Abrigo Assistencial Leon Denis, criado em 1993 com o apoio de voluntários, diante da constatação de que as pensões do bairro de Camobi eram muito caras e inviabilizavam a hospedagem para pessoas que não tinham condições de pagar o preço das diárias.

No princípio, o abrigo surgiu para acolher somente adultos em tratamento oncológico, porém um acontecimento muito singular fez quase tudo mudar. Logo no início do funcionamento da Leon Denis, muitas crianças em tratamento contra a leucemia começaram a se abrigar na casa. Entretanto, a administração não achou correto manter crianças e adultos juntos, por isso foi criada uma filial do abrigo.

Esse episódio ocorreu porque naquela época ainda não existia nenhuma casa no bairro que abrigasse apenas crianças em tratamento. Orieta Ramos, irmã de Dunia, que já estava envolvida com o projeto, cedeu um apartamento no centro da cidade para acolher essas crianças. Porém, por motivos financeiros, a filial durou apenas dois anos vinculada a Leon Denis e depois se separou, dando origem à Casa de Apoio à Criança com Câncer, o CACC.

A casa sempre funcionou com trabalho voluntário, até mesmo nos cargos da Diretoria Executiva. Atualmente, a diretoria é formada por Orieta Ramos (presidenta), Vera Santos (vice-presidenta), Vera Cristina Dorneles (primeira secretária), Gianete da Silva (segunda secretária), Dunia Ramos (primeira tesoureira) e Adriana Carpes (segunda tesoureira).

Com reuniões mensais, a diretoria administra o Abrigo com o apoio do Lions Camobi e colaborações, geralmente pequenas, de pessoas físicas. Além disso, há também um brechó mantido através de doações de vestuário, utensílios domésticos e brinquedos. A casa já fez mutirões para arrecadar comida nos mercados, mas a diretoria resolveu parar depois de um tempo, pois sempre houve dificuldade para arranjar voluntários na coleta. Outra ajuda importante vem dos trotes solidários da UFSM, que arrecadam uma quantidade grande de roupas e alimentos.

O Leon Denis não disponibiliza medicamentos nem dietas, somente hospedagem e alimentação. No entanto, os pacientes que ficam ali podem se cadastrar na Casa Maria para receber as dietas específicas, pois embora não exista uma interdependência entre as ONG’s, elas mantêm uma relação de apoio.

Além de receber pacientes adultos em todos os tipos de tratamentos e vindos de outras cidades, hoje a Leon também acolhe quem mora em Santa Maria, mas vive longe do HUSM. Cerca de 15 pessoas são acolhidas por mês no Abrigo, que conta com 11 leitos femininos e oito masculinos. Segundo dona Orieta, embora haja uma alternância na lotação, elas fazem questão de manter aberta em finais de semana e feriados. O abrigo acolhe também as mães de crianças que estão internadas no Hospital e Dunia garante que elas só saem da Casa quando a criança recebe alta da internação.

No aconchego de um lar

            Acolhimento. Esse é o sentimento que o nome “Maria” passa para quem faz parte da história da Casa. O nome foi escolhido porque “em casa de Maria sempre cabe mais um” sempre há um conforto de mãe. Na Leon Denis não é diferente. Na época da fundação, o nome foi uma homenagem a um importante filósofo e médium do espiritismo, embora a casa nunca tenha seguido uma crença. Apenas preza pela esperança e dá amparo a quem precisa.

Todo o trabalho realizado nas casas de apoio é primordial para a vida dos pacientes. Esse conforto oferecido de forma voluntária, sem fins lucrativos e de maneira afetuosa é sentido por eles e retorna em forma de sorrisos, esperança, alegria e o tão esperado fim do tratamento.

Élio da Silva Souza, 72 anos, morador do município de Vila Nova do Sul, em meio a sorrisos, diz que a sensação de amizade, carinho e respeito já foi perceptível desde a primeira vez que visitou a Casa Maria. “Ah, aqui é como estar em casa, as amizades, a irmandade, tudo aqui é muito bom”, conta.

Em função de um câncer de próstata, ela faz radioterapia. Sua esposa, a filha e a cunhada se revezam para acompanhá-lo.

Elas precisam de ajuda

Ainda que funcione como um lar, as duas ONG’s precisam de mudanças, tanto de infraestrutura como de locações. A Casa Maria ainda tem sede em local alugado, mas o plano é que futuramente seja possível comprar um imóvel maior e em melhores condições de alojamento. A sede própria é fundamental para que a casa possa atender mais pessoas e com melhor qualidade.

Já a Leon Denis pretende promover melhorias e tem a intenção de construir, ao lado da casa, uma segunda estrutura que possa receber transplantados. Embora tenha colaboração do Lions Camobi, a casa vai precisar de ajuda da comunidade para concretizar a obra.

Sobre o ato de ajudar, dona Dunia reflete: “Eu acho que existe a necessidade e o poder, e aí tu vais ou não te colocar em cima disso. Eu entendo estes três posicionamentos perante a necessidade: ‘eu posso e vou fazer’, ‘fico triste com a situação, mas não posso fazer nada’ e o ‘posso ajudar, mas vou me eximir’”. Dona Leonilda, dona Dunia, voluntários e colaboradores escolheram não se eximir. Mesmo com poucas condições, estão lá todos os dias dando apoio e acolhimento às pessoas que precisam de ajuda num momento difícil.

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