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A vida universitária após os 60



Uma cadeira de balanço na varanda, o som de pássaros cantando ao redor da casa, uma linha de crochê, uma bengala ou curtir um dia monótono. Essas são as cenas que imaginamos quando pensamos na velhice: dias que são sinônimos de descanso e tranquilidade para quem atinge uma idade avançada. Embora na maioria das vezes essas associações estejam certas, existem momentos nos quais encontramos histórias de idosos que decidem ir além do óbvio. Seja como ouvintes em aulas ou matriculadas nos cursos de graduação, são exemplos de que a idade não é um impedimento para buscar mais conhecimentos e novas experiências. E nunca é tarde para seguir seus sonhos.

“Decidi que o Jornalismo era o caminho de conhecimento e cultura”. 

Ao final da aula como aluno especial II na disciplina de Jornalismo Impresso II do curso de Jornalismo, seu Adão de Jesus Ferreira nos encontra para contar sua história. O caçapavano, que adotou Santa Maria desde os 19 anos, tem cinco filhos, doze netos e dois bisnetos do primeiro casamento. Também tem uma filha com a atual esposa, Ana Margarete Ferreira. Pensativo, o senhor de 80 anos relembra sua primeira graduação, há mais de 40 anos e, antes disso, a pequena fábrica de giz que possuía em Santa Maria. Era 1972 quando concluía sua formação em Educação Física pela segunda turma, pouco tempo após a fundação do Centro de Educação Física e Desportos da UFSM (CEFD), em 1970. Já em 1982, terminava a graduação em Direito, em Rio Grande.

Trabalhando paralelamente em suas duas áreas de formação, dividia seu tempo como professor e advogado nas cidades de Santa Maria, Rio Grande, Cachoeira do Sul e Porto Alegre. Já no começo da década de 1990, ao lado de sua esposa e a filha do casal, Ana Carolina, decidiu deixar o Rio Grande do Sul e o cargo de professor do estado para mudar-se para o Tocantins. Depois disso, tornou-se mestre em Extensão Rural e Licenciamento Ambiental, pela Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, em 2001. 

Quase 15 anos após sua aposentadoria, voltou para as salas de aula como ouvinte em disciplinas do curso de Produção Editorial e, em seguida, em Jornalismo. Quando perguntado sobre os motivos que o levaram a voltar a estudar, ele explica orgulhoso: “Queria justamente ter uma facilidade de escrever textos. Eu tenho um blog que escrevo alguns artigos e pensamentos.Queria ter conhecimento para poder completá-lo. Decidi que o Jornalismo era o caminho de conhecimento e cultura”. 

Para seu Adão, a principal dificuldade para produzir a matéria sobre produção de orgânicos para a revista .TXT foi o deslocamento para entrevistar as fontes. Para auxiliá-lo, contou com ajuda de sua esposa Ana Margarete, com quem vai completar 40 anos de casado no próximo ano.

“Todo ser humano tem sempre o que aprender” 

Voltando ao anoitecer para o seu apartamento na casa do estudante de UFSM (CEU II), depois de um dia cheio, dona Almeri Moura Pereira, estudante de Pedagogia, nos recebe. O cômodo, embora pequeno, demonstra o quão dedicada a moradora é: cama perfeitamente arrumada e polígrafos bem organizados em cima da escrivaninha. Mostrando as fotografias de sua colega de quarto, a senhora de 70 anos fala sorrindo sobre a diferença de idade entre as duas: “Mais uma experiência pra mim. Ela agora vai fazer 20 anos. A gente tem uma diferença de 50 anos e tá convivendo”. 

A senhora, que aprendeu a ler aos 10 anos e foi professora durante a adolescência, conta que decidiu voltar a estudar depois que o marido faleceu e, com as filhas morando longe, se sentiu sozinha: “fui fazer o EJA, em 2011 e 2012, para concluir o Ensino Médio. Aí, eu gostei daquela situação e pensei: ‘vou me inscrever para o vestibular’”. Depois de anos de aposentada do trabalho de telefonista da Companhia Rio-grandense de Telecomunicações (CRT), Almeri se viu apaixonada por Matemática e, após fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), se matriculou no curso, em 2013. 

Ao ser perguntada sobre seus primeiros meses na universidade, dona Almeri comenta sobre as dificuldades que passou. Relembrando suas idas e vindas da cidade natal, Sobradinho, para Santa Maria, diz que pensou várias vezes em trancar o curso, mas depois fez até aulas de computação para melhorar sua aprendizagem. “Nesse tempo, como é licenciatura, tinha que fazer umas disciplinas de Educação, então no segundo semestre eu me matriculei em três cadeiras”. Percebendo que gostou da área, a estudante decidiu prestar vestibular novamente, dessa vez para Pedagogia. “Escolhi Pedagogia porque eu já tinha tido um contato, já tinha sido professora”. 

Entusiasmada com o curso, a futura pedagoga expõe sua felicidade ao ir todos os dias para a aula: “a faculdade é superdifícil, mas parece que ela vicia. A gente quer estar aqui, na sala de aula, mesmo pra mim que é difícil”. Já sobre a convivência em um ambiente dominado por jovens, ela comenta que o preconceito existe, mas que também tem colegas e professores que a tratam com muito carinho. 

Dando início a parte final do curso e preparando seu trabalho de conclusão, ela fala sobre o futuro na profissão: “Eu não tenho muito essa ilusão, mas eu acredito que não vai ser em vão. Eu não tenho um objetivo, vou vivendo até quando Deus quiser”. E continua: “Como muitos professores falam, a gente aprende até morrer. E isso é verdade, porque todo ser humano tem sempre o que aprender”.

Como estudar na UFSM sendo idoso? 

Enem: 

Uma das formas de ingressar na Universidade Federal de Santa Maria é pelo Exame Nacional do Ensino Médio. Ao realizar a prova, qualquer pessoa pode concorrer aos cursos técnicos ou de graduação da UFSM, independente de sua idade.

Aluno Especial II: 

Outro meio de estudar na UFSM é como ouvinte. Pessoas com 55 anos ou mais podem se inscrever nas secretarias dos cursos. É necessário preencher um formulário para requisitar a vaga em até três disciplinas por semestre, sem manter vínculo com a universidade. A disponibilidade de vagas depende da procura pelas disciplinas e de uma  lista de preferência a ser cumprida. Para mais informações acesse: www.ufsm.br

BASTIDORES: 

O tema da matéria surgiu a partir de uma discussão sobre a invisibilidade que estudantes idosos sofrem em universidades, desde textos jornalísticos que falem sobre o assunto, até discussões dentro dos locais de ensino superior. Com o objetivo de entender como funciona a rotina dos alunos com 60 anos ou mais que frequentam a Universidade Federal de Santa Maria e suas dificuldades, conversamos com dois idosos em situações institucionais distintas e ouvimos suas histórias. 

Primeiramente, entrevistamos Adão Ferreira, aluno especial II da UFSM que participa de aulas no curso de Comunicação Social – Jornalismo. O senhor de 80 anos, que nos contou sua história e os motivos que o levaram a voltar a estudar, surpreendeu aos colegas com alguns fatos curiosos sobre sua vida. Depois disso, conversamos com Almeri Pereira, que é aluna regular do curso de Pedagogia e moradora da CEU II, a casa dos estudantes. A senhora de 70 anos também falou sobre sua experiência dentro do campus e os objetivos que a fizeram se matricular no curso. 

Ao final da matéria, percebemos que nunca sabemos a real história por trás de uma pessoa, seja ela idosa ou não. Também notamos que a idade não é um empecilho para correr atrás de seus sonhos e buscar novas experiências. Ao longo da produção do texto, obtemos um crescimento profissional e pessoal.

Reportagem: Eloíze Moraes e Paulo César Ferraz

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