O ODS 7 da ONU tem como objetivo garantir acesso à energia barata, confiável,
sustentável e renovável para todos, mas vemos esse objetivo cada vez mais distante, já que
apenas países de Primeiro Mundo têm quase 100% de sua população com acesso à energia.
O Brasil é um país em que cerca de 99,8% da população tem acesso à energia elétrica.
Esse processo se construiu ao longo dos anos, com o programa “Luz Para Todos”, criado em
2003, com o objetivo de levar a eletricidade para alguns lugares do país que ainda estavam
sem o devido acesso à energia elétrica. Apesar da quase universalização do acesso no Brasil,
o país conta com quase um milhão de pessoas sem acesso a um serviço de energia.
O mapa da IDSC (Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades) mostra os
domicílios com acesso à energia elétrica no Brasil, com a cor vermelha representando que
ainda existem muitos desafios na região e o verde indicando um alto índice de acesso. O
maior investimento no quesito energia está concentrado nas regiões Sul e Sudeste. A
consequência desse maior investimento nas regiões mais industrializadas é visível no mapa,
no qual a Região Norte aparece de maioria na cor vermelha, representando grandes desafios
enfrentados pela região. A região Norte tem sua grande parte coberta pela Floresta
Amazônica, predominando as zonas rurais e comunidades ribeirinhas, o que torna mais difícil
o acesso à instalação dos recursos necessários, mas não justifica a falta de acesso desses
moradores a um recurso básico.

Outro mapa do IDSC mostra a situação de vulnerabilidade energética do país. Diferente da falta de acesso à energia, a vulnerabilidade energética ocorre em situações em que a energia está presente, mas não é suficiente, confiável e adequada para garantir uma vida digna, ou seja, as pessoas têm acesso à energia, mas de uma forma extremamente precária. A Região Norte se destaca outra vez, negativamente, no quesito de vulnerabilidade energética.

Um estudo da Climate Policy Initiative (CPI) mostra que quase um milhão de pessoas vivem sem luz na região da Amazônia, recebendo fornecimento em apenas algumas horas do dia, por meio de geradores, enquanto outros três milhões de habitantes estão fora do Sistema Interligado Nacional (SIN) e são abastecidos por usinas termelétricas a óleo diesel.
No ano de 2020, foi criado o programa Mais Luz para a Amazônia, pelo Ministério de Minas e Energia, com o objetivo de promover o acesso à energia elétrica a regiões remotas e áreas isoladas da Amazônia Legal que ainda não possuem um sistema de distribuição de energia. Apesar das grandes distribuições do programa, ele não apresenta multas caso as metas não sejam cumpridas nem possui fiscalização. Um ponto crucial que dificulta a expansão dos beneficiados é a pouca troca de interações entre as empresas de distribuição de energia elétrica e as comunidades, dificultando a solução dos problemas enfrentados.
Pouco antes da COP30, que aconteceu no Pará em 2025, a USP realizou um seminário intitulado “Universalizando o Acesso à Energia Elétrica na Amazônia Legal: Desafios e Soluções para Sistemas Isolados”, em que o Instituto de Energia e Ambiente (IEMA) esteve presente. Temas de ajustes, políticas públicas e estratégias de universalização de energia foram debatidos. Pesquisador do IEMA, Vinicius Oliveira da Silva, falou sobre a importância de políticas públicas nas comunidades da Amazônia e ressaltou a necessidade de acompanhar essas comunidades, nas quais o programa Mais Luz para a Amazônia apresenta dificuldades. Em uma de suas falas, Silva mostra a importância do devido acesso à energia: “Sem energia elétrica, crianças em escolas ficam sem acesso à merenda adequada, postos de saúde têm dificuldades em atender plenamente a população e produtores locais enfrentam problemas para preservar e comercializar seus alimentos”.
Durante o evento foi reforçada a importância de energias alternativas para atender as comunidades isoladas, como sistemas de energia fotovoltaica, mas sua realização depende de políticas públicas que assegurem a inclusão social e a preservação ambiental na Amazônia.
Energia hidrelétrica e suas contradições
A principal fonte na matriz brasileira é a hidrelétrica, que utiliza a força da água para gerar eletricidade de forma renovável e relativamente limpa. Apesar de ser considerada uma fonte renovável, também possui muitas limitações e pontos negativos.
Com o aumento do consumo de energia no país ao longo dos anos, houve a necessidade de construção de usinas hidrelétricas ainda maiores e isso causa inúmeros impactos ambientais e sociais. Para a construção de uma usina, é necessário bloquear o fluxo natural da água de um rio com uma barragem e, nesse processo, muitas áreas são alagadas, fazendo com que haja perda de vegetação e de biodiversidade do local. Nesse processo há a alteração do curso natural dos rios, a perda da flora e da fauna aquáticas e o aumento da poluição do rio.

Os impactos sociais se relacionam com as comunidades que vivem em volta ou em áreas próximas ao rio. As construtoras das hidrelétricas deixam de lado os povos tradicionais e quilombolas, que são obrigados a se deslocar do lugar no qual viveram em toda a vida, perdendo sua segurança alimentar e renda. Caso não o deixem, correm o risco de sofrer violência e de contrair doenças transmitidas pela água.
A Usina Hidrelétrica de Tucuruí, na qual Hilton Durão, quilombola do Quilombo Porto Alegre, no Baixo Tocantins, esteve no encontro “Hidrelétricas: a solução energética condenada pela crise climática?”, no painel da COP26. Ele relatou que, na época da instalação, mais de 30 mil pessoas foram expropriadas sem uma consulta prévia e que agora essas mesmas pessoas precisam pagar um valor acima da média pela energia. Outro exemplo é a Usina de Belo Monte, em que comunidades tradicionais ficaram traumatizadas no período de sua construção, que foi exposta pela mídia nacional e internacional. Com toda a exposição e também protestos de indígenas locais, foi impedida a construção de uma nova usina hidrelétrica no rio Tapajós.

Consumo de energias sustentáveis no Brasil
Apesar de dois terços da energia do Brasil vir das hidrelétricas, a conscientização e o consumo de energias limpas vêm aumentando ao longo dos anos, colocando perspectivas para a redução da dependência da energia hidrelétrica. Isso está alinhado à busca de valores menores na conta de luz e também à preservação do meio ambiente.
No Balanço Energético Nacional de 2025, foi divulgado que no setor residencial brasileiro cerca de 71,8% veio de fontes renováveis, com grande parte vindo da energia solar. Além do setor residencial, o setor industrial também apresentou diminuição no uso de energias fósseis em favor da energia solar. O Brasil é um país extremamente apto ao consumo dessa energia, já que possui abundância no quesito solar, e as empresas e a população vêm percebendo isso.
Na região Sul, a Creluz, uma cooperativa de energia, também incentiva as energias renováveis e investe em usinas hidrelétricas próprias, que são menores e causam um menor impacto ambiental. Nos últimos anos, a empresa tem desenvolvido usinas solares fotovoltaicas, além de construir eletropostos para os carros elétricos.
No programa “Mais Luz para Amazônia”, cerca de 78 domicílios com 400 pessoas foram beneficiados com a energia solar. Habitantes que antes tinham apenas 2 horas de energia por dia e não conseguiam refrigerar seus alimentos e água durante muito tempo. Agora, os moradores relatam que com a instalação da energia solar em suas residências, podem usar ventiladores e televisão, e o uso da geladeira não é mais um problema. Além disso, conseguiram montar pequenos negócios, como mercadinhos e vendas de peixes, que aumentaram a renda de grande parte dos moradores.

Por Luiza Abreu
Fontes consultadas:
Às vésperas da COP 30, IEMA discute acesso a energia elétrica na Amazônia em evento da USP
A dependência de hidrelétricas pode ser um risco para o Brasil, mostra painel na COP26
Documentário mostra impactos da Hidrelétrica de Belo Monte para população local | Brasil de Fato
Página Inicial — Ministério de Minas e Energia
Programa “Mais Luz para a Amazônia” gera renda em comunidade isolada | Âmbar Energia