
(Casa no bairro Itararé após enchentes / Foto por: Júlia Colnaghi)
Quando ocorre um desastre climático, nem todos enfrentam seus impactos da mesma maneira. Além das perdas materiais e dos riscos imediatos, muitas mulheres assumem a tarefa de sustentar redes de cuidado essenciais para a sobrevivência e a reconstrução das localidades atingidas. Em um contexto de intensificação de eventos extremos no Rio Grande do Sul, especialmente após as enchentes de 2024, pesquisas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) buscam compreender como essas experiências revelam desigualdades já existentes.
Uma das iniciativas é o projeto “Justiça climática e resiliência comunitária: integrando saberes locais e governança de riscos na prevenção de desastres em Santa Maria”, coordenado pela professora do Departamento de Direito da UFSM, Francielle Tybush. Um de seus objetivos é gerar dados concretos para algo que o campo teórico aponta há tempos: as pessoas mais afetadas pelos desastres são aquelas já vulnerabilizadas por questões de gênero, raça e classe.
Francielle defende o uso do termo “injustiça climática” em vez do já conhecido “justiça climática”. As mulheres, além de enfrentarem os impactos diretos de enchentes e deslizamentos, são as principais responsáveis pelas tarefas de cuidado, como a atenção aos filhos, aos idosos da família e aos companheiros doentes. A sobrecarga feminina após os desastres evidencia uma dupla vulnerabilidade, causada pelas consequências de um desastre climático e agravada por questões de gênero instauradas na sociedade.
Em seu trabalho de conclusão do curso de Direito, Júlia Colnaghi, orientada por Francielle, entrevistou mulheres dos bairros mais atingidos pelas chuvas de 2024 em Santa Maria. O objetivo da pesquisa é compreender como elas foram afetadas pelo desastre. Ao responderem sobre em quem pensariam ou salvariam primeiro no caso de um desastre, todas as mães afirmam priorizar os filhos (mesmo que já sejam adultos ou não morem na mesma casa), os companheiros e os animais domésticos.
Para Júlia, a pergunta costumava causar estranhamento entre as participantes da pesquisa. Para muitas, a resposta era tão evidente que parecia não haver outra possibilidade além de pensar primeiro na segurança de familiares e dependentes. “Era muito interessante que as mulheres achavam quase um absurdo eu perguntar isso”, comenta a pesquisadora.
A enfermeira Elizangela Machado, liderança da Associação Comunitária Tancredo Neves, um dos bairros pesquisados por Júlia, comenta que, em 2024, todas as atividades do centro foram interrompidas para dar lugar à organização e ao preparo das refeições. Além de tomar frente nessas iniciativas, Elizangela acompanha desde então mulheres cujas casas sofreram danos com alagamentos. Segundo ela, mães solo, idosas e viúvas estão entre as mais afetadas emocionalmente. “O céu escurece e elas já começam a entrar em desespero”, relata. Os impactos, em sua percepção, ultrapassam as perdas materiais: “às vezes não é uma cesta básica que elas precisam, às vezes é um acolhimento, uma palavra, um carinho”.
Ao falar sobre seu trabalho, Elizangela também ressalta um sentimento de sobrecarga em relação à própria rotina, dividida entre a atuação no centro comunitário e o cuidado da casa e dos filhos. “As mulheres tentam ser fortes o tempo inteiro, mas depois tu para e pensa: eu também não superei”, afirma.

(A enfermeira Elizangela Machado / foto: Emmanuelly Zini)
A doutoranda em Psicologia Social na UFSM, Alíssia Dornelles, pesquisa o que chama de “itinerários de cuidado” na experiência de mulheres diante das inundações no estado. A psicóloga reforça o argumento de que eventos climáticos extremos acentuam desigualdades já presentes na sociedade e aumentam ainda mais a carga de trabalhos de cuidado, muitas vezes invisibilizada. Em abrigos, cozinhas solidárias e espaços de acolhimento, eram elas que, na maioria das vezes, organizavam os alimentos, cuidavam de crianças e da limpeza dos locais.
Alíssia argumenta que pensar nos impactos das enchentes também passa por olhar para o que acontece depois das ações de resposta imediata aos danos. “Tem um processo de reconstrução que é também material, mas subjetivo”, afirma. Em sua tese, ela busca justamente compreender como as mulheres atravessam esse processo de reconstrução: “As mulheres sabem cuidar, elas amparam os outros, elas buscam ajuda para os outros. Mas onde é que elas olham para elas?”, questiona a pesquisadora.
A reflexão de Alíssia ecoa em outro desafio trazido por Francielle: além de não se priorizarem na busca por cuidados, muitas mulheres sequer se reconhecem como atingidas. Por causa disso, deixam de reivindicar direitos e acessar serviços disponíveis. É preciso tornar visíveis populações que historicamente permanecem à margem de políticas públicas, para que suas necessidades sejam consideradas antes, durante e depois dos desastres”, enfatiza a professora.
Texto: Felipe Santos, Giana Bess e Laura Fedatto