Para escutar o áudio da reportagem, clique abaixo:
Com a popularização das corridas de rua no país, cresce também a incidência de lesão em membros inferiores. No Brasil, cerca de 36,5% dos corredores amadores de rua já sofreram algum tipo de lesão. Fundado em meados de 2020, o Laboratório de Análise Musculoesquelética e Desportiva em Reabilitação (LAMDER) surgiu a partir da demanda dos próprios alunos do curso de Fisioterapia da UFSM. Por meio do ensino, da pesquisa e da extensão, o propósito é diagnosticar, prevenir e recuperar lesões. A iniciativa conta com mais de 20 estudantes de graduação e oito da pós-graduação.
O coordenador e fundador do Laboratório, Guilherme Nunes, reforça a proposta do grupo: “É um laboratório feito e conduzido por alunos, onde eles fazem o conhecimento”. O espaço não pertence a um docente ou programa de pós-graduação específico, o que garante um forte protagonismo estudantil em todas as suas etapas. O projeto une o rigor científico à formação de profissionais indispensáveis na Universidade.
O foco central do LAMDER é o desenvolvimento científico. A prestação de serviços diretos não é a atividade principal do projeto. No entanto, a equipe busca mecanismos para que seus membros possam praticar atendimentos por meio do projeto de extensão Análise e Prevenção de Lesões Musculoesqueléticas e Desportivas (APREMDE). O grupo atende pacientes vinculados à Universidade, selecionados após uma longa fila de espera. O foco é em lesões de membros inferiores, como dores crônicas no joelho e entorses de tornozelo.
A iniciativa coloca os estudantes no centro do atendimento. Eles são os responsáveis pelas práticas clínicas junto à supervisão de professores e pós-graduandos. Para as avaliações, o Laboratório utiliza equipamentos próprios de tecnologia avançada, como dinamômetros e plataformas de força. Hoje, a atuação do projeto só é limitada pela ausência de estrutura física maior.
Além das corridas, há uma crescente na popularidade de esportes recreativos como beach tennis e padel. As queixas sobre dores nos membros inferiores se tornaram cada vez mais frequentes. Para estudar essas condições e responder aos questionamentos da comunidade, o LAMDER concentra grande parte de suas pesquisas em lesões de joelho e tornozelo. No entanto, um dos papéis do laboratório é atuar na linha de frente para desmistificar crenças populares: a ideia de que sentir dor é, obrigatoriamente, sinônimo de ter uma lesão grave ou alteração estrutural permanente no corpo.
O chamado valgo dinâmico, popularmente conhecido como o ato de “correr com o joelho para dentro”, é um ótimo retrato desse embate entre a ciência e o senso comum. A população tem curiosidade em saber se realizar um movimento biomecanicamente incomum leva diretamente ao machucado. Contudo, pesquisas de laboratório revelam que essa alteração de movimento, analisada de forma isolada, não é um fator determinante para a ocorrência de lesões.
Dentro do projeto, os futuros fisioterapeutas aprendem que o desenvolvimento de uma lesão esportiva é o resultado de uma associação complexa de múltiplos fatores, e não a consequência de uma única circunstância mecânica. Por conta disso, a abordagem indicada na fisioterapia é baseada em evidências e se afasta da tentativa de focar exclusivamente em corrigir uma única alteração de movimento. Em vez disso, os alunos são treinados para adotar uma visão global do paciente e compreender que essa amplitude de análise prepara o atleta para retornar ao esporte com o mesmo desempenho e segurança anteriores à lesão.
Conhecimento que transforma
Poucas pessoas acompanharam o LAMDER tão de perto quanto a mestranda de Fisioterapia Brenda Guterres. Ela entrou como voluntária em 2020 e construiu toda a sua trajetória, do TCC ao mestrado, no projeto. “O laboratório foi essencial para a minha formação. Tanto para o meu conhecimento científico quanto para o desenvolvimento como estudante e formação profissional”, afirma. A dissertação de Brenda investiga quais intervenções os fisioterapeutas utilizam com atletas imediatamente antes da prática esportiva. Para isso, ela aplicou um estudo piloto que está na fase final de coleta de dados. O trabalho é uma extensão da monografia, que analisou os efeitos da massagem pós-fadiga muscular em atletas universitários em um ensaio clínico randomizado, desenvolvido em parceria com duas colegas do projeto. O ensaio é um estudo científico que sorteia pacientes em grupos para testar e comparar a eficácia de um tratamento de forma imparcial. A colaboração é parte essencial do processo. “É impossível fazer uma boa pesquisa sozinha”, diz Brenda.
Já o estudante do sexto semestre de Fisioterapia, Gabriel Galetto, entrou no laboratório em setembro de 2025 depois de conhecer o LAMDER pelo Instagram. O que começou como curiosidade nas redes virou uma escolha concreta. Hoje, Gabriel contribui com coletas para artigos e TCCs, participa da escrita científica e atua na comunicação do laboratório.
O impacto na formação foi imediato. “O LAMDER me proporcionou oportunidades na escrita científica, participação em coletas de pesquisa e contato com estudantes da pós-graduação, ampliando significativamente meu aprendizado”, conta. Mas a mudança mais marcante foi outra: o laboratório despertou o interesse na pós-graduação, que Gabriel não cogitava antes de entrar no projeto. Para o estudante, a importância do espaço vai além da formação individual. “O laboratório é referência quando o assunto é pesquisa científica”, afirma.
O orgulho pelas trajetórias e pelo esforço conjunto do laboratório fica estampado em um mural com artigos científicos publicados pelos acadêmicos, em sua maioria frutos de trabalhos de conclusão de curso. Entre os destaques estão estudos realizados em parceria com a Seleção Brasileira de Vôlei Masculino, desenvolvidos durante o ciclo olímpico. Um dos artigos mais recentes, publicado em junho deste ano, avalia 86 atletas universitários de diferentes modalidades esportivas e avalia os efeitos da massagem terapêutica após um período de fadiga muscular induzida. O estudo orientado pelo coordenador conclui que o mecanismo analgésico da massagem provavelmente não está relacionado à rigidez muscular. Os efeitos parecem apenas agudos e de curta duração.
Para garantir a continuidade das pesquisas e se manter fiel à proposta do projeto, o coordenador Guilherme resume a missão do espaço em uma frase: “A publicação não pode ser o foco. Na verdade, ela é a consequência de um trabalho bem feito”. É com essa mentalidade que o laboratório incentiva o desenvolvimento diário dos alunos e os prepara para conduzir os próximos movimentos do LAMDER.
Reportagem por Bernardo Tadioto Centenaro e Leonardo Cabistani Koehler