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Caminhos para o desenvolvimento da fala

NEPAI realiza avaliações auditivas em crianças



Para escutar o áudio da reportagem, clique abaixo:

Foto horizontal e colorida de uma mesa com brinquedos e objetos decorativos, em um ambiente infantil ou de atendimento. No centro da imagem, há uma luminária branca em formato de galinha, com crista vermelha, bico laranja, bochecha vermelha e pés laranja. À direita da galinha, aparece uma cesta plástica transparente com peças coloridas em tons de amarelo, verde, azul e bege. Na parte inferior da imagem, sobre a mesa, há um brinquedo laranja em formato de martelo. À esquerda, aparecem porta-retratos com fotografias e um frasco de álcool em gel parcialmente escondido atrás da luminária. Ao lado do frasco de álcool em gel, ao fundo, há um quadro com a ilustração de um dinossauro verde e a palavra “RAWR!”. Ao lado aparece um urso de pelúcia marrom que segura uma almofada vermelha em formato de coração, com a frase “I Love You” escrita em branco. No fundo da imagem, há uma parede clara e um armário branco com puxadores.
Brinquedos utilizados para adaptar as avaliações auditivas às crianças.

Antes de uma criança falar as primeiras palavras, ela já se comunica. O olhar, os gestos, as reações aos sons e a forma como responde ao ambiente também fazem parte do desenvolvimento da linguagem. Por isso, avaliar a audição infantil não significa apenas descobrir se uma criança escuta. Em muitos casos, o exame ajuda a investigar dificuldades de fala, comunicação e aprendizagem, além de orientar os próximos encaminhamentos. 

Durante a disciplina Prática Clínica de Fonoaudiologia Hospitalar, do curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), uma menina de dois anos chega à ala de Fonoaudiologia do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) para uma avaliação auditiva. A atividade integra o módulo de Triagem Auditiva Neonatal e Avaliação Eletrofisiológica da Audição Infantil. A família busca investigar possíveis alterações na audição e compreender melhor o atraso no desenvolvimento da fala. A professora Eliara Pinto Vieira Biaggio, conduz o atendimento com estudantes da disciplina. Durante a avaliação, a criança circula pela sala, brinca, interage com a equipe e responde às propostas de acordo com o próprio tempo. A cena evidencia que a avaliação infantil exige mais do que técnica: envolve paciência, observação e adaptação constante às necessidades de cada paciente. 

Ao final dos exames, a avaliação indica que a menina não tem deficiência auditiva. Com a possibilidade de alteração na audição descartada, ela é encaminhada para atendimento fonoaudiológico voltado ao desenvolvimento da fala e da linguagem. O caso mostra que descartar uma deficiência auditiva é parte fundamental do cuidado, uma vez que ajuda a família a seguir por outros caminhos de investigação e acompanhamento. 

Nesse ponto, o trabalho do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Audição Infantil (NEPAI) se aproxima da rotina das crianças e famílias. Vinculado à fonoaudiologia da UFSM, o Núcleo realiza avaliações auditivas e integra ensino, pesquisa e extensão. A coordenadora do grupo, Eliara, resume uma das ideias centrais da área: “Uma coisa é escutar, outra coisa é entender”. 

Do teste da orelhinha ao acompanhamento 

O cuidado com a audição começa ainda nos primeiros dias de vida. No HUSM, a fonoaudióloga Maria Rita Leal Ghisleni atua na Triagem Auditiva Neonatal (TAN), conhecida como teste da orelhinha. O procedimento é realizado em recém-nascidos e funciona como uma primeira etapa para identificar possíveis alterações auditivas. No hospital, cerca de 200 bebês passam pela triagem a cada mês, com média de 12 a 14 avaliações por dia.

Quando o teste indica necessidade de nova avaliação, o resultado ainda não significa um diagnóstico fechado. Fatores do próprio nascimento, como a presença de vérnix na orelha, podem interferir na avaliação. Por isso, o bebê retorna para o reteste da orelhinha e, se a alteração persiste, é encaminhado para diagnóstico audiológico. Para Maria Rita, a identificação precoce permite que a criança receba acompanhamento e, quando necessário, recursos que favoreçam o acesso aos sons e o desenvolvimento da fala.

Foto horizontal e colorida de um quadro com a identificação do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Audição Infantil. No centro da imagem está o quadro retangular, que tem moldura azul clara e fundo branco. Dentro dele, aparece um desenho formado por linhas azuis e vermelhas: à esquerda, há um coração com a ilustração de um bebê no interior; à direita, o desenho se conecta a um estetoscópio. Ao redor da ilustração, está escrito “Núcleo de Estudos e Pesquisas em Audição Infantil” em formato circular e letra cursiva. Também aparecem pequenos pontos vermelhos e linhas vermelhas que lembram ondas sonoras. Ao fundo, há uma parede clara.
Placa de identificação da sala do NEPAI.

Depois da triagem, a investigação auditiva pode seguir por diferentes caminhos. Crianças com suspeita de perda da audição, atrasos na fala, trocas de sons, dificuldades de linguagem, otites de repetição ou dúvidas durante a investigação de outras condições do desenvolvimento exigem novas avaliações. Segundo Eliara, a avaliação auditiva também é necessária em casos de investigação para transtorno do espectro autista, já que alterações na audição podem existir junto a outras características do neurodesenvolvimento. 

Para chegar a essas respostas, os exames precisam se adaptar à infância. Alguns dependem da participação da criança, como a audiometria, que representa a principal avaliação comportamental da audição. Nesses casos, recursos lúdicos podem ajudar a transformar o teste em uma atividade mais adequada. No NEPAI, por exemplo, a equipe utiliza brinquedos durante a avaliação. Em uma  das demonstrações, a criança é convidada a alimentar uma galinha de brinquedo sempre que percebe o estímulo sonoro. A estratégia ajuda a manter a atenção e mostra como a técnica pode ser ajustada à idade e ao comportamento de cada paciente. 

Nem sempre a resposta vem de forma simples. Crianças pequenas ou neurodivergentes podem apresentar desconfortos sensoriais, dificuldade de interação ou resistência ao uso de equipamentos. Por isso, o atendimento exige atenção ao ambiente e ao tempo de quem é avaliado. Eliara explica que, em alguns casos, é preciso reduzir estímulos visuais, evitar o uso de jaleco, começar com sons mais fracos ou diminuir o número de pessoas na sala. “A gente tem que adaptar a técnica à criança”, afirma. Quando os testes comportamentais não são possíveis, exames objetivos, com eletrodos colocados na pele, registram respostas do sistema auditivo sem depender de uma reação direta do paciente. Esses exames são conhecidos como Potenciais Evocados Auditivos. Para ela, a avaliação audiológica não deve ser feita a qualquer custo, mas de forma humanizada, com respeito aos limites de cada atendimento.  

Além dos atendimentos clínicos, o NEPAI desenvolve pesquisas voltadas à audição e ao neurodesenvolvimento infantil. Entre elas estão análises sobre o Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico, (PEATE), exame que registra respostas do sistema auditivo a partir de estímulos sonoros, sem depender de respostas verbais ou comportamentais da criança. As pesquisas buscam compreender como essas respostas aparecem em crianças neurotípicas para, depois, comparar os resultados com avaliações feitas em pacientes autistas, especialmente em estudos relacionados à hipersensibilidade auditiva e ao diagnóstico diferencial. 

Essa aproximação entre produção científica e atendimento passa pelo contato com famílias. Um exemplo é a participação de integrantes ligados à associação Universo Atípico, de Santa Maria, que ajuda a ampliar o acesso às avaliações e a aproximar o núcleo de demandas vividas fora da universidade. Quando alguma necessidade é identificada, o acompanhamento não termina no exame: conforme o caso, a criança é encaminhada para as práticas clínicas das diferentes áreas da fonoaudiologia na Clínica-Escola da UFSM, no prédio 26E, ou para outros serviços da rede municipal. 

O NEPAI reúne estudantes de iniciação científica, extensão, mestrado e doutorado que atuam lado a lado nos atendimentos e pesquisas. É uma formação que acontece no contato direto com as crianças e suas famílias, tanto na Clínica-escola de Fonoaudiologia quanto no HUSM. De acordo com a professora Eliara, a aproximação entre Universidade e sociedade se traduz em impacto concreto: famílias que chegam sem respostas encontram caminhos, e crianças que poderiam aguardar muito tempo por um diagnóstico recebem acompanhamento.

Repórteres: Gabriela Alves e Larissa Froeder Butzke 

Fotografia: Eduarda Zonta

Contato: gabriela.alves@acad.ufsm.br / larissa.butzke@acad.ufsm.br 

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