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SEGURANÇA À PROVA DE CHAMAS

UFSM trabalha na prevenção contra incêndios



Venerado por nossos ancestrais, o processo químico de combustão rápida que libera luz e calor, apelidado de fogo, nem sempre foi sinônimo de perigo. Na Roma e Grécia Antiga, a ‘chama sagrada’ simbolizava a união e proteção famíliar. Porém, em paralelo à veneração, o poder destrutivo das chamas também acompanhou a história da humanidade. 

Em Santa Maria, isso não foi diferente. Vista como uma das maiores tragédias do Brasil, o incidente da Boate Kiss foi um marco na legislação de segurança contra incêndios no país. Ocorrido em 2013, os desdobramentos do acidente proporcionaram a revisão e readequação de uma série de normas, além da criação de legislações como a Lei Kiss, ou decretos como o 50.803, que tornaram mais rígida erestritiva a segurança.

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a legislação criada a partir da tragédia na boate estimulou a criação do Núcleo de Prevenção de Incêndios (NPI). O setor integra a Pró-reitoria de Infraestrutura (Proinfra) e verifica as condições de mais de 350 edificações, só no Campus sede, além de garantir materiais de segurança e fazer a manutenção dos equipamentos.

 

Os desafios de uma cidade-escola

Atualmente, cruzam pelo arco da UFSM mais de 30 mil pessoas, divididas entre técnico-administrativos, professores e acadêmicos. Em números, a ‘população universitária’ supera a quantidade de habitantes de mais de 400 municípios do Rio Grande do Sul.

Aos 65 anos, a UFSM possui construções das mais variadas idades e arquiteturas. A primeira delas foi o Centro de Tecnologia (CT). A mais recente foi o prédio 5F, do Colégio Técnico Industrial de Santa Maria, inaugurado em 2026. Na década de 1960, edificações com corredores e escadas estreitas eram comuns, bem como a pouca oferta de locais de saída. Nesse sentido, a vida de quem trabalhou em diversas épocas no Campus, contrasta com as mudanças e evoluções que a Universidade teve. Vigia do Hospital Universitário de Santa Maria na década de 80, José Carlos Dantas conta que prédios de grande circulação como o Hospital Universitário nem sempre tiveram a atenção merecida: “antigamente, se tinha fumaça, fogo ou qualquer problema, a gente dava um jeito de resolver. Não existia protocolo, orientação ou manual”. Entretanto, o ex-servidor destaca que, hoje, além de extintores por toda a parte, há também alarmes e tecnologias que detectam o fogo automaticamente.

 

Medidas básicas de segurança

 Apesar das restrições e rigidez na legislação, após 2013, os novos decretos abriram exceções conforme a idade e atividade prestada na edificação, o que significa que nem todas as construções podem ser alteradas, mas as que estão em uso possuem medidas básicasde segurança contra incêndios (box).
De acordo com o NPI, há mais de 3,5 mil extintores espalhados pela UFSM, mas nem sempre a disponibilidade desses materiais significa a solução do problema. Edificações com grande circulação de pessoas, como os restaurantes universitários (RUs), também possuem servidores com cursos de brigadistas, que os capacitam a manusear, verificar equipamentos e orientar as pessoas em situações de perigo. Faxineiro do RU 2, João Arantes conta que cada etapa do curso simulou circunstâncias diferentes. “Verificamos a validade de extintores, apagamos princípios de incêndio, aprendemos a fazer primeiros socorros e até conduzimos evacuações de emergência”, descreve.
 

Simulações de incêndio

Em uma Instituição com tamanho de cidade, um dos grandes desafios é simular situações de incêndio. Além de ter sido o primeiro núcleo construído na UFSM, o Centro de Tecnologia também foi pioneiro nas simulações. Em abril de 2025, a atividade coordenada pela direção do Centro, pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Engenharia de Segurança Contra Incêndios (Gepesci) e pelo NPI reuniu mais de 600 pessoas com o objetivo de capacitar docentes, discentes e brigadistas.

O professor Rogério Antocheves tem pós-doutorado em Segurança contra Incêndio e ajudou na organização do evento. Para ele, simulações são atividades complexas que demandam meses de planejamento.”Toda a preparação foi realizada de forma sigilosa para garantir uma análise mais precisa sobre o comportamento do público. Também usamos as redes sociais para informar a comunidade, sobre como se portar nesses casos, e destacar equipamentos aliados como extintores, placas de sinalização e saídas de emergência”, pontua.

A formanda do Curso de Engenharia Civil, Carolina Matos, salienta que a divulgação desses conteúdos contribuiu para manter as informações frescas na memória e favorecer a resposta adequada durante a simulação. Para o primeiro tenente Alexandre Sena, comandante do 3o Pelotão de Bombeiros Militares de Camobi, apenas com treinamento é possível garantir eficiência nas simulações e reforçar o olhar atento para os protocolos e características de cada edificação. O profissional sugere que a cultura de prevenção de incêndio faça parte do cotidiano desde a infância: “Estamos em um processo de evolução. Seria interessante difundir este assunto nos bancos escolares, não apenas na parte acadêmica, mas sim nas séries iniciais, criando conhecimentos básicos”, explica Alexandre.

 

Dor e esperança

A tragédia da Boate Kiss vitimou 242 pessoas. Entre elas, mais de cem eram estudantes da UFSM ou vestibulandos. Presidente da Associação de Familiares e Vítimas da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Flávio José da Silva perdeu sua filha Andrielle Righi da Silva, que na época tinha 22 anos. Desde 2013, ele participa ativamente na luta por justiça, além de contribuir com a comunidade de familiares ligados às vítimas.

De acordo com Flávio, anualmente entram milhares de novos estudantes na Universidade, e muitos deles eram crianças quando aconteceu a tragédia. Portanto, a criação de um “projeto de memórias” tem a função não apenas de relembrar a tragédia, mas também de enfatizar as causas e construir uma cultura de prevenção seria o ideal em uma cidade universitária. O presidente da Associação também destaca que a iniciativa é válida para que os jovens se tornem mais observadores e não escolham opções de entretenimento que não garantam sua segurança: “Minha filha escolheu o ingresso mais caro disponível à venda naquela noite, mas pagou com a própria vida”, afirma.
Apesar das dores do passado, o pai de Andrielle Silva destaca a importância e a positividade de simulações de incêndio, dentro do Campus. “Sei que atividades como essa são complicadas, mas o treinamento permite que as pessoas estejam preparadas e vidas sejam salvas”, ressalta.

 

Futuro e prevenção

Em 2026, o trabalho conjunto do pró-reitor de Infraestrutura da UFSM, André Lübeck, juntamente com o chefe do NPI, Matheus Leiria, tem gerado avanços na prevenção de incêndios no Campus. Além de garantir que todas as edificações estejam com medidas básicas de segurança, a equipe finaliza, neste momento, um sistema digital de transparência disponível no site da Instituição. O recurso possibilita a verificação e a manutenção da situação dos extintores espalhados pela Universidade.

Além disso,a Proinfra tem articulado a realização de um curso de brigadistas que capacite professores e servidores de diversos setores do Campus. A medida é um dos passos para garantir mais simulações por toda a UFSM. De acordo com André Lübeck “não somos perfeitos e cometemos erros, mas não descansaremos quando o assunto for a segurança de nossa comunidade”.

 

Medidas de proteção ativa contra incêndio:

1. Extintores de incêndio: Equipamentos portáteis essenciais para o combate inicial ao fogo, disponíveis em diferentes tipos conforme a classe do incêndio.

2. Sinalização de emergência: Placas e sinais que indicam saídas, rotas de fuga, localização de extintores e outros equipamentos de segurança.

3. Iluminação de emergência: Luzes que se ativam automaticamente em caso de falha no fornecimento elétrico, garantindo visibilidade nas rotas.

4. Treinamento de prevenção e combate para os servidores: Capacitação de profissionais para orientar as pessoas em situações de incêndio.

Repórteres: Gabriel Ferraz e Felipe Wenceslau 

Contato:  gabriel.ferraz@acad.ufsm.br | felipe.wenceslau@acad.ufsm.br

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